terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Avance Documental Ñande Reko - Un viaje hacia el espíritu

Awaju e Ara Pyau Tekowa Karioka


ÑEMONGETA: DIÁLOGO

                                             ÑEMONGETA: DIÁLOGO

          Neste texto respondo algumas perguntas que recebi em meu blog, em entrevistas e palestras. Fiz uma escolha segundo meu próprio critério, por falta de condições de responder conforme as perguntas foram surgindo.
          Por outro lado talvez a partir deste texto possa responder as perguntas que vierem, em forma de diálogo, dando prosseguimento as cinco primeiras que escolhi a priori, por ordem de chegada. Vamos então as perguntas recebidas:



1. Awaju, o que destacaria como mais importante para você, no seu trabalho de pesquisa da cultura guarani?
R: Nesta jornada de mais de duas décadas, o mais importante para mim foi o encontro com Ñamandu, Deus; também a redescoberta de outra face de Kexu Krito, o Ñamandu Miri, Yehetchua Netzari.
Quando me foi pedido na Universidade de São Paulo um depoimento de vida, por ocasião do “Encontro Internacional de História da Religião”, no ano passado (2013), respondi: Dois aspectos de minha vida são mais importantes com relação a todos os outros que me dizem respeito, são: a música, que me acompanha desde sempre, iniciei meu estudo sistemático aos oito anos, porém desde que me lembro de mim estou acompanhado da música; e a  espiritualidade. A espiritualidade teve um aspecto não resolvido até a minha maturidade. Devido a outras influências, minha decisão religiosa foi tardia e casual. Deu-se no ano de 1991 quando morava em Itanhaém, por ocasião da minha pesquisa de mestrado em “Comunicação e Semiótica” na PUC/SP. Nas imediações dessa cidade do litoral paulista há diversas comunidades Guarani. Passei a frequentar essas comunidades e rezar no Opy (casa de reza), devido a facilidade de relacionamento por falar a língua, gostar de tomar Ka’ayu (chimarrão), fumar petym e praticar o Jeroky (dança) assim como de cantar os mborai. Por questões afetivas tomei naquela ocasião a determinação de me dedicar ao resgate e à pesquisa da música e da espiritualidade do meu povo paterno, que é nativo do cone sul da América do Sul, já que minha mãe é de origem Italiana. Hoje já somam 22 anos de dedicação exclusiva ao povo Guarani.

2. O que o Ñande Reko representa para você?
R: O Ñande Reko, a maneira de ser guarani, pauta a minha maneira de viver e, é o meu caminho de realização espiritual.
Por ocasião da saudação de Ara Ymã, equinócio de outono (2011), respondi a uma pergunta semelhante da seguinte maneira: O Ñande Reko é a “postura de vida” do Xondaro, do guerreiro e da Xondaria, da guerreira. É a “maneira de ser” dos Kwaray’i, dos Guarani, ou seja, dos filhos e das filhas da luz. O Ñande Reko também pode ser compreendido como o guata porã, caminho sagrado Guarani, compreendendo por isso um caminho que pede para se ter bons procederes. Diria, também, que o Ñande Reko é o caminho do coração. E que, na verdade, as boas ações, os bons procederes higienizam, lavam o coração.
Quando digo coração estou me referindo ao “Koratã”, ao coração da alma, que por sua vez, tem enorme influência sobre o órgão análogo em nosso corpo físico, na medida de que somos “um”.
A higiene do coração pressupõe boas ações, mas, em um sentido amplo. Então, as boas ações não incluem o encorajamento da traição e da malícia, nem os louvores aos profetas da mídia, aos impostores, covardes e todos os servidores das trevas. As boas ações não incluem a negligência odiosa nem a premeditada dissimulação. As boas ações têm como objetivo o bem comum. Assim, o coração adquire a solenidade (serenidade necessária) semelhante à consonância das esferas. As boas ações, realmente se distinguem como conquistas do bem, não pelas batalhas cruéis, mas pela coordenação com o objetivo. Porém é mais fácil não pensar e aceitar um ligeiro desvio.
O coração sabe onde está o desvio. Muitas infelicidades provêm do excesso de confiança, que é imperdoável onde se guardam tesouros.
É necessário reconhecer a luz como uma substância viva. Normalmente considera-se este ensinamento como o mais infundado. Mas será possível compreender o fluir da energia do coração como algo pertencente ao fosfórico? Ao contrário, o coração sensível leva à renovação da consciência. Não dispensando por isso o estudo dos textos.
O estudo de textos contidos em muitos textos é significativo. Porém, aquele que os estuda não deve tentar assimilar o ensinamento sob o mesmo estado de espírito, porque é dessa maneira que nascem os numerosos pontos de vista. Portanto, seria prudente mencionar em cada texto, pelo menos brevemente, o que foi comunicado antes, para possibilitar uma assimilação sob o mesmo estado de espírito. Os estados de espírito são fontes do nascimento de pontos de vista. O contrário disso faz nascer o preconceito.
Aquele que não vive solenemente não pode compreender o dano do preconceito. Este se desenvolve não em grandes feitos, mas em cada ação diminuta. Assim, o escravo do preconceito desperta já amaldiçoando um sonho que não se adapta às limitações de seu ser. O dia inteiro ele condenará e amaldiçoará, porque não terá as medidas do coração. E ele adormecerá condenando e visitará a esfera correspondente à condenação. A indiferença também faz parte dessa esfera.
Na indiferença criminosa, não se manifestam as reações benévolas, mas na paciência.  A paciência é uma tensão, manifestada conscientemente, e uma oposição às trevas.  É dessa tensão gerada pela oposição às trevas que nascem as reações benévolas. A paciência é a fonte da graça e da leveza, e nela repousa a força do Ñande Reko.

3. Há algumas décadas paralelamente à atuação como pesquisador você vem atuando como pajé, como isso se dá?
R: Meus textos acadêmicos podem elucidar muito sobre esse povo maravilhoso, sobre a sua arte, agricultura e religião. Porém na minha atuação como pajé, como você disse, posso transmitir a vida dessa cultura em diálogo com as culturas do mundo.

4. Qual a relação dos guarani com o cristianismo?
R: O cristianismo faz parte da cultura guarani, de uma maneira mais intensa ou menos intensa conforme a parcialidade. No caso do povo ñadewa’ete, a doutrina de Ñamandu Miri, o Emanu, Ñamandu encarnado, acontece já no primeiro século da era cristã e é trazida por Xume, Yuda Didimus Thomas. O registro dessa doutrina esta no Mborai, canto, “Mborai Porã”, que pertence a tradição oral do povo Ñandewa. Depois temos também o convívio com os Kexuitas, os jesuítas, e contemporaneamente com os evangélicos e espíritas, que também exercem influência sobre os guarani, muitos pesquisadores não querem enxergar essa realidade, mas ela é presente e enriquecedora, seja pelo rechaço ou pela absorção. Não podemos ignorar que os guarani convivem com o estranho em suas terras por mais de meio milênio.

5. Qual a tua relação com o cristianismo?
R: O cristianismo hoje permeia toda religiosidade planetária, seja pela afirmação seja pela negação, toda religiosidade entrou em algum momento em dialogo com ele. A passagem de Yehetchua Netzari marcou um antes e um depois dele. A minha história de vida não é diferente: a família de meu pai é nativa do Paraná. Embora sua prática religiosa não fosse tão presente em termos formais, possuía uma religiosidade permeada pelo cristianismo, cumprindo os ritos básicos do catolicismo como batismo e casamento e a frequência à igreja nos dias de festa, principalmente na festa do Rocio, que é uma santidade de origem indígena, Yxapy é o nome de rocio. Hoje a comunidade caiçara ignora a origem indígena de Rocio e vive apenas o sincretismo.
Meu avô tomava mate por hábito sem ter noção mais da sua origem.  Os avós maternos de meu pai fumavam palheiro ou cachimbo, também sem saber que esses dois elementos fazem parte da cerimônia Guarani do aty, esse fenômeno é comum a muitas famílias nativas do sul do Brasil; o sincretismo católico levou-os a esquecer do sentido de seus hábitos.  Porém coisas fundamentais permaneceram como a vida gregária e comunitária bem como uma sensação de suspeita para com a religiosidade predominante na qual se sentem inseridos, porém, insatisfeitos.
Por outro lado, a família da minha mãe é católica praticante, mas com uma espiritualidade complementada em suas lacunas pelas crendices populares. A avó materna da minha mãe veio de Veneza, mas aqui no Brasil filiou-se à irmandade de São Benedito.
Na minha infância tive formação católica e estudei em um colégio de freiras. Mas, a partir da minha adolescência, comecei um trânsito por muitas influências. Fiz Ioga, pratiquei “Tai tchi tchuan”, meditação Zen. Sempre me aprofundando com afinco e extrema dedicação a minha busca espiritual.
O meu reencontro com a cultura nativa não se deu pela religião e sim pela música, tinha nessa época aproximadamente 34 anos quando me senti em casa novamente.
Integrei em mim a cultura Guarani como relatei na canção “Guayrana”. Com os Guarani aprendi outro cristianismo, se assim posso chamar; quando fiz o meu ykarai, a cerimônia de recebimento de nome Ñandewa, nasci de novo.
Hoje chamo Jesus de “Emanu, Kexu Krito ou Ñamandu mirim”; e o espírito sagrado, o espírito santo de Ñeem Porã; e Deus de Ñamandu; os quatro tronos conforme a sua direção são Tupã, Jakaira, Kwaray e Karai, e assim por diante. E essa não foi apenas uma questão de mudança de nomes, mas de uma mudança de paradigma. Aos quatro evangelhos se acrescentou mais um, o “Mborai porá” de Xume  (Yuda Didymus Thomas), ou seja, no mínimo tive um grande enriquecimento da minha concepção primária da doutrina de Yehetchua Netzari.


Mborai: o canto sagrado guarani (texto apresentado na Universidade de São Paulo por ocasião do “Encontro Internacional de História da Religião” – 2013)

Mborai: o canto sagrado guarani
(texto apresentado na Universidade de São Paulo por ocasião do “Encontro Internacional de História da Religião” – 2013)
Introdução
Mborai: O Canto Sagrado Guarani, forma com Mimby: A Arte de Fazer e Tocar Flautas de Bambu e Mborayu: Um Conceito da Espiritualidade Guarani, uma trilogia sobre a música e a espiritualidade Guarani. Entre 1991 e 1995 escrevi a dissertação de mestrado Mimby: A Arte de Fazer e Tocar Flautas de Bambu. Essa dissertação foi defendida em 1995 no programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP. Entre 2008 e 2010 escrevi a tese de doutorado Mborayu: Um Conceito da Espiritualidade Guarani, essa tese foi defendido em 2010, no programa de Ciências da Religião da UMESP. O estudo que apresento, agora, faz parte da minha pesquisa de pós-doutorado, nela me detive especificamente na poética do Mborai, Canto Guarani, cujo conteúdo tem cunho religioso, linguagem afetiva que é compartilhada reciprocamente por todos que tem em si o sentimento de pertença a esse liame social.

1. Mba’eã’ã: um esforço em busca de valor e força espiritual.
No Mborai que apresento Mba’eã’ã e que faz parte do meu estudo de pós-doutorado, canto coletado por Martínez Gamba (GAMBA, 1984, p.52), apresenta o contraste entre o princípio econômico Guarani e o do Jurua, do ocidental; raiz de toda uma incompreensão da maneira de viver e de tratar as coisas entre essas duas culturas que compartilham o mesmo espaço. O ponto crucial desse canto está no dizer:
Arajeapo awã xe tataxyna rupa ñemomba’e awykyguy, xe tataxyna rupa rakã poty ñemomba’e awykyguy, urukure’a’i te ma (...) há’eguy maem, juruapy ame’em ramowe, aupity wa’erã xo’o’i, mba’e re’em’i, juky’i re’em ro, u’ixim reko axy, Xe reta kwere há’e jawi kwe’i rewe roupi awã, ore rataypy rupa mbowy’i re. (BAPTISTA, 1996, p. 10).

1. Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo/UMESP. Professor de Composição Musical na Universidade do Estado do Paraná/UNESPAR. Participa do grupo de pesquisa NETMAL da UMESP. Orientadora Professora Doutora Sandra Duarte de Souza. Email: sanduarte@uol.com.br.

Ã’ã significa esforçar-se por conseguir algo, os cantos constituem um esforço em busca de valor e força espiritual. Ñemomba’e awykyguy é aquilo que se toca, refere-se à madeira que esta em contacto com o côncavo das mãos ao se entalhar um animalzinho. Rakã poty nomeia os dedos e as unhas: ramos floridos. Por outro lado, o côncavo das mãos, palma das mãos contêm a neblina vivificante, a força criadora. Juru’a: o ocidental; juru: boca; a: aberta; literalmente é o falador, o que fala muito. A tradução desse trecho é:
“... Possa eu fazer com o que tocam os meus leitos de nevoeiros, com o que roçam os ramos em flores de meus leitos de nevoeiros, imagenzinhas de pequenas corujas (...) e só depois de os vender aos estrangeiros, comprarei carne, um pouquinho. Pouquinho de açúcar. Pouquinho de sal salgadíssimo e de imperfeita farinha de milho, para comer junto com todos os meus irmãos, todos, em torno aos poucos assentos de nossas fogueiras...” (BAPTISTA, 1996, p. 11).
Em seu texto sobre os Guarani, Neblina Vivificante, Josely Vianna Baptista relata que:
“À margem da existência dos habitantes de Missiones, os Mbya trabalham a madeira (contemplando o desmatamento que vem desnudando a região), esculpindo as talhas, os animaizinhos citados em suas milenares plegarias, seus cantos de caráter mágico-religioso.” (BAPTISTA, 1996 p.9).
No relato, da Josely temos bem ilustrado o contraste entre a espoliação econômica da natureza e o deleite de apreciá-la, porque para o Guarani o desejo de prosperidade econômica, ambições políticas ou qualquer outra ambição pouco significam e não o preocupam. Seu ideal de cultura é de outra ordem, o da vivência, do deleite místico da divindade.
A espiritualidade ocupa o coração da cultura Guarani. Ferido esse coração, a cultura empalidece e, destribalizada, se dilui entre as camadas mais depauperadas do caboclo e do caiçara brasileiro, do mestiço paraguaio e do criollo argentino. O caiçara e o caboclo, o mestiço e o criollo são situados à margem na sociedade juru’a, pois não a compreendem no seu sentido real, supõem conhecê-la, mas não conseguem entender os seus princípios econômicos e, portanto, mesmo trabalhando muito, não têm retorno econômico condizente com as suas horas de trabalho, ou seja, eles próprios não sabem valorizar o seu trabalho em termos econômicos ocidentais. E claro, na sua forma artesanal de trabalho, não tem a mínima chance de competir com as companhias pesqueiras, no caso do caiçara; e no caso do caboclo, sua agricultura manual não tem a mínima chance de competir com a agricultura mecanizada e aditivada de insumos como é praticada no sul do Brasil, na Argentina e no leste do Paraguai. Ficando então o resíduo Guarani, mas, com um pé na sociedade ocidental, também eles, encontram-se em via de extinção pela absorção através da aculturação escolar e instrução técnica.
No caso do Guarani, a distância é maior, porque tem os dois pés fincados em sua cultura. Observando um Guarani ao vender um Tangua, imagenzinha, podemos conferir que ele coloca em sua mercadoria um valor relativo à sua necessidade, então para o juru’a dependendo da necessidade do Guarani, o preço será caro ou barato, mas nunca compreensivo, porque nunca será o mesmo para o mesmo objeto, ou para algum semelhante, como se poderia supor. Para o juru’a o preço deveria ser o mesmo, caso não haja inflação; mas para o Guarani não, depende da sua ou, da necessidade dos seus, de quanto precisam para ir tocando a vida e, poder deleitar seu espírito, não mais que isso. Portanto, o preço se avaliado pelo material e pelo tempo de serviço é sempre, para um apreciador esclarecido, muito barato. Um Guarani pode levar dias fazendo um Tangua e, no entanto, vendê-lo pelo preço de um pacote de sal, se essa é a sua necessidade, mas também pode sair pelo preço de um telefone celular, se for a sua necessidade; mas se o comprador negociar pode conseguir até de graça, se disser que admira o objeto, mas que não tem dinheiro para pagá-lo, porém, que tem roupas ou, seja lá o que for que o índio também necessite, para oferecer em troca pelo Tangua.  E essa aquisição será partilhada com todos os membros de seu Tekowa, aldeia, para quem também possa servir.
As relações entre os Guarani não são balizadas pelo status social, pela situação econômica ou social do indivíduo; mas pelo Mborayu, o espírito que os une, e que nos une. Esse é um conceito fundamental para se compreender a diferença entre a concepção Guarani e a juru’a. Para se entender essa diferença e o estranhamento gerado entre as duas culturas que partilham este espaço do cone sul da América é necessário se fazer uma digressão no tempo e vermos alguns conceitos.
2. A gênese de um mal entendido
Apreciando esta questão com um olhar Guarani, aprendemos que Mborayu: “O Espírito que nos Une”, nos une por afinidades, nos fazendo um povo, e dentro desse povo, com os mais afins, nos torna uma parcialidade. Mas também nos une com os nossos dessemelhantes, nos trazendo contrastes e, assim possibilitando a expansão da nossa concepção de mundo.
 Por um lado temos os Kario ou Karijo que se autodenominam Ñandewa’ete, que se distinguem dos ñandewa e, dos mbya, dos kaiowa, dos xiripa, dos Awa Guarani e, assim por diante. Porém, somos todos humanos e, nos identificamos com toda essa família planetária, somos todos filhos e filhas de Ñandexy Ywy Retã, a Mãe Terra.
As diferenças geram contrastes dentro dessa imensa família humana e, isto é inegável. Essa diferença gera estranheza e, quando não estamos atentos a essa estranheza, nos permitindo flexibilizar conceitos, caímos nas armadilhas dos preconceitos.
Para se compreender essa armadilha e, portanto nos conscientizarmos de como nos tornamos prisioneiros no presente de, aywu marã, conceitos que nos causam mal-estar, apresento a seguir uma digressão sobre a gênese desse mal entendido.
“Por ocasião das primeiras expedições ao Rio da Prata, com a posterior fundação de Assunción até o momento em que é implantado o sistema de “encomienda”, no Paraguai, no ano de 1556, o espanhol que entra em contacto com os Guarani – e com outros indígenas da região – é alguém que está de passagem. Nesse primeiro momento o Guarani será visto e conceituado sob dois aspectos fundamentais: política e socialmente, como eventual aliado; economicamente, como possível fornecedor de alimentos.”  (MELIÁ, 1987, p. 20).
Essas primeiras notícias, embora tenham sido dadas por aventureiros que estavam de passagem, vão trazer informações sobre aspectos importantes do modo de ser do povo Guarani que os conhecimentos posteriores virão confirmar. Assim, a carta de Luis Ramirez, de 1528 diz:
“Aqui com nosotros está outra generación que son nuestros amigos, los cuales se llamam Guaranis por outro nombre Chandris: estós andan dellamados por esta tierra, y por otras muchas, como corsários a causa de ser enemigos de todas estotras naciones... son gente muy trahidora... estos señoream gran parte de la India y confinan con los que habitan la Sierra.  Estos traen mucho metal de oro e plata en muchas planchas y orejeras con que cortam la montaña para sembrar: estos comen  carne humana”. (RAMÍREZ, 1941, p.98).
Diego Garcia (1530), por sua parte, chama a atenção sobre os recursos alimenticios dos Guarani. “Habitan  el las islas otra generación que se llama los Guaranies; estos comen  carne humana..., tienen e matan mucho pescado e abatíes (milho), é siembran e cogen é calabazas”. (GARCIA, 1941, p. 47-52).
O mote desses relatos é:
“Estos comem carne humana”, esse estigma perdura ainda na mente de muitas pessoas pouco informadas, que acham que mesmo hoje em dia os índios são antropófagos, coisa que dessa maneira nunca foram.  Seria como hoje julgarmos todo europeu como cruel e sanguinário porque os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças praticavam crueldades estranhas; entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e parturientes e lhes abriam o ventre...” ( LAS CASAS, 2001, p. 34). 
Esse é apenas um detalhe dessa crueldade, infinitas outras aconteceram, de todas as maneiras possíveis, sempre com requinte de maldade e evidências de demência.
Mas se mesmo em extremo desespero e fome foi cometida a antropofagia, o estigma não deve perdurar, é possível que isso tenha acontecido em situações como a descrita por um sacerdote católico:
“A eles e a elas não lhes davam a comer (...) de tal sorte que o leite secava nos seios das mães e assim em pouco tempo morriam todas as criancinhas. E em virtude de estarem os maridos separados, não coabitando com as mulheres, a geração cessou entre eles; eles morriam nas minas de trabalho e de fome, e elas morriam do mesmo modo nos campos” (LAS CASAS, 2001, p.41).
O que nos vemos nesses relatos é o conflito entre uma cultura que praticava a reciprocidade e outra que praticava o intercâmbio. O Guarani recebeu bem o estrangeiro, dentro do seu conceito de reciprocidade, lhe forneceu viveres e abrigo; pelo estrangeiro foi julgado como alguém que estava desejando algum intercâmbio, ou aliança. Quando perceberam que não desejavam nada além do convívio, foram julgados como inofensivos e possíveis de serem escravizados, pois nada pediam em troca, e tudo de si doavam. Então lhe tomaram tudo, até a própria liberdade e a vida. Ou seja, a sociedade de intercâmbio maximizou o lucro ao extremo e a satisfação desmedida do interesse próprio. Essa diferença de conceitos é bem compreendida por Melia e Temple:
“La reciprocidad implica la preocupación por el outro y esto em vista a establecer valores tales como la paz, la confianza, la amistad, la comprensión mutua. El intercambio utiliza esos primeros valores que permitem salir de la violência. Restablece por outra parte la competición de lós intereses, la competência vital, las leyes de la naturaleza más bien a partir de la confianza, de la paz, de la comprención producidas por la reciprocidad. El intercambio es uma relación de interes que supone pues uma reciprocidad minimal, y es por eso por lo que se Le otorgan a veces los valores de la reciprocidad. Se comprende así que se la pueda confundir igualmente com uma forma de reciprocidad, uma forma de reciprocidad mínima, mientras que el puro don sería uma forma de reciprocidad máxima. Em realidad invierte el movimento de la reciprocidad, al menos de la reciprocidad de dones, pues em vez de mirar el bien del outro, busca la satisfación del interes próprio”. (MELLIÀ/TEMPLE, 2004, p.86).
Entre todos, jesuítas e não jesuítas – excetuando, claro, os mesmos Guarani – Segundo Meliá, Montoya é o melhor conhecedor da Cultura Guarani, acredito que do período missioneiro, sem dúvida isso é verdade, no dizer de Meliá:
“... é Antônio Ruiz de Montoya o melhor conhecedor da cultura Guarani, como fica patente em suas diversas obras. O Tesoro de la Lengua Guarani   contém a maior suma etnológica Guarani já coletada, uma lavra por enquanto muito insuficientemente explorada pelos próprios pesquisadores do Guarani. A partir das palavras “chave”, com suas conotações e associações, consegue-se levantar quadros sumamente ricos e bastante completos sobre os mais diversos aspectos da cultura Guarani, na sincronia do tempo dos primeiros contatos. A obra lingüística de Montoya, formalmente sincrônica, encontra sua dimensão diacrônica nas cartas e, sobretudo, na Conquista Espiritual, onde o índio Guarani, em contato com o mundo colonial, revela a própria identidade através de sua ação e reação. Montoya será assim um dos principais autores para a etno-história Guarani.” (MELIÀ, 1987, p. 27).
Antonio Ruiz de Montoya fez o primeiro verbete do termo Jopoi, reciprocidade, em sua obra “Arte Vocabulário Tesoro y Catecismo de La Lengua Guarani”, obra editada em 1639. Assim é apresentada essa obra na edição: “Conquysta espiritval hecha por los religiosos de La Compañia de Iesús, em las Provincias del Paraguay, Paraná, Vruguay, y Tape. Escrita por El Padre Antonio Rviz de La misma Compañia. Dirigida a Octavio Centvrión, Marques de Monasterio. Com privilegio. Em Madri. Em La imprenta Del Reyno. Año 1639. (4), 104 ff. In-4”.
Uma versão em Guarani, junto com a tradução portuguesa, apareceu sob o titulo de “Aba reta y caray eym baecue Tupã upe yñemboaguyje uca hague Pay de La Comp@ de IHS poromboeramo aracae P. Antonio Ruiz icaray eym bae mongetaypy hare oiquatia caray ñeen rupi ymã cara mbohe hae Pay ambuae ogueroba aba ñeen rupi. Año de 1773 pipe. S. Nicolas PE. Ad majorem Dei Gloriam” (Annaes da Bibliotheca Nacional, vol. VI, Rio de Janeiro 1879).
Montoya era tido pelos Guarani como Paje (xamã), porque fez as disciplinas espirituais, e recebeu nome Guarani, ele se chamava Guaracitã, ou seja Sol Resplandecente. E o próprio Montoya reconhecia que seu mestre de vida espiritual foi o índio Inácio Pires de Floretas, que lhe ensinou uma espécie de exercícios místicos. (cf. MELIÀ, 2009; p.72). E, em 1614 Montoya foi excomungado por ter feito coisas contra a lei divina e humana. (cf. Anais, 2009; p. 74). Montoya praticou Jopoi, a reciprocidade. De certa forma a doutrina cristã comporta esse conceito, mas para o estabelecido pelas encomiendas essa era uma questão fechada, e Montoya sofreu as consequências. Em suma o mal-entendido surge de uma falta de qualquer vontade de entendimento, pois, tratava-se de conceitos antagônicos com relação aos princípios norteadores da economia que colocavam em risco um sistema baseado no poder patriarcal, do senhor que se impõe pela força, defendendo seus interesses próprios em detrimento do coletivo e, de certa forma Montoya “contaminado” pelo convívio com os Guarani, entrou em choque com a sua sociedade de origem, mas não de opção. Mas de qualquer maneira esta é mais uma questão polêmica e difícil de ser compreendida na distância, pois envolve uma relação de paixão e de marcas recíprocas, cujas cicatrizes perduram ainda no presente.
3. Considerações finais
O discurso do conhecimento sobre a cultura Guarani sempre teve uma ansiedade em torná-lo contínuo, preenchendo suas lacunas com díspares conteúdos, e hoje se dá por contente achando que pôde representá-lo totalmente. Acredito que a cultura Guarani nunca foi apreendida plenamente, e que nunca será, exatamente pelas lacunas deixadas pelas destruições, que causaram a extinção de vários aspectos da cultura Guarani. Não podemos afirmar que o que hoje ela é, diz do que ela foi ou será, posto que hoje ela se recicla e busca reestruturar-se e auto-resgatar-se, dentro do que julga ser. Como nos diz outro trecho do canto, Mba’eã’ã: “...Ore ywara tyre’ym mbowy mbowy’i /rogueropyta’i wa’e/ nde ywypy poteri./ ywypo amboa’e’i kwerupe ame’em ramowe”. (BAPTISTA, 1996, p. 10). Ou seja: “... Nós, uns poucos e poucos órfãos de teu paraíso,/que ainda animamos uns aos outros, apesar disso,/ para ir vivendo em tua morada terrena./ Depois de aos forasteiros os ter vendido.” (idem, p. 11). É como dizer que nós vamos tentando juntar nossos cacos para tentar não deixar escorrer o conteúdo que nos comporta. Que não entendemos muito bem porque temos que fazer isso além de que se não o fizermos não sobreviveremos. Que nos esforçamos para fazer o que não nos causa esforço, mas prazer como cantar e dançar para Ñamandu: a natureza de todos os mundos, que através do mborayu, o espírito que nos une, em uma situação paradoxal. Mas, que inexoravelmente, é o caminho para Ywy’marã’heym, a Terra-sem-mal, porque não há outro caminho senão através dessa terra onde até o “u’ixim reko axy”, como é dito em outro trecho da canção (cf. ibidem), ou seja, até a “farinha de milho é imperfeita” (ibidem), porque não é de awaxy ete, o milho perfeito multicolorido, mas de milho hibrido ou transgênico, alimento que foi profanado, pois para o juru’a o milho não é sagrado; porém, não o podemos acusar pelos pesares que causa pois não sabe e não entende isso.
4. Referências
BAPTISTA, Josely Vianna. Neblina Vivificante. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1996.
GAMBA, Martínez. El Canto Resplandeciente – Ayvu Rendy Vera. Buenos Aires: Ediciones del Sol, 1984.
GARCIA, Diego. Documentos Históricos e Geográficos Relativos à La Conquista y Colonización Rio-platense. Buenos Aires: Casa Jacobo Peuser, 1941.
LAS CASAS, Bartolomé. O Paraíso Destruído. Porto Alegre: LPM, 2001.
MELLIÀ, Bartolomeu. O Guarani. Uma Bibliografia Etnológica. Santo Angelo: Fundames, 1987.
__________ . TEMPLE, D. El Don, La Venganza. Assunción: Centro de Estudos Paraguayos “Antonio Guasch”, 2004.
__________ . In Anais. Seminário Internacional: Indígenas, Missionários e Espanhóis. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 2009.

MONTOYA, Antônio Ruiz de. Tesoro de la Lengua Guarani. Madrid: Ed. Facsin, Lepizig, 1876.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

XONDARO: A DILIGÊNCIA DO GUERREIRO




          Nisto o xondaro, o guerreiro deve empenhar toda a diligência: que em todo lugar, ação ou ocupação exterior, esteja interiormente livre e senhor de si mesmo, dominando todas as coisas, a nenhuma sujeito.
          Cumpre que o guerreiro seja livre, que chegue à condição de liberdade dos filhos e filhas de Ñanderu Papa Tenonde e de Ñandexy Ete. Esses não se deixam atrair e prender pelas coisas temporais, mas servem-se delas conforme o fim para que foram ordenadas por Ñamandu, que nada deixa sem ordem.
          Para cumprir a ordem de Ñamandu, em qualquer acontecimento, o guerreiro entra no Opy, a casa de reza, consulta o Tata Porã, o fogo sagrado, fuma o petym, toma o ka’ayu, ouve a divina resposta e é instruído a respeito de muitas coisas presentes e futuras. Dessa mesma maneira, o guerreiro  se refugia no mais recôndito do seu coração, para, com mais instância, acender em si, o fogo do divino auxilio.
          Recordando que Ñamandu é: o escudo, a seta, a liberdade. E, que sem essa arma, o guerreiro é, apenas, pó.

domingo, 26 de agosto de 2012

RETÃ PORÃ: O ESPAÇO SAGRADO


       Awaju Poty omombeu:
          Todo tempo e todo espaço é sagrado quando consagramos nossas vidas. Porém, sempre há um lugar ou um tempo que é especialmente sagrado para cada um de nós. O meu espaço/tempo sagrado, por excelência, é o Tekowa, a minha aldeia; ou, qualquer outro Tekowa Ñandewa Guarani, ou seja, o território onde vivemos a nossa maneira de ser em plenitude. E, o coração do meu espaço sagrado é o Tata Portã do Opy, a casa de reza/meditação/dança; mas também o Ma’ety, lugar onde esta o desenho de plantio do Awaxy, o milho sagrado e as plantas sagradas.
          Porém nos últimos tempos tenho viajado muito, dando recitais de canto e harpa Guarani. E aprendi a criar o meu espaço sagrado em qualquer circunstância. Muitas vezes faço isso em um quarto de hotel.
          Em um quarto de hotel não posso acender um Tata Porã, fogo sagrado, então acendo um Tataendy, uma vela. Não posso acender o Petyngua, o cachimbo, então acendo um incenso. Sento em meu Apyka, meu Apyka é uma pele de cordeiro que me foi ofertada por meus irum, irmãos do Uruguai. Quando estou com a harpa, toco e canto; toco a harpa e canto baixinho para não incomodar os outros hóspedes; quando não estou com a harpa, toco o berimbau, monocórdio.
          Quando canto um Mborai, evoco o sagrado, então o tempo e o espaço se tornam para mim sagrado; mesmo no caso de ser um quarto de hotel ou um teatro. No caso do teatro, para muitas das pessoas que me assistem aquele é o momento de um recital, para mim, um Ara Porã, um momento sagrado.
          Há ocasiões em que não posso fazer nenhum ritual, nenhuma cerimônia e, nem cantar ou tocar, como por exemplo, dentro de um avião; nesse caso apenas respiro silenciosamente o nome evocativo de um Mboruwyxawete, espírito ou anjo, força telúrica, numinosa que me coloca em uma dimensão tempo/espacial sagrada.
          Assim, diria que espaço sagrado e, tempo sagrado é algo que desfruto com prazer infindo e que é tudo quanto necessito. Então, tudo e, qualquer lugar se torna sagrado; em última instância, quase tudo se torna um deleite continuo e crescente todo o tempo e em qualquer lugar. Isto foi o que aprendi nas circunstâncias em que Ñamandu, a “natureza de todos os mundos”, me colocou.

KORA: A LEI


          Em aty realizado no Tekowa Pu’Aka, na última lua cheia de verão do ano de 51.998, a mboejari Yxapy Rendy colocou para o Awaju a seguinte questão e fez o pedido de que ele fizesse uma exposição dos Kora. A questão:
          Por vezes penso que você acredita em vida após a morte e até mesmo em encarnação, e por outras, como no caso da resposta que você deu para o Angaturã sobre o “Ñemano”, penso que você não acredita na perenidade do espírito, ou, que não tem nenhuma afirmativa sobre o tema, afinal, como você pensa isso?
          A resposta do Awaju:
          - Xerayxy iporã, querida mãe de meus filhos, tudo sei e, nada sei, tudo posso e, nada posso, como na historia da “Arai”, são faces de uma mesma coisa. Sempre que estamos seguros de algo, é momento de autocrítica, porque normalmente estamos seguros tendo teto de vidro em véspera de amandau, de chuva de granizo.
          Esta nossa vida é única, e isso basta. Vivamos conscientes de que cada momento perdido esta perdido para sempre. Nunca mais haverá eu e você e, este momento e, este lugar.
          Agora, antes de abordar a segunda questão que você me propõe, que é a explanação sobre o decálogo, a Kora; queria voltar a um ponto que abordei na reposta ao Angaturã, no “Ñemano”. Porque muitos pensam que a consideração pelo Kora diz respeito a uma compensação futura, em outras vidas, e isso não se dá assim. A consideração ao Kora diz respeito a uma satisfação que provem do âmago de todo nosso ser e, tem relação com a índole de cada um; e isso sim. É determinante com relação a uma vida feliz ou infeliz, aqui e agora.
          No cumprimento do Kora, honro meus ancestrais, rejubilo minha gratidão pelo que tenho, principalmente pelo corpo que herdei; e, pelo que sou como ente humano, pela formação de meu espírito; que são: corpo e espírito, um só. E me congratulo com as futuras gerações, lhes deixando como herança uma vida dedicada ao que posso ser de melhor, para lhes deixar no que esta ao meu alcance, um mundo melhor. Então, cumprir a Kora, para mim, é liberdade e alegria, em um mundo que neste momento não esta respeitando os limites e pondo em risco a vida na “madre tierra”. Num mundo em que o desrespeito à vida tornou-se banalidade cotidiana, e de tão vulgar se tornou imperceptível para muitos que se dizem espiritualizados, ou humanizados. 
          Separar a vida espiritual da vida material, ou falar de iniciados e não iniciados, de eleitos e proscritos, é arbitrariedade e não encontra respaldo na Kora, nas leis da natureza de todos os mundos. Essa divisão normalmente gera grandes desvios do que é ete (verdadeiro e natural). Alguns que se julgam iniciados não passam de patetas, enquanto outros que nunca pretenderam serem espiritualistas ou iniciados como vulgarmente se diz, são levados pela escola da existência a grande realização e, maturidade de ser. Como canta o harpista, muitas das atitudes humanas são apenas “vaidades de vaidades sob o sol”(cf. Eclesiastes 2:11). E, os que mais apontam defeitos no semelhante, e dão conselhos que não são pedidos e, se julgam instrutores dos demais, os “sabe tudo”; são pessoas que mascaram suas carências e deficiências, buscando dessa maneira uma forma de serem notados, mesmo que sendo incômodos e indesejados. Bom, mas vamos ao pedido da exposição do Kora:
          Moxe reuniu nosso povo nas faldas de uma grande montanha, e ali, em torno do Tata Porã, o fogo sagrado, iniciou o aty, a sagrada cerimônia. Era o final da tarde, fim do dia. Tupã brilhava vermelho sobre o vale que descortinava no horizonte. Então Ñamandu se manifestou no fogo no cume da montanha, e chamou o Mboruwyxawete Moxe para junto de si. Nesse aty, face a face falou Emanu com nosso povo, no monte, do meio do fogo. O povo manteve-se nas faldas da montanha, apenas o Mboruwyxawete Moxe subiu ao cume, e Emanu gravou em duas tabuas de pedra a Kora que deu a Moxe (1), para o povo decorar e, não perder da memória. Tudo isso aconteceu em Orewe(2), a montanha onde da chama Ñamandu falou com nosso povo.   
          Observando as duas tabuas, constatamos que na primeira tabua estão quatro preceitos, que tratam de regular a nossa relação com Ñamandu. E, que na segunda tabua, estão os outros seis preceitos, que estabelecem parâmetros para a nossa relação com o próximo. Vou me deter em cada um deles, porém, darei inicio a esta exposição, começando pela segunda tabua.
          É muito oportuno que o primeiro dos preceitos da segunda tabua tenha a ver com a relação entre pais e filhos - 5º mandamento: “Honra teu pai e tua mãe”(3).
          Comentário:
          O povo Ñandewa é um povo de Mboruwyxawete (reis) e de Paje (sacerdotes), e nossos pais são os reis e rainhas, os sacerdotes e as sacerdotisas, de nossas famílias. Devemos cuidar de ser assim, para que tenhamos saúde e longevidade nesta vida e, harmonia e respeito em nossas Oka (casas).  
          O segundo dos preceitos da segunda tabua trata do respeito à vida: 6- “Não matarás”. (20:13)
          Comentário:
          Não matarás implica em não cometermos assassinato sobre nenhum ser vivente, em não cometermos deliberadamente nenhum crime contra a vida: seja contra o reino vegetal, animal ou mineral. Não podemos atentar contra a vida em nosso mundo, porque é contra a nossa vida que atentamos.
          O terceiro preceito da segunda tabua trata do mborayu: 7- “Não adulterarás”. (Êxodo 20:14).
          Comentário:
          O adultério, é em primeiro lugar uma falta a si mesmo; é falta a palavra empenhada, é um insulto a dignidade pessoal.
          O quarto preceito da segunda tabua, diz respeito ao que não nos pertence: 8- “Não furtarás”. (Êxodo 20:15).
          Comentário:
          Não furtarás através de lucro indevido, através de desvio do que não lhe pertence. Não furtarás a criação do próximo, seja ela material ou imaterial. Afinal, não tomarás nada do que não lhe pertença para que a sua alma não se furte; não furtaras o tempo do teu próximo sem lhe retribuir à altura.
          O quinto preceito da segunda tabua, diz respeito à falta com a verdade: 9- “Não
darás falso testemunho”. (20:16).
          Comentário:
          O que mente, mente para si. Então busque a verdade para que você não se torne um simulacro, um arremedo horrendo do que poderia ser belo. 
          Dizem que a mentira tem pernas curtas, porque cedo ou tarde é descoberta. E o primeiro que a descobre normalmente não é o mentiroso. O que dá falso testemunho colhe o fruto em sua própria vida e muitas vezes no fruto de sua vida.
           Temos que ser conseqüentes e ensinar com exemplo: se um pai mente, logo vera que seu filho o imitara.
          O sexto preceito da segunda tabua, o último mandamento de Ñamandu, diz respeito à inveja, ao mal olhado e, uma infinidade de males que assolam as relações humanas: 10- “Não cobiçarás os pertences de outrem”. (20:17).
          Comentário:
          A violação do último dos mandamentos é causa importante de uma quantidade enorme de males que afligem as relações humanas (Tiago 4:1, 2:1. Timóteo 6:10). É normal que possamos tomar pessoas como exemplo, é normal que desejemos progredir como fulano ou cicrano, esse não é o problema; o pecado esta em invejá-los.
          Agora veremos os preceitos da primeira tabua. O primeiro mandamento da Kora, diz respeito á nossa relação direta com Ñamandu: 1- “Não terás outros deuses diante de mim”. (20:3).
          Comentário:
          Todo desvio, tudo que nos separa da realidade, que se interpõe entre nós e Ñamandu, o centro irradiador de toda a vida, é Marã, fator de alienação, de dispersão de nosso foco vital. Os vícios, as manias, a perda de tempo em coisas nocivas ou frutos de mera vaidade ou desejo obsessivo, o engano e a maldade; afinal, qualquer coisa que se interponha entre nos e Ñanderu Papa Tenonde, nosso pai primeiro, último e verdadeiro, é um deus alheio a realidade, portanto, fonte de doença e insanidade.
          O segundo preceito da Kora, diz respeito à idolatria: 2- “Não farás para ti imagens para adorar”. (20:4-6).
          Comentário:
          A humanidade sempre teve uma tendência a fugir da realidade. E, hoje vive grande parte de sua vida, inserido, em um mundo de imagens virtuais. Seus objetos de desejo são automóveis, imóveis de luxo, atores, músicos, jogadores, ídolos cuja imagem é forjada pela mídia. Porém, o problema não esta em se ter um carro, uma casa confortável e bonita, nem em admirar bons atores, bons jogadores e, bons músicos; muito pelo contrário; o pecado esta em ter essas coisas como norteadoras da vida, como motivação para viver; esta em se deixar levar pelas imagens falsas que a mídia cria dessas pessoas e coisas.
          O terceiro preceito da Kora diz do tratar com vulgaridade o santo nome do doador da vida e da morte: 3- “Não tomarás o nome do ijara (senhor), ndee manu (teu Deus), em vão”.
          Comentário:
           Infinidades de pessoas desonram ao Ijara tomando repetidamente seu sagrado nome em conversações vulgares, usando linguagens indignas da espécie humana.
          Veremos agora um preceito que nos ajudará a evitar a desconexão com Ñamandu, com nossa família e com nossa tribo. Esse preceito nos pede que, sejam feitas todas as nossas tarefas, dentro dos seis primeiros dias da lua; e que o sétimo dediquemos para regozijarmos com Ñamandu, em família, com a tribo. Toda a família, todas as pessoas deveriam cooperar na preparação para começar bem o sétimo dia da lua, desde o por do sol do sexto dia.
          O quarto preceito da Kora, diz, para dedicar um dia de cada fase da lua, para rezar no Opy (casa de convergência da aldeia) e, para o descanso em Ñamandu: 4-“ Guarda o sétimo dia para o santificar”.
          Comentário:
          Hoje, o calendário civil é totalmente desvinculado da natureza, tornou-se absolutamente artificial, talvez refletindo a própria vida artificiosa do cidadão contemporâneo; não tem em consideração o ciclo lunar nem os solstícios e equinócios. É triste observarmos, por exemplo: o fato de no hemisfério sul, ser obedecido o calendário do hemisfério norte. O sul inicia o ano no período de contração da natureza, o transcurso se dá de maneira invertida; como um barqueiro que sobe a maré na vazante. Então tudo se torna mais difícil, na lida diária de cada cidadão. A maioria das pessoas não tem a mínima consciência desse fato.
          Há mesmo pessoas de boa fé que, desconhecendo as adulterações feitas por homens trevosos, ou seja, ignorantes da harmonia da natureza, guardam o sétimo dia civil, não se dando conta que essa é apenas uma formalidade. Ñamandu não pede formalidades, pede para que atinemos com a realidade.
          Todos deveriam cooperar na preparação para começar bem o sétimo dia, desde o por do sol do sexto dia. A fim de não estar preocupados pela atenção de coisas secundárias, devemos ter a casa, a roupa, os alimentos, a madeira para o Tata Porã, a erva para o Ka’ayu, o petyn para o fumo, os incensos, etc., desde o sexto dia, que é o dia de preparação (Lucas 23:54). O sétimo dia devemos passar em obras santas. Porém não esquecer que o sétimo dia é o sétimo dia da lua.
          Ver o grande mandamento em: Mateus 22:34-40.
          NOTAS: 
1.Ver Deuteronômio 9:10.
2.Orewe: Montanha onde a Kora foi dada a Moxe (Malaquias 4:4). O monte onde Ñamandu apareceu a Moxe em uma sarça de fogo (Êxodo 3.1). Onde Moxe feriu a rocha e dela emanou água (Êxodo 17:6-7). Monte onde nosso povo permaneceu por largo tempo (Deuteronômio 1:6). Onde Ñamandu admoestou o povo (Deuteronômio 4:10). Em Orewe o grande fogo (Deuteronômio 18:16). Montanha onde Ñamandu falava com os profetas (1Reis 19:8-9). Forma Juruá de escrita: Horebe.
3.Ver Êxodo 20:12.