quinta-feira, 17 de março de 2011

KORATÃ - Ara Aguyje/ 2011

Neste texto retomo alguns temas que se apresentaram em “aty, nas cerimônias que realizamos durante o “guata porã”, a caminhada sagrada, de treze dias em que andamos pelo vale do rio Dolores, na Argentina.
Escrevo para os caminhantes das cinco noites e dos treze dias que participaram dessa jornada e também para partilhar com os que não puderam estar presente, um pouco do que vivenciamos, pois, por outro lado, senti que todo o nosso povo Guarani de uma forma ou de outra esteve conosco, na reza, no espírito.

A MINA
Na primeira noite de cerimônia dormimos em uma oka onde não pudemos acender o tata porã, fogo sagrado, pelo fato de enfumaçar o ambiente, o exaustor não estava adequado, e por mais que tentássemos concertar, não dava certo, mas em nada nos abateu esse desagradável incidente, nesse enfrentamento inicial já pude sentir que estava com um povo bem guerreiro. Pela manhã, partimos do tekowa Pu’aka, da aldeia de “La Victoria”, seguimos pelo leito de uma canhada seca e já no entardecer estávamos adentrando nos legendários montes de Córdoba. A segunda noite nos encontrou sentados ao redor de um tata porã, fogo sagrado, no alto de um serro, junto à boca de uma mina de cobre de tempos imemoriais, de onde avistávamos a montanha do Uritorco. Por toda a noite fomos sobressaltados por morcegos sedentos, insistentes, de vôos rasantes.
No silêncio acumulado da vegetação me acomodei abrigando minha rede entre os galhos de dois Quebrachos Colorados. Adormeci olhando o céu descortinado e, sem me desprender da noite, sonhei com uma semente que caia sobre um leito de cobre, como uma estrela cadente; pensei: “é um ninho de trevas insepultas”. Dentro dessa semente multidões de povoados guardavam o porvir das colheitas, trançavam fibras, e em enredadeiras têxteis confeccionavam flores multicoloridas.
Toda uma existência brotou dessa semente verde de cobre oxidado: todo um campo, uma agricultura que como um rio de miríades de grãos de ouro jorrava em panelas de vapores perfumados, estendendo-se sobre contas de sol. Mas no horizonte havia dores, a selva vista dali era uma gruta azul.
Na gruta tudo era silêncio de pedra e musgo. Olho o vazio, não há ninguém, somente arbustos e pedras de quartzo branco, feito água na noite clara. Somente cabeleiras vegetais quebram essa ausência. Brilhando com a lua todos esperavam sua morte diária. O que entregava a morte dizia: “O ser como o milho se debulha no inesgotável celeiro dos dias desfeitos”.
O vento balançava as redes no ritmo de uma canção que dizia assim: “mil anos de ar, de mão azul etérea, com suaves e cuidadosos toques lustraram este solitário recinto de pedra”. Então olho a parede desgastada da mina e toco a superfície impregnada do suor de um rosto que olha com os meus olhos e toca com as minhas mãos o meu rosto cansado.

O VALE
Pela manhã descemos em direção ao vale, e já nesse segundo dia de caminhada estávamos junto ao ponto que tínhamos como referência. Foi o prazer de ouvir o canto da água após todo um dia de percurso por terra árida e vegetação crestada.
Toda a tarde transcorreu sem tempo, largas horas de sol ardente, dentro da água como num útero de frescor, abrigo de prazer junto a mim. Pude ouvir sem que ninguém visse que você veio de onde eu vim, do amanhecer da terra sem nome, de um ventre de argila, me contou também da paz de teu reino que todo povoado de perfumes tem uma eternidade secreta onde a lua não pode alcançar nem pratear no outono.
Já a terceira noite nos encontrou sentados ao redor do tata porã nas margens de um rio cristalino, entre paredões enormes nos sentíamos pequenos naquela magnificência da natureza e ao mesmo tempo majestosos por sermos parte daquela nobreza como filhos de Ñandexy Ywy retã, nossa mãe terra.
O aywu, a fala-meditação dessa noite nos recordou de lembranças adormecidas, de tempos ancestrais, de quando homens e mulheres caminhavam pela terra coletando seus frutos e adormecendo assim, ao redor de um tata porã, no aconchego de seus entes queridos. E tinham o seu sono acalentado por uma canção, por uma história ou pela emergência de um tema, quando o saber era então dessa maneira perpetrado, desenvolvido ou renovado.
Nessa noite o espírito do aty nos falou sobre o Koratã, como algo que esta para além do sonho e por tanto do que é possível de se dizer e que sendo assim, tudo que se disser não é, mas que por distração ou descuido por vezes voltamos a falar, neste caso foi mais para sentir a impregnação da voz no silêncio.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

Acabei dizendo que Koratã é a expressão do coração de Ñamandu, do coração de cujo centro emana as cores que salpicam os campos em forma de flores, ou os ares em forma de pássaros; e que é como um fio de luz na mão de um tecelão ou de uma tecelã que trama o passado, o presente e o futuro do mundo. E que koratã é também a canção que está gravada no coração de todo homem e de toda mulher, ou a urdidura aonde o tecido da vida vai ganhando a sua conformação.

ALGARROBO
Não tivemos dificuldade na sustentação de nosso corpo. Nas margens do rio Dolores havia muito agrião, e nas margens dos caminhos pitanguy’i e xania. Levamos conosco bastante petã, tabaco, e kaayu, mate guarani para o alimento cerimonial; o sol nos supria durante o dia com a sua luz, e à noite as estrelas e a lua. À noite acendíamos os petyngua, as respirações se convertiam em fragrâncias, como rosais de ares espectrais.
De dia coletávamos vagens doces de algarrobo, era como mamilos, mamávamos de seus frutos, com eles fazíamos um chá bem espesso, destilávamos leite. Árvore mãe, existência territorial, um antigo aroma propagado pelos interstícios da terra. Ruga e extensão sob uma suave povoação de estrelas, sarça selvagem que nos pegou no colo como crianças extraviadas de alguma mãe, teu instinto nos abrigou e amamentou.
Por todos os dias o sol nos forneceu sua cálida energia, sempre esteve brilhando no céu. Entretanto, assim como a nuvem que intercepta seus raios , a chuva que nos molha e o vento frio que nos faz tremer, houve momentos em que o sol desapareceu de diante das pessoas, como se guardasse o silêncio.
Mesmo nesses momentos, Kwaray, o pai-mãe sol, que irradia inabalável luz dourada, esta presente, acima do mar de nuvens. E ainda que num determinado momento a luz dele (a) desapareça do coração dos homens e das mulheres da terra, seu “yxa”, seu feixe radiante, jamais deixa de penetrar por entre as nuvens.
Kwaray, o sol, é a emanação de Ñamandu visível para todos em nosso mundo. E Ñamandu é “Ña”, aspecto feminino, e “man”, aspecto masculino. Em algumas línguas se diz “manu” em lugar de “mandu”. “Mandu’a” é a memória genética do mundo. Em outras línguas se diz “Emanu”; em hebraico, língua que os guarani falaram no período missioneiro se diz “Emanuel”, “el” frisando o aspecto divino.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty
Ou seja, a melhor tradução para Ñamandu é Emanuel. E a sua presença mais evidente entre nós são seus raios.
Podemos sentir Ñamandu, na noite, através de nossa avó Jaxy, a lua, ela é médium do sol. Também podemos vislumbrar através dos outros sois, de Jaxy tatá, as estrelas. E do tata porã, o sol que emana dos vegetais. Nosso ñeem, espírito, é fogo, é luz, podemos senti-lo através do calor dos homens e das mulheres enquanto estão vivos.
Galhos secos de algarrobo que coletamos nos montes, nos possibilitaram o fogo, iluminando e aquecendo nossas noites. Seu néctar nos deu caloria, ativando nossa chama interior. Kwaray estava em seu interior, emanava de seu Koratã. Sol vegetal. Árvore relâmpago, árvore trovão, tupã sobe por suas raízes, teus frutos te resumem tornando-se parte integrante de nosso amor para sempre.

RUWYXA
No quarto dia uma parte da tribo retornou ao acampamento base, ao Tekowa Pu’aka. Sua jornada terminaria na quinta noite. Haviam cumprido o seu propósito. Permanecemos com um pequeno grupo de pessoas que caminhariam por treze dias. Na quinta noite dormimos cedo, sentimos muito a ausência dos companheiros e das companheiras que tinham partido.
No quinto dia um grupamento de Awa Guarani passou por nós e nos saudou, parecia que tínhamos visto uma miragem ali naquele lugar ermo. Na verdade ainda não sei com certeza se o grupamento de Awa que cruzou nosso caminho era deste mundo de matéria grossa ou se era do mundo de matéria fina. Esse tipo de fenômeno aconteceu muitas vezes comigo quando trabalhava na pesquisa de campo da dissertação sobre a “Arte do Mimby”.
Na sexta noite o espírito do aty falou sobre si. Falou sobre o Ruwyxa, o espírito guia e sobre o Jukupe, o espírito guardião. Disse que há muitos e muitos milênios atrás não havia o jukupe, o espírito guardião, ou anjo da guarda. Os viventes de Ñandexy Ywy Retã, de nossa mãe Terra, possuíam coração amoroso, e assim comunicavam-se diretamente com os Ñeem Porã, com os espíritos sagrados, com os espíritos santos, com o grande espírito. Nessa época não havia o inverso, o Inferno, nem maus espíritos.
Não havia, portanto, necessidade de espírito guardião para proteger um vivente da Terra.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty
Porém, em um determinado momento da existência do mundo, espíritos desarmônicos começaram a criar o Inverso, ou o “Mundo das Trevas”, na mais baixa dimensão do Universo. Como a luz de Ñamandu não chega ao Inferno, por ser barrada pelas nuvens tenebrosas; para sobreviver assim, eles passaram a conturbar o mundo terreno e se alimentar da emanação gerada por “Marã”, a desarmonia. Para isso os espíritos do inferno foram invadindo sorrateiramente o coração dos homens e das mulheres da Terra fazendo com que eles perdessem a dignidade e o respeito por si e pelos outros seres viventes de seu orbe.
Para evitar esse completo descalabro, os Ñeem Porã Subdividiram-se em cinco, ou seja, em principio, o espírito guardião é escolhido a partir do grupo de almas criadas no Mundo Espiritual mediante a divisão da luz, ou a partir do grupo de almas constituídos pelo sistema de um espírito-principal e quatro espíritos-ramos. Porém, para missões especiais na Terra, foi instituído o sistema de Espirito Guia, em que espíritos-especialistas são designados para desempenhar esse papel.
Desta maneira, consolidou-se esse sistema: de Jukupe, Espíritos Guardiões e Ruwyxa, Espíritos Guias. Mas, mesmo assim uma grande massa de gente da Terra continua tendo seu destino manipulado pelos espíritos do inferno que desta maneira deles se alimenta, e após seu desencarne os arrasta para os seus umbrais.

KORATÃ
No sexto dia chegamos ao coração do vale do rio Dolores. Um lugar indescritível. Na margem direita do rio, no sentido da jusante, subindo por um caminho de pedras preciosas - parece recurso literário dizer que o caminho é repleto de pedras preciosas, mas é pura realidade - seguindo por esse caminho chegamos a uma fonte. Uma bacia de pedra de cujo fundo brota uma água cor de champanhe e com sabor de champanhe. Creio que o sabor mais próximo ao dessa água é o de champanhe.
Pude ver com a visão do espírito que desde tempos imemoriais ali os nativos vinham para buscar a cura de todos os seus males. E que agora mesmo habitando outros mundos para este lugar vinham para buscar alento ou por saudade. Em seu entorno havia anjos curadores e zeladores, trabalhando na sanação e mantendo o lugar em harmonia. Mesmo transcorrido tantos milênios o lugar estava em perfeita harmonia.
Porém entretido na leitura das várias camadas do tempo deixei de perceber um detalhe muito curioso. Xerayxy Yxapy Rendy me chamou a atenção para uma inscrição
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

que havia na cabeceira da fonte. Estava escrito em signatura Karaiwe, entalhado na rocha: “Awaju”. Então percebi que um mbaekwaa tinha me deixado esse sinal, e que este momento tinha sido previsto, ou seja, que ali me encontrava para cumprir um desígnio. Era uma mensagem que tinha varado o tempo, e ali cumpria seu destino. Senti uma emoção que me pressionava o coração para a garganta, uma memória que não consegui racionalizar.
Na sétima noite o espírito do aty nos falou sobre o coração, explicou que a emoção que sentimos e que não conseguimos explicar se passa em um órgão análogo ao coração e que esta, na verdade, em nossa alma.
Enquanto no centro do corpo humano existe o órgão chamado coração, pya em Guarani; dentro da alma, parte do espírito que mais se assemelha ao corpo humano, existe um centro que é o Koratã. Podemos por analogia dizer que a alma tem o coração na região próxima ao coração orgânico. Mas, na verdade, o coração é um órgão que controla a circulação sanguínea no corpo e, portanto, não é o coração no sentido espiritual. Mas se, por um lado o órgão físico pode não ser o coração no sentido espiritual, por outro lado, existe uma relação bastante estreita entre eles; além de ser um órgão do corpo que sofre bastante influência espiritual.
Contudo, como se diz desde tempos remotos, quando o coração espiritual se abala, o orgânico começa a bater forte e rápido; ou quando caímos em profunda tristeza sentimos um aperto neste; ou ainda, o calor que percorre o corpo nos momentos de alegria, as lágrimas que brotam na hora de angústia, tudo ocorre a partir da região próxima a esse órgão em nossa alma.
O homem e a mulher em si são uma parte do corpo consciente de Ñamandu e, ao mesmo tempo, um microcosmo completo. Portanto, a ação do coração humano tem a mesma raiz da ação criadora de Ñamandu. Cada coisa que pensamos dentro do coração está criando algo em algum lugar entre o espaço tridimensional e o espaço multidimensional. E o conjunto de pensamentos individuais se transforma na força que cria o Mundo.
Dessa forma, se surgirem boas almas desejando a transformação desta terra e, se houver concentração e amplificação desse pensamento, de um canto a outro da Terra aparecerá a Luz. Esta luz irá permear os corações das pessoas, e a harmonia se ampliará cada vez mais, restabelecendo-se o respeito entre os seres viventes. Assim, nosso orbe se transformará em “Ywy Marã Heym”, a Terra Sem Mal.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

Mas, o inverso também pode ocorrer. Quando este mundo ficar repleto de pensamentos negativos, isto é, de ódio, de ira, de ciúmes, de falta de confiança, de egoísmo, o que acontecerá? Olhando com os olhos espirituais veremos que os pensamentos negativos aparecem em forma de nuvens negras, tal qual numa tempestade, em diversos pontos da Terra. E que esses corpos energéticos trazem consigo forças físicas que provocam o desencadear de Marã, ou seja, de desarmonias e catástrofes.
Avançando um pouco mais nesta senda vamos explicar o conceito Guarani de “Uma flecha, cem mil alvos”.
No coração das pessoas em geral há um arqueiro que está sempre em movimento, apontando para diversas direções num único dia. Contudo, a maturidade está dentro da harmonia e não em meio ao coração instável e agitado. Para onde aponta a flecha ai também está o coração direcionado. Se ele balançar o dia todo, o homem e a mulher não conseguirão atingir a verdadeira serenidade do coração.
Tal como o Cruzeiro do Sul, que sempre mostra ao povo o rumo sul, a flecha do guerreiro e da guerreira deve também sempre apontar para a direção de Ñamandu. Um guerreiro e uma guerreira, xondaro e xondaria, deve orientar-se de viver tendo sempre o coração de Ñamandu como seu próprio coração. O Koratã do xondaro e da xondaria incandesce quando vislumbra que todos os alvos se encontram em Ñamandu. Por isso: “Uma flecha, cem mil alvos”.

MBORAYU
A fonte de água borbulhante, de água gasosa como champanhe, foi o ponto culminante da nossa caminhada, ali permanecemos por dois dias. Com um amigo subi uma pequena montanha em forma de pirâmide. Caminhamos sobre quartzo branco, quartzo rosa, turmalinas negras, um caminho ladrilhado de pedras luminosas. No dia seguinte iniciaríamos nosso caminho de regresso para a aldeia base. Nesta noite desfrutei da natureza encantado com o céu aberto salpicado da luminescência proporcionada por uma tormenta elétrica. Assim que o sol se punha em sua magnificência, cactos brancos abriam suas flores perfumadas enfeitando os penhascos como adornos em corpos enluarados.
No caminho de regresso passamos por muitas taperas de pedras. Aqueles resíduos de residência haviam servido de abrigo para nossos ancestrais Xinguy, e que hoje são
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

referidos pejorativamente como “xingones, comechingones”. Pude apreciar muitos espíritos ainda residindo nestes lugares, unidos pelas suas alegrias e pelos seus tormentos. Pude ainda perceber o trabalho incansável dos jukupe e dos ruwyxa, que ali estavam com um “mboru”, ou seja, com uma determinação de propósito que lhes é próprio, buscando demover nossos irmãos das suas ilusões.
Na oitava noite o “Espírito que nos Une” se apresentou e nos falou sobre si. Sobre Ele, o mborayu. Sobre o “Espírito que nos une”, escrevi uma tese com mais de duzentas páginas. Mas o mborayu sempre traz novidade. Seu tema é inesgotável.
Desta vez iniciou contando uma história sobre um velho rei que subindo no terraço de seu palácio para tocar sua harpa e cantar um salmo recorda do dia em que avistou a mãe de seu herdeiro, o sábio dos sábios. Tinha ele levantado de seu leito, à hora da tarde, como no dia de hoje. E viu do terraço a uma mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa à vista. E ele a teve. Ela era esposa de seu mui fiel general, que ele mandou para a morte no front de batalha. No dia de hoje o Rei cantou uma canção em memória de seus dias, da felicidade e do perdão, que dizia assim:
“Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada. Bem-aventurado o homem a quem a hierarquia não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano. Enquanto eu me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo dia. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te a minha falta e a minha maldade não encobri; dizia eu: Confessarei as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu crime. Pelo que todo aquele que é santo orará a ti, a tempo de te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas a ele não chegarão. Tu és o lugar onde me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento”.
O velho rei que fez esta canção chamava-se Davi, e este canto é o Salmo trinta e dois. Nele são apresentadas cinco estâncias do mborayu.
A primeira estância que podemos observar neste relato bíblico é a do mborayu como o “amor que ama”. Esse tipo de amor não deixa de ser também o do “amor que se dá”. Esse é o tipo mais básico e geral de amor. O “amor que ama” é aquele que podemos esperar de todas as pessoas, e, instintivamente todos conseguirão entender o quanto é maravilhoso, pois o homem e a mulher, por natureza, já são feitos para sentir felicidade através do ato de se dar. A concretização desse amor é o primeiro passo para a criação da “Terra Sem Mal”.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

A segunda estância que observamos no relato sobre Davi é a do “amor que alimenta”. Tal qual a água do rio que corre da montanha para a jusante, o “amor que alimenta” é um amor que flui e orienta uma direção.
O “amor que ama”, que proporciona afeto às pessoas com quem temos afinidade, e o “amor que alimenta”, que orienta e abastece as pessoas, são maravilhosos. Mesmo assim, o segundo ainda não é plenamente suficiente para chocar o “ovo de luz”. Existem outros tipos de amor que transcendem o afeto e a nutrição, o amor da terceira estância é mais quente e tem maior eficiência no parto da luz. Esse é o “amor que perdoa”. O velho rei cantou com gratidão: “Tu perdoas-te a maldade do meu crime”.
Os praticantes do “amor que perdoa” com certeza têm vivenciado o grande salto ao estado espiritual religioso; em outras palavras, este amor é o estado de espírito das pessoas que se dedicam exclusivamente à sua própria missão, transcendendo o bem e o mal. Para se atingir esse estado de espírito, o aguyje, é necessário que se passe pela experiência do despertar espiritual, tal como a de se converter a partir da conscientização da sua própria ignorância. Somente os que descobriram a luz no meio do próprio sofrimento conseguem tirar a venda dos seus olhos e a dos olhos alheios e amar o verdadeiro caráter sagrado de toda a existência. Ao se dar conta dessa realidade o velho rei consciente das dores que passou cantou em memória da sua lapidação: “o meu humor se tornou em sequidão de estio”.
A próxima estância é o do “amor de misericórdia”, misericórdia significa luz de amor que ilumina a todos indiscriminadamente, em outras palavras, misericórdia é amor universal. O “amor de misericórdia” é tal que, existindo neste mundo um ser que o possua, se ele estiver ao seu lado num momento de sua vida, será capaz de lhe proporcionar a reformulação da alma. Essa é uma existência que clareia o mundo e acende a chama de esperança dos homens e das mulheres que compartilham com ela da mesma era. Não se trata do amor por este ou por aquele, tampouco de palavras bonitas que possam ser usadas. Não é o amor em função de gestos carinhosos. A simples existência de um ser assim por si só é um ato de amor; seria como se o amor em si manifestasse sua personalidade, tais pessoas existem e abrilhantam a história do mundo. Em louvor ao “amor de misericórdia” o velho rei cantou: “tu és o lugar onde me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento”.
A máxima estância perceptível do amor na Terra é o “amor de Emanuel”, o amor de Ñamandu conosco, amor que transcende o coração dos homens e das mulheres.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

Em contrapartida, a mínima estância desse amor é o “amor do instinto”. Dependendo da forma como é usado o instinto, ele pode sintonizar o ser tanto com o inferno como com o Mundo Astral; de qualquer maneira, este não é o amor que um homem e uma mulher que trilham o caminho do xondaro e da xondaria, ou seja, dos guerreiros da luz, devem almejar.
Um alerta, porém, é importante, em hipótese alguma o amor pode ser interpretado como aprovação às atividades dos seres malignos. Estes são interceptadores do amor de Ñamandu dirigido aos seres humanos, e suas existências são a antítese do amor. Um xondaro ou xondaria deve lutar com os seres das trevas usando como trunfo a arma do “perdão ativo”. Porque há trevosos que percebem que não podem vencer Ñamandu e atravessam o “portal do perdão”.
Mborayu endy mbae, ou seja, amor é luz. Da mesma maneira que não há trevas que vençam a luz, não há mal que vença o amor e não há inferno que intercepte o avanço do grande rio do amor até a última instância.
Pensa-se que os anjos e os demônios lutam com equilíbrio de forças, mas isso não é verdade. O Mundo Celestial inicia-se no Mundo Póstumo da quarta dimensão e vai até dimensões superiores remotas. Em contrapartida, o inferno é apenas uma parte sombreada da quarta dimensão onde nuvens tenebrosas impedem a incidência da luz-amor de Ñamandu.
O fato de a força de influência do inferno ser superestimado é justificado pela proximidade do seu campo espiritual com o do mundo terreno, e a conseqüente facilidade de captações recíprocas de ondas vibratórias.
Amor é o ato de se dar. Porém, no inferno só existem espíritos que querem receber, e que esperam que lhes façam algo. Sofrem ali pessoas que, na Terra, viveram com “amor possessivo”, sem conhecer a sua essência.
Ainda não é tarde para se acabar com o inferno. É apenas necessário fazer com que todos os homens e mulheres tenham consciência de que a essência do amor é se doar. Então qual seria o primeiro passo?
O “amor que se dá” começa pela “gratidão”, poderíamos mesmo chamá-lo de “amor gratidão”. Agradeça por estar recebendo tudo de Ñamandu. Assim fazendo terá desejo de retribuir, de alguma maneira a Ñamandu, a “natureza de todos os mundos”. Nesse momento se dá a primeira martelada que levará à ruína o manicômio das sombras. Mesmo os maus espíritos desejam ser amados mais e mais, querem receber carinho das pessoas; os seus verdadeiros sentimentos são de “carência afetiva”.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty
Portanto, os espíritos do inferno são, na verdade, SERES INFELIZES, QUE DEVEM SER SALVOS; SÃO DOENTES que se degradaram até a última instância, mas cuja enfermidade, na verdade, é “carência afetiva”.
AMA
Nas noites seguintes o espírito do aty não se manifestou por minha boca. Permaneci em silêncio. Durante os dias que transcorreram, observava os elementares em suas lidas. Rezei muito para que seres daninhos nunca dali se aproximassem com suas ganâncias. Rezei para que fossem preservados os minérios, a água pura que corre entre quartzos e turmalinas, os cactos, os montes, os animaizinhos, enfim todo esse espaço encantado que ainda persiste, como um testemunho de outros tempos, de tempos em que éramos absolutamente felizes.
Nos dias ensolarados senti intensamente o coração ardente da natureza, de nosso pai-mãe sol, Kwaray esteve esplêndido. Cantei silenciosamente nas margens do rio Dolores um canto de louvor ao portal que une os viventes de todos os mundos, e à noite adormecia sentindo a acupuntura dos raios luminosos das estrelas e a benção de Jaxy, a avo lua que nos nutria com sua luz azul.
Ainda foi a xerayxy Yxapy Rendy que me chamou a atenção para observar uma incrustação de quartzo em uma das encostas onde estava gravado um arco e uma flecha. Novamente recordei do aforismo: “Uma flecha cem mil alvos”. Era como se o aforismo estivesse ali gravado desde tempos em que o ser humano ainda não se encontrava em Ñandexy Ywy Retã, ou seja, deste um tempo em que a nossa madre Terra ainda estava aguardando por seus filhos humanos, grávida de nossas almas, preparando-se para nos receber, nos esperando com seus cuidados.
Ainda comovido com o dia, fui para a minha maka, rede de dormir. Recém tinha adormecido, já estava bem adentrada a noite, quando no yxa de Jakaira, um pássaro que nunca antes tinha manifestado seu canto, nos acordou como dando um aviso, era o prenúncio do que estava por vir. Em seguida veio um vento a galope como se um exército garboso por nos trespassasse. Então retumbaram os trovões anunciando a chegada de Tupã. Cingiram os céus raios que entrecortaram o breu da noite iluminando os penhascos e refletindo-se no rio que se aprumou como se estivesse fazendo uma contradança. Era “Ama”, a tempestade. A princípio nos assustamos, em seguida reagimos providenciando abrigo mais seguro. Depois de acomodados pudemos desfrutar daquele maravilhoso espetáculo onde movimento, som e luz se entrelaçavam brindando conosco a vida e a alegria de existir por existir assim, em festa.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty
INCANDECÊNCIA
Nos dias e nas noites restantes um mborai, um canto, esteve constantemente comigo. Mãos destras tangeram minha alma, era o “Oporaiwe”, o anjo da música. Caminhei como flutuando e dormi como se estivesse desperto. Desfrutei das várias dimensões do caminho. Quando me dei conta estávamos nas cercanias do Tekowa Pu’Aka. O canto estava em “Aywu Porã”, a linguagem sagrada, seus versos estão gravados em meu coração. Traduzido o canto dizia assim:
“É maravilhoso sentir o coração como o Sol dos sóis do universo. O Sol do supremo Hierarca é nosso Estandarte. Maravilhoso é este Estandarte, como um poder invencível, se nossos olhos já assimilaram sua irradiação refletida em nosso coração. Quer seja o coração chamado morada de Ñamandu ou de síntese das sínteses, ele ainda permanece como um ponto de fogo, tata porã. Olhar com os olhos do coração, escutar os ruídos do mundo com os ouvidos do coração, perscrutar o futuro com a compreensão do coração, recordar as acumulações do passado através do coração; perceber a beleza que reflete a mais minúscula das flores, a emanação desse amor irrestrito, é ter toda a sabedoria do mundo. Esse estado de gratidão pela vida é aguyje, o estado de louvação”.
O sol da tarde refletia a sua luz branca na areia branca da canhada seca. Nossa caminhada estava chegando ao fim. Sentíamos a emanação confusa que vinha do Tekowa; porém nos já a antevíamos.
Quando andamos na natureza em guata porã atingimos um estado de leveza que nem sempre é possível de ser mantido em meio às atribulações do “dia a dia”. Porque se assim acontecesse haveria uma incompatibilidade de tom. Então é preciso uma adequação.
Ao aproximarmos do tata porã externo, estava uma Waimi colhendo flores para enfeitar o local do fogo externo para a nossa chegada. Foi um bom prenúncio para nós, foi uma adequação suave.
Nossa presença súbita foi uma surpresa. Havia pessoas de bem pouca experiência junto ao fogo. Tivemos paciência e esperamos pela aproximação de todos os que fizeram o apoio externo. Todas estas dificuldades já eram esperadas, ou seja, não nos impactaram. Focamos no amor-compreensão.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty


O grupo que nos antecedeu, que chegou ao Tekowa na quinta noite, porém, não teve a mesma sorte, e não conseguiram transcender esse ambiente desarmônico, muitos deles ficaram bem descontentes com a recepção. Que haveria tanta desconsideração pelo cansaço destes nossos companheiros era uma coisa que não tínhamos previsto.
Sempre que a hierarquia dá uma tarefa a um servidor, lastimavelmente este a assume como posse, como poder, e aí se perde; os servidores da terra estão subvertendo o seu papel, abrindo brechas para as hostes do inferno. E porque isso acontece?
Os servidores querem ser reconhecidos pelo seu serviço pelos próprios pares, esquecem que é para Ñamandu que estão trabalhando e que não devem esperar nenhum reconhecimento prévio. Ao desejarem o amor dos homens e das mulheres ou reconhecimento, que é outra forma de manifestação da carência afetiva, entram na vibração dos que desejam ser amados, dos que têm necessidade de se afirmar, ou seja, na vibração das trevas. Deixam de desfrutar do amor de Ñamandu porque invertem o foco.
Os saberes mortos, os conceitos mortos, tudo que carregamos de desnecessário, tudo que já morreu e que mantemos em nós, apenas nos deixa pesados, pesarosos. O depósito desses entulhos é o “Aikwe”, que traduzido creio que poderíamos chamar de “Ego”. O Aikwe pode ser maravilhoso quando é um ser vital, quando é uma centelha brilhando no peito. Mas quando é turvado pelas nuvens trevosas da auto-idolatria, da fascinação por si mesmo, é a porta de entrada dos demônios do ciúme, da inveja e da traição. Mas tudo estava bem, uma waimi silenciosa, que tinha passado despercebida por todos, que tinha tido um gesto ignorado por todos, tinha sanado todos os males, com um buque de flores silvestres.
No interior da Oka não havia sido diferente, a ausência de um Tata Porã, a adequação às chamas de um Tataendy, à chuva que entrou pelas goteiras inundando o ponto do fogo, a falta de experiência e insubordinação aos mais experientes por parte de algumas das pessoas que fizeram a permanência na Oka, também tinham gerado desarmonia. Ou seja, a vida é enfrentamento, precisamos ser guerreiros e guerreiras de coração ardente, incandescentes chamas de luz para garantir a existência da felicidade.


Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

KORA
À “dinâmica do espírito que nos une” o povo Guarani Ñandewa chama de “Kora”, a lei. Na verdade a infelicidade é o termômetro dos atos que cometemos por ignorância, por ignorarmos o “Eu” da vida, do mundo e, sobretudo, daquilo que suscita, destrói e reproduz a estes últimos desde sempre e para sempre: a ordem da natureza. Infelicidade é o cenário que se proporciona o que dentro da sua ignorância deifica-se, mostrando-se egocêntrico, exclusivista e arrogante.
Neste mundo de matéria grossa, há dois antagonistas em todos os níveis, “Aru-Axy”, fêmea e macho, bem e mal, quente e frio, trevas e claridade, vida e morte, alegria e tristeza, amor e ódio, saúde e doença, felicidade e infelicidade, riqueza e pobreza, forte e fraco, material e espiritual. São os dois lados das coisas. Umas são dominadas pelos fatores “Ru”, outras pelos “Xy”. Estes dois lados são como as duas partes de uma mesma maçã, em suas extremidades se tocam e se confundem.
Para ultrapassar esta aparente contradição é preciso elevar-se acima de todos esses julgamentos aparentes até o nível do julgamento supremo universal, o julgamento absoluto e único do monismo formado pelos opostos complementares.
Só os que percebem os dois lados das coisas podem abarcar todo o antagonismo e o transformar em complementaridade, todos os que têm alguma coisa contra neste mundo são agônicos, jamais terão paz. A paz é outro nome que temos para dizer harmonia, saúde perfeita, felicidade eterna, liberdade infinita e justiça divina.
Todas as civilizações conhecem o Kora, sobre nomes diversos essa lei de equilíbrio é conhecida de todos. Uns a chamam de “positivo-negativo, outros de Yin-yang” e assim por diante. Até mesmo utilizam este conhecimento para manipular a energia da matéria, mas poucos a aplicam para manter o equilíbrio da vida.
Nesta caminhada tivemos o céu e o inferno disponível para cada um, ou seja, a face e o verso. Quem não conseguiu manter o foco na unidade (uni), certamente viveu o inverso (verso). Por outro lado, a existência sempre estará nos oferecendo novas oportunidades, ou seja, quem não aprendeu nestas circunstâncias propícias, terá a oportunidade de revisar, de reciclar a sua vida em outro momento. Kwaray nosso pai-mãe sempre estará brilhando mesmo sobre as nuvens mais espessas da tempestade, esperando pela nossa bonança, para a realização de nossa felicidade.

Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Convite Cerimônia de Ñemongahei e Guata porã - 5 e 13 dias - Córdoba AG

Clicando na imagem ela cresce, e você poderá visualiza todas as informações.


Ianai irum kwere
Estamos confirmando nossa Cerimônia de Ñemongarahei
(Cerimônia de Floração dos Milhos Sagrados Guarani),
e nossos Guata Porã de 5 noites e 13 dias, em Córdoba.
Desejamos que todos vocês possam chegar pois, serão dias de confraternização e de convívio entre os vários clãs, partilhas de conhecimento e rezas, enfim um momento consagrado a Ñamandu.
Estamos em reza para que todos possam chegar!
Um grande abraço para vocês, com carinho e saudades,
Ñamandu mbyte porã ñandekwerupe,
Awaju Poty há'eguy Yxapy Rendy.

Mais informações.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Vídeos

Aqui estão quatro vídeos feitos no tekowa xiinguy.
As letras das músicas estão na página "letras de músicas".

MAINOI
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IANAÍ

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YXAPY REXA

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APYKA MIRI

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Mborai: O Canto Sagrado Guarani

MBORAI: O CANTO SAGRADO

Neste texto abordo oito mborai, cantos sagrados.

Dividi a apresentação destes cantos em quatro temas:
1. O mito da fundação do mundo;
2. O mito do amor;
3. O mito do encontro conosco mesmo;
4. O mito da auto-realização: ou seja, o mito de sermos nós mesmos.

Para o primeiro tema escolhi os mborai: 1.1 Gênesis, cuja poesia é de Caetano Veloso e a música (forma mborai) de Awaju Poty; e, 1.2 Yxapy Rexa, neblina vivificante de Awaju Poty.
Para o segundo tema escolhi os mborai: 2.1 Xume, São Tomé, a poesia é da antiga província del Guaira, portanto uma poesia anônima, catalogada por Romário Martins, a música é de Awaju Poty; 2.2 Mborayu, o espírito que nos une, de Awaju Poty; e, 2.3 Ñauim, com poesia de Karai Tataendy (Darci da Silva mbya) e música de Awaju Poty.
Para o terceiro tema escolhi os mborai: 3.1 Apyka Mirim, cuja poesia é de Kwaray Popygua (Gildo da Silva) e música de Awaju Poty; e, 3.2 Ianai, sagrada saudação, de Awaju Poty.
Para o quarto tema escolhi o mborai: 4.1 Mainoi, o Beija-flor, de Awaju Poty.

1. O Mito da Fundação do Mundo
O mito referencial, da cultura ocidental (acidental), é o da queda ou expulsão do paraíso (do estado de inércia, onde tudo é parado), por desobedecer às ordens de Deus.
Outros mitos, contos e lendas, fazem referência a circunstâncias, nas quais o herói ou a heroína deparam-se com portais que não devem ser ultrapassados; perguntas que devem ser respondidas; frutas que não devem ser comidas; sob a pena da perda dos benefícios que se tinha na situação prévia à desobediência.
A resposta que, invariavelmente, dão esses homens e mulheres é a mencionada desobediência e, através desta, começa o desenvolvimento de uma aventura que propicia o crescimento e a expansão da consciência dos aventureiros. Ou seja, a transgressão das proibições está profundamente ligada ao crescimento individual. Esse conflito nos exige a tomada de uma decisão, temos que fazer a opção: transgredimos e pagamos as conseqüências da transgressão, ou nos submetemos e traímos a nossa própria natureza e a natureza de todos os mundos que é Ñamandu.
Vamos aos textos para vermos como isso acontece:

1.1 GÊNESE
Primeiro não havia nada
Nem gente, nem parafuso
O céu estava então confuso
E não havia nada
O espírito de tudo
Quando ainda não havia
Tomou a forma de uma gia
O espírito de tudo

Dando o primeiro pulo
Tornou-se o verso e o reverso
De tudo que é universo
O espírito de tudo
E assim passou haver
Tudo que não havia
Tempo, pedra, peixe, dia
Assim passou a haver

Dizem que existe uma gente
Que diz que sabe o modo
De ver esse parto todo
Diz que existe essa gente


Diz que existe essa gente
Que num determinado dia
Toma um determinado vinho
E vê a cara da gia

Dizem que existe essa tribo
Dispersa entre os automóveis
Que torna os tempos imóveis
Diz que existe essa gente
Que diz que tudo é sagrado
Que deve-se adorar a gia
E tudo que não é gia
Diz que tudo é sagrado

Na letra desta canção a divindade é a “Gia”, o “Muirakitã”. O Muirakitã é a insígnia das Kunhã Ymã, das mulheres primigênias, das mulheres que enfrentaram a nova ordem de Jurupari, o herói civilizador que instaura o patriarcado; elas ficaram conhecidas pela denominação pejorativa de Ykamiabas, ou seja, mulheres sem seios.
As sacerdotisas da antiga ordem se rebelam contra a nova ordem que se instaura com Jurupari, abandonam os Tekowa (aldeias) onde o patriarcado é instituído e passam a viver à margem, em aldeias só de mulheres.
Orellanas, navegante espanhol que no início do século XVI singra as águas do rio Maranhom, trava com elas uma batalha da qual somente Orellana e mais alguns se safam, e diz que foi atacado por Amazonas, e desde então o rio Maranhom passa a chamar-se rio das Amazonas.
As Kunhã Ymã eram índias do tronco Kara, portanto índias claras, por isso Orellanas confundiu com as Amazonas da mitologia Grega, única referência que ele tinha de algo parecido.
A insígnia das Kunhã Ymã é o Muirakitã, uma escultura em forma de ranzinha, que traziam pendurada no pescoço. Essa ranzinha simbolizava o poder criador, a capacidade feminina de gerar vida, a vagina por onde o mundo nasceu e, por onde todos os humanos nascem.
Essa canção também diz que tudo é sagrado, não apenas a Gia. Assim nesta canção é expressa a concepção primeva de que tudo é vivo, de que somos todos parentes e que estamos inexoravelmente unidos por um destino comum, e por isso sagrado.
Temos também nessa canção uma referência de que num determinado dia se toma um determinado vinho. Isso reporta à utilização das plantas enteógenas, dos vegetais guias (pajé) que nos sanam e nos reúnem novamente ao todo. Conta-se que quando o povo Guarani havia sido roubado e estava sendo despojado do “ñande Reko”, da sua maneira de ser, após a longa guerra de extermínio que durou até o final do século XIX: os anciões dos diversos clãs Guarani haviam sido despojado de tudo, menos do espírito sagrado, do ñeem porã. Mas eles temiam que os “olhos brancos” (olhos de xopako) lhes roubassem o ñeem porã, pois, achavam que eles eram demônios que estavam lhes roubando tudo. Foi então que os Kario, povo Guarani do tronco Kara, ensinaram aos outros clãs a medicina do “Roah”; então ninguém pode capturar a alma do povo Guarani, já que eles perderam o medo da morte: através do caminho do “Roah”, guiados pelo espírito do Roah eles conseguiram ver além do vazio e visitaram os moradores dos Retã (mundos) que estão para lá da morte, e nada mais temeram nesta vida. Puderam ver desde o parto do mundo, puderam ver o verso e o reverso de tudo que é universo, puderam ver a cara da Gia.

1.2 YXAPY REXA
Mbyte porã
Jeguaka poty
Yxapy rexa
Jeguaka poty
Mbyte rupi
O mbo-jekwaa
Karai rendy
Ru’ete rã’i

Kwaray Ore’ru
Kwaray Ore’xy
Yxapy, hy’a, takwa
Tenonde’gua


Neblina Vivificante
Da divina coronilha excelsa
As flores do adorno de plumas
São gotas de orvalho
Por entre meio das flores
Do divino adorno de plumas
Fez-se conhecedor da divindade
Ao verdadeiro futuro pai
Da luz dos Karai
Pai sol
Mãe sol
Neblina, legenária, taquara
Nossos precursores

Uma das versões do mito da criação, quando diz da criação da humanidade, conta que nosso pai e nossa mãe sol, Kwaray’ru e Kwaray’xy, tinham uma formosa filha da qual o anti-heroi Xaría se enamorou e a pediu ao seu pai. Como sua filha teve interesse, o casal solar a entregou, advertindo Xaría sobre a necessidade de portar-se bem com ela, mas Xaría se portou de maneira indecente, então ao cruzar um riacho, a Kunhãtai desapareceu como fumaça. Xaría regressou junto ao pai sol reclamando. Kwaray estava cansado do incomodo de Xaría e resolveu despachá-lo, lhe disse que somente quem possuía um akãpyxi’a o Jeguaka, adorno ritual para a cabeça como o que ele portava, poderia encontrar a Kunhãtai. Por pedido de Xaría, Kwaray lhe fez um adorno e nele colocou uma brasa de fogo eterno, tata marãne’y. Xaría colocou o cocar e empreendeu a busca da Kunhãtai que havia evaporado, e logo se deu conta de que se lhe queimava a cabeça. Quis retirar o akãpyxi’a, porém não pode; colocou a cabeça em um curso de água, porém sem resultado, meteu a cabeça em uma corredeira, mas ela seguia ardendo. Empreendeu uma desesperada correria, e perto do Paraná acabou se convertendo em cinzas. Pai sol o seguiu, e soprando sobre as cinzas as converteu em jejenes e avispas, e enxames desses insetos caíram sobre ele. Os insetos atacaram também os animais que pai e mãe sol haviam criado estes desesperados gritaram ao pai sol que já não sabiam o que fazer. Pai sol apareceu imediatamente dizendo que essa era uma coisa insignificante e, lhes deu um pote de barro cheio de neblina, yxapy, para que espargindo sobre seus corpos renovassem o sangue que os insetos tomaram. Assim fizeram, e ao restabelecerem-se e dispensarem o pote de barro a um canto, um dos animais por descuido bateu no pote e este se rompeu em pedaços. A neblina se derramou e, ao molhar a terra, surgiu uma planta de hy’a, a legenária, e outra de takwa, a taquara, e destas duas plantas se criou a humanidade.
Neste mborai são evocados elementos do mito da criação: Kwaray’ru, Kwaray’xy, hy’a, takwa e yxapy rexa. A neblina, yxapy, vivifica a natureza no período de “ara ymã”, o outono, yxa de Karai. Também nos transporta para o universo mágico do etéreo aquoso, onde o invisível se faz transparência, levemente visível, como que buscando manifestar-se neste mundo. As formas das coisas e dos seres assim se mostram quando em busca de seus contornos, quando a morte, ou o ausente, ou ainda o imanifesto estão prestes a reiniciar o seu ciclo, uma nova circunstância se apresenta para vir-a-ser, existência que será propícia no yxa de tupã, ou seja, após o solstício de inverno, ara pyau.
Muitas vezes Yxapy, a neblina vivificante é confundida com Tataxyna, o incenso, o fumo dos petyngua, dos cachimbos sagrados. Na verdade tataxyna evoca Yxapy tenonde, a neblina primigênia, que pairava no princípio do mundo, quando ainda não havia a humanidade. Também o fumo do tabaco dá forma a nossos propósitos-pensamento. Gerando fumo com o petyngua fortalecemos o propósito das nossas rezas, retornamos à fôrça primigênia, é o caminho de retorno ao sem forma, ao mundo que existia antes de yxapy materializar os componentes que originaram a humanidade, antes de nascermos do ventre de Ñamandu, antes de sermos expelidos pela grande Gia. Por outra vertente, Gia lembra Gea, a mãe terra (Ñandexy ywy retã) sobre a qual a neblina é derramada acidentalmente, lembrando que muitas vezes a vida humana é gerada por acidente ou descuido, movida pelos desígnios de Ñamandu que une os componentes necessários através do mborayu, o espírito que une.

2. O Mito do Amor
Neste tópico abordo o sentimento que nos dá sentido e, alerto para a questão da desapropriação dos sentimentos de um povo. Os estudiosos estrangeiros, e muitas vezes estrangeiros em sua própria terra, desconsideraram os sentimentos dos povos nativos da terra, na medida em que desconsideraram os seus próprios sentimentos. Em especial, os Guarani, possuíam sentimentos bastante nobres, mas todos esses sentimentos foram considerados pós-coloniais, seria como considerar que se aprendeu a chorar com o suplício do verdugo.
A justificativa do colonialismo foi o de civilizar bárbaros, então foi necessário ver o gentil como alguém que tinha de ser convertido de sua barbárie. Mas essa foi só uma justificativa para se poder espoliar, para se poder roubar cinicamente.
Na verdade os sentimentos que são julgados exclusivamente ocidentais e da sua religião, cristianismo eurocêntrico, são universais e, podem ser encontrados em todas as grandes tradições, e eles já existiam na tradição Guarani.
A ética, se assim podemos dizer, de Jesus da Galiléia, é uma ética Xamânica, por assim denominarmos, ou seja, planetária. Jesus foi um grande Xamã, e não um filósofo Greco-romano, como a teologia o tipificou.
Com a oficialização do cristianismo como religião do Império, criou-se uma doutrina onde todos os valores praticados e ensinados por Jesus foram postos em segundo plano, ou seja, a hipocrisia destituiu mais uma vez a possibilidade de vida de uma força transformadora e reintegradora do homem com a sua natureza. Isso se deu a partir do momento em que o Imperador Constantino convoca no ano de 325, após a morte de Jesus, o concilio de Nicéia, com o propósito de restaurar a concórdia na Igreja e no império; e foi nele que pela primeira vez a igreja adotou, oficialmente, da cultura Grega, o conceito não-xamânico de “ousia”, declarando que Jesus era o Cristo, o filho de Zeus (Deus) encarnado e, que era “homoousis toi patri”, da mesma substância que o pai. A formulação de Nicéia foi aumentada, com o uso da mesma conceptualidade filosófica, no concílio de Calcedônia em 451 e, é esta formulação de Calcedônia que, desde então, constitui a linguagem oficial a respeito de Cristo. Mas garimpando, excluindo toda ideologia de poder e de opressão, assim como de egocentrismo, mesmo dentro da religião cristã (eurocêntrica), podemos ainda encontrar eco do Jesus, o Xamã da Galiléia; cujo ideário de vida está em todas as grandes tradições. Vejamos:
No antigo Mahabharata hindu, lemos: “jamais se deveria fazer a outrem aquilo que se considerasse prejudicial a si próprio. Esta é em resumo, a regra da justiça” (Anuhshana parva, 113.7). Da mesma forma: “aquele que beneficia pessoas de todas as ordens, que se devota sempre ao bem de todos os seres, que não sente aversão a ninguém (...) consegue subir ao céu” (Anushana parva, 145.24). No Sutta Nipata budista temos: “assim como uma mãe cuida de seus filhos todos os seus dias, também a mente de um homem deveria abraçar, sem reservas, todas as coisas vivas” (149). Das escrituras do Jainismo ouvimos que cada um deveria ocupar-se de “tratar todas as criaturas no mundo assim como ele próprio gostaria de ser tratado” (Kitanga Sutra, I.ii.33). Confúcio, ao expor a humanitariedade (jen), disse: “não faças a outrem o que não desejarias que te fizessem” (Analecta, XXI, 2). Numa escritura Taoísta, lemos que o homem bom irá “considerar os ganhos (de outros) como se fossem seus, e suas perdas da mesma forma” (Thai Shang, 3). As escrituras Zoroástricas declaram: “a natureza somente é boa quando não fizer a outrem o que não é bom para si mesma.” (Dadistan-i-dinik, 94.5). Jesus ensinou: “o que quereis que os homens vos façam, fazei também a eles” (lc 6. 31). No Talmude Judeu lemos: “não faças ao teu semelhante o que considera odioso para ti mesmo. Este é o resumo da Torá” (Talmude Babilônico, Shabbath 31a). E no Hadith islâmico lemos as palavras do profeta Maomé: “nenhum homem é um verdadeiro crente a menos que deseje para seu irmão aquilo que deseja para si mesmo” (Ibn Madja, intr. 9). Quando nos voltamos deste principio geral de amor/compaixão e consideramos o comportamento real das pessoas nas diversas tradições, perguntamos em que medida vivem dessa forma. É de vidas nesse sentido que nos dizem as três canções que se seguem:


2.1 XUME
Xume (San Tomé) llego um dia
Em las orillas del Paraguay
Ablando guaraní
Em su sábio predicar
Los jaguares y las pumas,
No lê acian ningún mal,
Ni los jejenes y avispas
Ni la serpiente coral
Las chontas y motacues
Palmito y sombra lê dan;
Y el mangangá le invita
A catar de su panal
Xume (San Tome) los bendice
Y bendice al Paraguay;
Y los índios guaraní
Lo proclamam principal

Xume (San Tome) les responde:
- “Los tengo que abandonar
Porque mi padre me a dado
Otras tierras visitar.
En recuerdo de mi estada
Una mercê (um regalo lhes)os he de dar
Que es la yerba paraguaya
Que por mi bendita está”.
Xume (San tomé) entro en el rio,
Y em peana de cristal,
Las águas se lo llevaron
A las llanuras del mar.
Los índios, de su partida,
No se pueden consolar,
Y al ciel siempre estan pidiendo
Que vuelva Xume (San Tomé).
Maio mini maio mahé
Maio mini maio ma


Este mborai conta a saga de Xume (Didimos Thomas?), o irmão gêmeo de Jesus. Xume é o herói civilizador que restaura o Ñande Reko na forma Ñandewa’ete.
Xume era irmão gêmeo de Jesus. Na historia Ñandewa sabe-se que Maria teve muitos filhos, entre os quais os gêmeos. Sabe-se também que Jesus após sofrer os suplícios da paixão é retirado da cruz e, restabelecido de seus ferimentos, parte com sua mulher e filhos para o extremo oriente, longe do Império, indo em direção às tribos distantes do povo de Israel (que tinham migrado nas várias diásporas), e com Xume esteve aqui em Pindo Retama (na América). Sobre esse tema temos vários relatos nativos em vários povos, assim como documentos oficiais, trato desse tema em minha tese de doutorado em “Ciências da Religião”.

2.2 MBORAYU
Xe aendu mborayu
Ñamandu mbo’rendy
Ñande ñeem porã’ete
Xe aywu ñemi’ guaxu
Ha’ewete opa’wa’erã
Kowae iporã Ñande Reko.




Sinto o espírito que une meu ser à natureza de todos os mundos. Celebro o encontro com a polaridade que propicia surgir a luz da manhã. Canto contemplando o grande mistério: Agradecido pela incompletude que nos impulsiona para buscar o que nos falta, desfrutando esta maravilha que é a vida em movimento (dessa maneira).

O Mborayu é o relacionamento vivo com a existência total que nos cerca, é a última descrição de Ñamandu, além desse ponto não há Tape (caminho), porque não há mais o caminhante, chegou-se em Ywyju Porã. O mborayu é a força de aglutinação do Ñande Reko.

2.3 ÑAUI
Ñaui tereo hey’me
Ey’ya hey’ja
Rexa wa’ekwe
Xembovai’pa

Ñaui tereo hey’me
Ha’eteim xeae
Raxa
Xe’mbae

Amada não se vá
Pois sem você
A vida perde o encanto

Esta é uma canção de amor romântico Guarani, o autor da letra me procurou em um momento de crise existencial, quando morava junto da aldeia do Morro da Saudade. Após duas décadas, esse momento ainda persiste na vida desse meu amigo guarani-mbya, pois nunca conseguiu recuperar-se dessa perda. Sempre revejo esse meu amigo poeta, mas nunca mais soube da Ñauim, ela partiu e nunca mais se soube dela.

3. O Mito do Encontro Conosco Mesmos
Uma saudação é sempre uma tomada de consciência do eu com os outros eu mesmo. Quando nos encontramos conosco mesmo nos deparamos com alguém que não imaginávamos ser. Essa experiência na realidade tem uma natureza dual independentemente de seu conteúdo, pois confronta o indivíduo com uma amplitude que antes lhe era desconhecido e localiza a identidade reconhecida como sendo o si, num novo contexto de relação com algo que é muito maior que essa identidade.
O resultado desta re-locação, geralmente é confuso, pois ao mesmo tempo em que amplia o sentido de nós mesmos e da nossa relação com o mundo, também questiona nossa antiga forma de ser. E, por outro lado, é desse encontro do eu com os outros eu mesmo que se toma consciência de nossa unidade múltipla como parte de um todo interdependente.
No mborai “Apyka Miri” a saudação se dá em Ywyju Porã. E no mborai “Ianai”, em Poty Retã. Estes cantos apresentam duas situações de saudação.

3.1 APYKA MIRI
Apyka miri ogüejy tamã
Ñandererawã
Ñanderu ambare
Ñandererawã
Ñanderu ambare
Jaakatu jajepowerá
Ñanderuromkempy jajerojy
Ñanderuromkempy jajerojy
//:Apyka miri, apyka miri, apyka miri, apyka miri, apyka miri://

O Pequeno Assento Sagrado
O assento sagrado já está descendo
Para nos levar ao altar de Deus
Com o brilho da palma da nossa mão
Vamos então nos saudar

O Apika é o assento (ou esteira) onde paramos para rezar, meditar, fumar pety; é o ponto de onde partimos nas incursões pelos muitos retã (mundos). O ponto de saudação é o “po’mbyte”, o vórtice da palma da mão. O po’mbyte é o campo de energia com o qual se cura na imposição de mão, o ato de fazer imposição da mão chama-se também po’mbyte. O Apika também esta relacionado com os mitos das esteiras (tapetes) voadores.

3.2 IANAI
Ianai poty retã
Ianai poty Koem
Ianai poty retã
Ianai ijaguyje
Inxi tatá
Umahê
Inxi tatá
Umahâ
Nahâ

Saúdo Ñamandu em nós
Saúdo o mundo das flores
Saúdo a flor do amanhecer
Saúdo o amadurecer

Ianai é a saudação sagrada. A saudação é feita com “Rakã Poty”, nossas ramas floridas (nossas mãos). Poty retã é o Jardim cósmico; e poty koem é uma metáfora dos mbyte, nossos pontos floridos de pétalas de luz policromática. Da vibração dos nossos mbyte depende o aguyje, a maturação de nosso ser.

4. O Mito da Autorealização (de sermos nós mesmos)
As mitologias e as religiões são grandes poemas e, quando compreendidos assim, apontam infalivelmente para uma presença que é única e inteira em cada ser vivente. O Mainoi é um poema que ganhou forma e cores voando e revoluteando, ele é a própria encarnação do Ñande Reko.

4.1 MAINOI
Pytu ymã mbytere
Guyra ymã mainoi
Owewe oikowy

Oiwara py mbaekwaa güy
Guyra ymã mainoi
Owewe oikowy

Oiwara jeguaka poty mbyte rupi
Guyra ymã mainoi
Owewe oikowy
Beija-flor
Do cocar de luz da divindade
Desprendeu-se
O pássaro primevo
Beija-flôr
Voando revoluteando
Por sua própria sabedoria
Fez-se forma
Manifestando-se
Voando revoluteando

Nas trevas primigênias
O pássaro primigênio
Surgiu
Voando revoluteando

O saber mais profundo brota das verdades que já foram experienciadas em nossas vidas. O dom da sabedoria está sempre no coração daquele que recebe, e permanecerá vivo enquanto for honrado como uma benção, proveniente da fonte do mundo.
O Mainoi (beija-flor) simplesmente vai para onde as flores desabrocham, essa é a sua experiência, seguindo as estações. Não tem conflitos com a natureza. Move-se para onde estão as flores, não sabe para onde está indo, vai sem preocupação em direção a Ñamandu. Porque sua meta não é um fenômeno fixo. Onde quer que a natureza o leve, essa será a sua meta, onde quer que a natureza o leve, ali ele será feliz, ali está Ñamandu. Porque seu objetivo está em toda parte, precisa apenas estar predisposto e, então repousar tranqüilo sabendo que tudo vem na devida estação.
O Mainoi age segundo a sua verdade, pois essa é a única verdade, agir conforme a própria natureza, se não for assim, será mentira, uma vida falsa, sem valor. Por isso, o beija-flor é silencioso, seu canto é silencioso, não precisa dizer de si, ele é a própria verdade encarnada, seu ser diz por si. Assim, o Mainoi é um grande mbaekwaa (sábio), mestre para o Ñande Reko, pois, ele é o próprio aguyje (êxtase) voando revoluteando.

Tekowa Xinguy – Ara Karai - 2010
Awaju Poty

Aywu Porã - aulas 3 e 4

3 - Mboapy’na Aywu Porã aty’guy

PRONOMES
Obs. Não há em Guarani diferença de gênero entre os pronomes.

PESSOAIS
Eu – Xe
Tu (você) – ndee (antes de orais), ne (antes de nasais)
Ele, ela – há’e
Nos (inclusivo) – ñande (antes de orais), ñane (antes de nasais)
Nos (exclusivo) – ore
Vós (vocês) – Pende (antes de orais), pene (antes de nasais)
Eles, elas – Há’ekwere

POSSESSIVOS
Xe’mbae – meu
Ne’mbae – teu, de você
Há’embae – dele, dela
Ñane’mbae – nosso
Ore’mbae – nosso
Pene’mbae – vosso, de vocês
Há’embae Kwere – deles, delas

VOCABULÁRIO
Ke – partícula exortativa. Ex: Reike ke! (entre!)
Kwa’a - saber
Há’ewy: então
Iko – 1 - viver, existir. Ex: Jaiko wa’e (nós que estamos vivendo). 2 – acontecer, realizar-se, Ex: oiko jeroky (houve dança). 3 – morar, ficar (em um lugar). Ex: Tekowa Aiko pe (eu moro no tekowa)
Ipota – desejar
Ike – entrar. Ex: Reike ke opy (entre dentro da casa de reza)
Mba’e – coisa, objeto não humano
Mba’e – 1 - indica proposta, que tal. Ex: japytu’u mba’e (que tal descansarmos). 2 – talvez seja. Ex: pende’po mba’e, pende’py mba’e (talvez seja vossa mão, talvez vosso pé.
Mba’e mombe’u – contar alguma coisa. Ex: nemba’e mombe’u ke (conte alguma coisa sobre você)
Mba’eta – conjunção coordenativa entre orações: pois, porque. Ex: nemba’e mombe’u ke, mba’eta ñande jaipota kwa’a ndee guy. (conte alguma coisa a seu respeito, pois desejamos saber de você.
Mba’emo – alguma coisa
Mba’emo rei – qualquer coisa
Mba’enunga – que tipo é?
Mba’erã – para quê?
Mba’ere – por quê?
Mba’e rei rei – bens materiais. Ex: xemba’e rei rei (meus bens)
Mba’ete rã – algo não identificável. Ex: mba’ete rã oiko ñande’wy (não sei o que aconteceu a nós)
Mba’ewe – nada
Mba’eypy – mito
Mba’eyru – veículo, meio de transporte
Mba’exa pa – como é que? Ex: mba’exa pa omombeu? (como é que ele contou?)
Mombe’u – contar, relatar
Ypy – começo, principio, início.


4 – Irundy’na Aywu Porã aty’guy


PRONOMES
partícula conjugativa
Xe - a
Nde'e - re
Ha'e - o
Ñande - ja / ñe (nhe) antes de nasais, (nosso – inclusivo)
Ore - ro (nosso - exclusivo)
Pende – Pe’e
Hae'kwere - o


EXEMPLO

VERBO PRESENTE
Eu Xe Amombe’u Aipota
Tu/você Nde'e Nemombe’u Reipota
Ele Ha'e Omombe’u Oipota
Nós Ñande Nhemombe’u Jaipota
Ore Romombe’u
Vós/vocês Pende Pe'emombe’u Pe'eipota
Eles Ha'e kwere Omombe’u Oipota


FUTURO PASSADO

Xe aipota wa’erã (desejarei) Xe aipota wa’ekwe (desejei)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

AYWU PORÃ – A LÍNGUA SAGRADA

Obs. Semanalmente será postada uma lição da língua sagrada neste blog. As pessoas que tiverem interesse no curso à distância poderão interagir, fazendo perguntas e trazendo as suas questões através do blog.
As aulas estão sendo ministradas pelo mbo’ehara Awaju Poty, no tekowa Xiinguy, nos domingos, às 09:00h.
A versão em português está sendo revisada e postada pela ñadexy’i Yxapy Rendy. Em espanhol pelo ywyraija Guyra’una. E, em inglês pela kunhã Oky’iju.


1 - PETEYM’NA AYWU PORÃ ATY’GUY (PRIMEIRA AULA DA LÍNGUA SAGRADA)

NÚMEROS – PAPA’NGA KWERE


Em Guarani os números básicos vão de um (1) à cinco (5). O número um (1) indica a unidade do indivíduo e o número cinco (5) indica a unidade do todo. Então os números básicos do sistema Guarani são:

1- Peteym
2 - Mokoym
3 - Mboapy
4 - Irundy
5 – Peteym’po (uma mão)

Para a formação dos outros números temos de usar os termos:

MEME - dobra o número
RIRE - soma, adiciona

Exemplos:

6 – Peteym’po rire peteym
7 – peteym’po rire mokoym
8 – peteym’po rire mboapy (ou)
irundy meme
9 – peteym’po rire irundy (ou)
irundy meme rire peteym
10 – peteym’po meme (ou)
Mokoym’po
11 – peteym’po meme rire peteym
20 – mokoym'po meme (ou) mokoym’'po rire mokoym'py (dois pés)


Sufixo: NA ao final indica número ordinal

Exemplos:

1º Peteym’na
2º Mokoym’na
3º Mboapy’na
4 º Irundy’na
5º Peteym’po’na


VOCABULÁRIO:


Aty: cerimônia, reunião, celebração
Aywu: língua, fala, palavra, verbo
GuNegritoy: de (de algo ou alguém)
Kwere: indica plural. Ex. papa’nga, número; papa’nga kwere, números.
Meme: dobre
Mbo’ehara (mboea): professor, mestre.
Número: papa’nga
Numerar: papa
Numeroso: ndipapahári
Ñande Reko: Maneira de ser Guarani.
Porã: maravilhoso (a), sagrado (a)
Po: mão
Py: pé
Rire: some, adicione
Tekowa: Lugar onde se vive o Ñande Reko, normalmente a palavra é traduzida como “aldeia”.
Xiinguy (tinguy): grupamento Guarani da linhagem Kara (Karai, Karaiwe, Karaiwa, Karaiba, Karaita, Kari, Kario, Karijo).

2 – MOKOYM’NA AYWU PORÃ ATY’GUY (segunda aula da língua sagrada)


AMBEKETY - ABECEDÁRIO

C, F, Q, L, S - letras que não têm no abecedário da língua Guarani.
ambekety (abecedário)
ty - junção; ponto de coesão, como em mae'ty, como em aty.

A - é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til. Nos demais casos,
nas demais situações, tem som aberto. Ex: ka'a,(aberto); amba (primeiro “a” nasal,segundo “a”aberto)
Ã, ou Am - som nasal, ex :porã. Pode ser escrito também “poram”.
B - pronuncia "MB", como em mborai, mboru (recomenda-se escrever “MB”)
K - ex: Ka'ayu
D - pronuncia "ND" ex: nde'e (recomenda-se escrever “ND”)
E - é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til. Nos demais casos,
nas demais situações, tem som aberto.
~E, ou em – Re’em (e’em).
F - não tem
G - pronuncia "GUE", como em Gato ou "GÜE" como em Guata
H - som aspirado, como em Hot do inglês. Ha'ewete, Ha'ewei
I - é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til, como em xiin. Nos demais casos, nas demais situações, tem som aberto.
I~, ou Im – ex: mirim
J - pronuncia "DJ", como em Awaju, Juku’a; (recomenda-se escrever “J”), como no inglês John
L - não tem
M – normal, como em mitã, mongeta
N - normal, como em any
Ñ, ou nh - soa "NH" ou Ñ do espanhol como em Ñandewa, Añagawa (anhangava), ñemongeta, ñomongeta; pode-se escrever também Nhandewa ou Anhangawa.
O - é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til. Nos demais casos,
nas demais situações, tem som aberto.
Õ, ou om – Ex: ombopu.
P – normal, como em Petyngua.
Q - não tem
R - sempre com som brando, como em ara. Pronúncia semelhante ao Inglês
S - não tem
T – normal, como em tatu, ta’uwõ.
U – é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til, como em ywaum. Nos demais casos, nas demais situações, tem som aberto, como em pytu’u
~U, ou Um – Ex:pytum
V – não tem
X - pronuncia "TCH", como em Xeru.
Y - som gutural, é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til, como em petyn. Nos demais casos, nas demais situações, tem som aberto, como em aty.
~Y, ou Ym - ymba
W - como em where (do inglês), wae'rã


VOCABULÁRIO:

Amba: lugar para onde devemos nos direcionar.
Any: não
Ara: tempo-espaço
Guata: caminhar, andar, percorrer.
Ha'ewete: agradecido
Ha'ewei: uma forma de louvar a divindade (Deus do limite, do que é possível).
Há’ewe: está bom, é bom
Há’ewe’rã: vai dar.
Juku’a: tosse, gripe.
Ka'a: folha, mata, bosque, floresta.
Ka'ayu: chimarrão, mate preparado
Mae'ty: mandala de plantio
Mborai: canto
Mitã: recém nascido
Mboru: constância
Mongeta: admoestar, aconselhar
Ñandewa: dos nossos
Nde'e: voce
Ñemongeta: Salmodiar, cantar monotonamente, canto-mântrico.
Ñomongeta: aconselharem-se
Ñepytum: Escurecer
Porã: sagrado, maravilhoso.
Petyngua: cachimbo sagrado
Pytu: fôlego
Pytu’u: Parar certa atividade
Pytum: Escuro, noite
Pytum’ana: Escuridão grossa
Pytum’are: Muito tarde da noite
Pytum’guyre: no escuro
Pytum’mbyte: meia-noite
Pytum’i: à noitinha
Re’em (e’em): doce
Ty: junção, ponto de coesão.
Xeru: meu pai
Petyn: fumo guarani
Tape: caminho, picada, Carrero.
Ta’uwõ (ta’uwon): profecia
Ymba (mymba): Animal doméstico
Ywaum: semente negra sagrada (sementinhas de fazer colar típico guarani).
Wae'rã: o que será, indica futuro

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ykarai: O Autorenascimento

1. Ritos de Passagem



Na tradição nativa Guarani Ñandewa (Ñande Reko), quatro são os ritos básicos de passagem que marcam os estágios etários da vida humana; mas muitos outros ritos de passagem reforçam estes ritos básicos. Os ritos etários ocorrem de treze em treze anos, mas eles reverberam em cada fase e em cada ciclo da lua, assim como em cada solstício ou equinócio.

As kunhã (mulheres) têm o reverberamento do seu rito de passagem em cada menstruação, cada menstruação é uma oportunidade de renovação e reciclamento; em todo mês, em cada menstruo, um novo momento pode acontecer; ela marca o mês, por isso essa denominação para o período da lua, pela sua importância. Então pela sua importância dedico o próximo parágrafo a este rito de passagem.
Para o povo Guarani Ñandewa, o “tempo da lua” (Jaxy’ara) é o tempo sagrado da mulher. Durante esse período ela deve liberar-se das energias antigas, que fazem parte de um tempo que passou, e preparar-se para a religação com a fertilidade da qual será portadora no próximo mês. Nosso povo sabe o quanto é importante para cada mulher se aprofundar em seu espaço sagrado durante esse momento de recolhimento, pois as mulheres são as portadoras da abundância e da fertilidade. As mulheres são as mães, elas dão o futuro do povo, trazem fertilidade às lavouras, abrigam os sonhos da nação em seu ventre. E nesse momento elas estão em seu período de renovação. Os povos antigos sabiam que esse era o momento sagrado da mulher, e o respeitavam como respeitavam cotidianamente as mulheres, pelo seu desígnio de portarem a vida.
Mas como disse no início deste tópico, os ritos de passagem referem-se, em geral à conscientização de nossas mudanças etárias, embora eles reverberem em todos os momentos de mudança. Também há o rito do nascimento e o da morte. As exceções a essa forma acontece nos ritos que se realizam em grupos especiais como os dos “moã’ija”, onde os membros são iniciados nos mistérios que conduzem a um nível mais elevado de consciência. Para entrar por essa porta é necessário ter merecido a confiança, haver demonstrado qualidades especiais e ter conquistado a boa vontade dos Kandire (guias espirituais especiais) ou, de um Mboruwyxawete, em passar adiante esse tipo de conhecimento.
Porém importante é salientar que a recusa ou ignorância da transição em um momento de mudança pode ser fatal. Digo isso porque na sociedade contemporânea está se ignorando esse aspecto da condição humana. Quando as pessoas chegam ao seu momento de mudança de paradigma e, não são auxiliadas e nem têm o esclarecimento de que estão sendo chamadas pela natureza para um salto qualitativo na sua maneira de existir, para um novo momento de perceber e viver a vida, é indício de que estamos diante de uma ausência de saber. O resultado da ignorância, da ausência de saber, é a doença e, não conseguir a resposta a uma doença traz a morte (mano), ou seja, a possibilidade de renascimento e mudança inexorável, pois vida é movimento. Então, sempre que estamos diante de uma doença, estamos diante da esfinge que nos diz: “decifra-me ou devoro-te”. A doença indica que estamos estancados, ou seja, que estamos impedindo o fluxo de uma força poderosa de vida e, deixá-la fluir nos conduz a um novo momento de ser.
Os ritos de passagem e a intervenção de um homem ou de uma mulher de sabedoria auxiliam os Wa’erã, os que estão iniciando sua jornada, para que seu trajeto nesta vida possa ser em alegria. Mas, hoje, neste momento de ausência de muitos conhecimentos, normalmente a mudança ocorre mediante a dor (a doença), e muitas vezes o enigma não é desvendado, muitas vezes tenta-se eliminá-lo, mas ele é persistente e retorna em sua missão, em suas muitas faces; pois ele pede para ser compreendido e, tão logo for compreendida a sua missão, o novo momento de vida que porta, nos deixa.


2. NHEEM: O PRINCIPIO BÁSICO




O principal rito de passagem Guarani é o Ykarai, o Ykarai é uma cerimônia de autorenascimento. Após nascer do ventre de nossa mãe, que é nosso nascimento como indivíduo da espécie humana, espécie terrena, homens (awa) e mulheres (kunhã); devemos renascer do ventre de nossa mãe terra (Ñandexy Ywy retã) que é o nosso nascimento para o coletivo, para o cósmico, espécie celestial, espíritos (nheem). Porém, se esse renascimento for apenas formal e não for também real, verdadeiro (ete), ele não se efetiva de fato, de verdade.
Para não haver falta de clareza léxica, é importante dizer que traduzi a palavra Guarani “Ykarai” pela palavra autorenascimento, por ser o léxico com o sentido mais próximo que pude encontrar, para esse termo, na língua hoje falada em Pindo retama (Brasil); mas não podemos deixar de ter em conta que Ykarai também pode significar: autoconscientização, autocriação, autotransformação, autoeducação, autolibertação, autorealização e, autocontrole, individual e coletivo, da vida.
Devemos também considerar, para a compreensão e a aplicação da força numinosa do Ykarai, dois aspectos que são interligados, pois, à parte o Ykarai ser uma cerimônia de desvelamento do nome-alma (rery), ele tem também uma função determinante que é a de dar sentido para a vida do renascente, pois sem ter esse sentido, esse rumo, essa rédea da vida nas mãos, o individuo estará perdido, não chegando a lugar algum. Portanto, o autorenascimento é muito necessário, principalmente para aqueles que largaram as rédeas, que perderam o rumo, o sentido da vida, que perderam a segurança, a liberdade, a independência; e que estão sem criatividade, sem esperança; que vivem em meio a dificuldades imensas, impossibilitados para a realização do autocontrole da sua existência.
O Ñande Reko, a sabedoria ancestral do povo Ñandewa Guarani, nos ensina sobre Ñamandu, a natureza de todos os mundos, ou seja, sobre a ordem e a beleza do Universo. Neste texto, como experiente timoneiro do Ñande Reko (tuja), ensino aos jovens de espírito a pilotar a sua existência. Em suma, ensino a se ter autocontrole sobre a mente, pois nela estão os comandos dessa nave sofisticadíssima que é o nosso ser, veiculo que nos conduz nessa jornada (guata porã), nesse trajeto (guata’gua) até nosso destino.
Inicio este nosso aprendizado sobre o autocontrole da mente, que é o aprendizado sobre o comando da nossa nave-vida, dizendo que como dois vetores que bifurcam, se nos apresentam dois tipos de autocontrole mental, e que entre tantos são: o parcial e o total, o provisório e o definitivo, o momentâneo e o constante, o paliativo e o efetivo, o desistente e o persistente, o superficial e o profundo, o descendente e o ascendente; e que da focalização básica que damos a esses dois vetores depende a nossa existência. Do discernimento que temos do que é principal e do que é complementar para a nossa existência depende a direção que damos para nossa vida; o desconhecimento deste princípio básico nos coloca em rota de colisão com o universo. O Ykarai é o rito que acessa essa consciência.

3. KARU: O COMBUSTÍVEL



A nossa nave-ser tem seu comando na mente e, para acioná-la não é necessário nenhum equipamento grosseiro, ela é acionada pelo verbo, pela palavra (aywu) e, dado o comando, o equipamento entra em operação. Essa é a questão fundamental: ter cuidado com o comando que damos, ter cuidado com a palavra-pensamento e com a palavra exteriorizada, ela aciona o nosso equipamento mente. Por outro lado, para se ter autocontrole mental devemos antes adquirir autocontrole sobre o pensamento-palavra e sobre a palavra dita, ou seja, sobre o verbo (aywu).
Então vamos a esse segundo aprendizado: o do abastecimento do comando. O combustível de nosso ser é Karu, o alimento; nós somos abastecidos de Karu, palavra Guarani que significa alimento; porém a palavra Guarani que significa alimentar-se não existe, existe a palavra “Jau”, que significa, absorver alimento. Porque essa diferenciação? Respondendo: Porque a nossa nave-ser é feita do que absorvemos.
Para acionar o comando da nossa nave-ser precisamos de palavras, palavras que precisamos aprender e acondicionar em nossa memória, palavras que absorvemos. Não podemos desconsiderar esse aspecto maravilhoso da forma-função (rete) humana, nosso próprio corpo é fruto de uma memória genética operacionalizada. Karu é absorvido pela nossa memória através do que ouvimos, do que vemos, do que tocamos, do que degustamos; por isso precisamos ter muito critério, devemos usar nosso arbítrio para escolher boas coisas para absorver, porque elas passarão a fazer parte de nosso ser.
Com relação ao nosso corpo, como ele é um empréstimo deste retã, deste planeta, mãe terra; os elementos que absorvemos dela um dia serão devolvidos; eles fazem parte do nosso espírito somente enquanto durar esta vida, porém eles revestem a nossa memória genética, e deles depende a qualidade da materialização de nosso espírito nesta vida, neste planeta e, a qualidade de nossa vida em muito é determinada pelas escolhas que fazemos dos alimentos sólidos, líquidos, aéreos e ígneos que utilizamos.
Aprendemos então que mesmo o sistema de comando precisa ser alimentado, precisa desse combustível sutil que é a palavra e que para cada função da nossa nave precisamos de um combustível especial. Para alguns pode parecer tarefa fácil alimentar-se, porém, no mundo de hoje, isso não é tão simples assim, devido a um desvio acontecido na percepção do que é principal (aru) e do que é complementar (axy) para a vida.
Estamos vivendo um momento bastante complexo, pois está acontecendo que, paralela e proporcionalmente ao progresso tecnológico, está havendo a destruição da tranqüilidade, da paz, da liberdade, da humanidade, da solidariedade, da fé, da fraternidade, da moralidade, da fidelidade, da justiça, da consciência, da segurança, da resistência, da alegria de viver e ainda, ao mesmo tempo, estamos criando um relacionamento humano de hipocrisia, de espionagem mútua, de aproveitamento momentâneo, de saque, de concorrência, de fuga, de escape mútuo à responsabilidade, de afastamento, de indiferença, de isolamento egocêntrico, de indolência e de degeneração geral.
O caminho existente que oferece a possibilidade certa do auto-aperfeiçoamento é a obediência à ordem da natureza (Kora). A decadência, a degeneração, ou qualquer outra forma destrutiva, é o resultado da ausência de conhecimento da ordem da natureza, do esquecimento, do afastamento, do engano, do saque, da destruição, da ignorância, da fuga, da indiferença, do desrespeito e da ingratidão para com a natureza. Enfim, ninguém poderá desobedecer à ordem proporcional entre o principal, a parte celestial, cósmica, e a complementar, a parte terrestre, se quiser aperfeiçoar sua vida, a qual nunca poderá ser repetida. Quem quiser aproveitar essa possibilidade, para realizar a combustão completa da capacidade própria, terá que obedecer, inevitavelmente à ordem da natureza.
Porém, não podemos nos enganar: somente com o preenchimento da memória, até a estafa intelectual de conhecimentos limitados, ou estudos excessivamente detalhados, sem utilidade prática e criativa, não haverá nenhum aproveitamento satisfatório do combustível espiritual (Nheem’karu). Portanto, não precisamos mais encher, cobiçosamente, nossas cabeças com conhecimentos e informações fragmentadas.
Quem obedece à ordem principal (aru) e complementar (axy) desenvolve. Mas, cada um precisa descobrir a falta de ordem proporcional em sua própria vida. Sempre há uma parte em desequilíbrio. A decisão, com referência ao que é principal ou complementar, depende do sexo, da idade, da constituição, da atividade, do trabalho, do tempo, do lugar, da percepção da vida, etc.. Portanto, antes de qualquer coisa, precisamos definir e determinar a proporção principal e complementar de qualquer assunto que se tenha que enfrentar.
Entretanto, existe a ordem progressiva do movimento, da mudança ou inversão entre o principal e o complementar, paralelamente com a passagem da idade, no desenvolvimento do ser humano. O homem (awa) e a mulher (kunhã) atingem a sua maturidade aos 52 anos. A primeira metade do desenvolvimento da vida humana, desde o nascimento até os 26 anos, dentro da estrutura, da função e da proporcionalidade do desenvolvimento, que é mais físico, é controlada pela alimentação (jau) estomacal (intestinal). Nessa idade, a alimentação física é a principal, e a alimentação espiritual é complementar. Na segunda metade do desenvolvimento da maturidade humana, dos 26 aos 52, a realização é principalmente espiritual. É uma mudança aru/axy. Aos 26 anos deverá estar terminada a fase da construção física, dando início assim à construção espiritual da personalidade, concentrando e direcionando a vida para a frutificação.
Karu, o combustível da vida em todos os mundos; e Jau, a sua absorção, pedem que tenhamos juízo, arbítrio, pois errando nesse inicio, no abastecimento dos dados, continuaremos errando e cada vez nos desequilibrando mais, até que surja uma oportunidade de conscientização do desequilíbrio e assim possamos nos corrigir. A cerimônia de Ñemongarahei, da floração e da renovação do(s) propósito(s) sempre nos oferece uma oportunidade de equalização ou de reafirmação do nosso destino cósmico (guata’gua), é uma cerimônia de avaliação do nosso desempenho na jornada, de celebração de nossas vitórias e momentos de contar os golpes sofridos e as perdas. O Ñemongarahei é o momento de reavaliação do Ykarai, de renová-lo, de reafirmá-lo ou, de redirecioná-lo. No Ñemongarahei realimentamos a consciência de sermos divinamente humanos.