quarta-feira, 21 de abril de 2010

AYWU PORÃ – A LÍNGUA SAGRADA

1 - PETEYM’NA AYWU PORÃ ATY’GUY (PRIMEIRA AULA DA LÍNGUA SAGRADA)

NÚMEROS – PAPA’NGA KWERE


 Em Guarani os números básicos vão de um (1) à cinco (5). O número um (1) indica a unidade do indivíduo e o número cinco (5) indica a unidade do todo. Então os números básicos do sistema Guarani são:

1- Peteym
2 - Mokoym
3 - Mboapy
4 - Irundy
5 – Peteym’po (uma mão)

Para a formação dos outros números temos de usar os termos:

MEME - dobra o número
RIRE - soma, adiciona

Exemplos:

6 – Peteym’po rire peteym
7 – peteym’po rire mokoym
8 – peteym’po rire mboapy (ou)
irundy meme
9 – peteym’po rire irundy (ou)
irundy meme rire peteym
10 – peteym’po meme (ou)
Mokoym’po
11 – peteym’po meme rire peteym
20 – mokoym'po meme (ou) mokoym’'po rire mokoym'py (dois pés)


Sufixo: NA ao final indica número ordinal

Exemplos:

1º Peteym’na
2º Mokoym’na
3º Mboapy’na
4 º Irundy’na
5º Peteym’po’na


VOCABULÁRIO:


Aty: cerimônia, reunião, celebração
Aywu: língua, fala, palavra, verbo
GuNegritoy: de (de algo ou alguém)
Kwere: indica plural. Ex. papa’nga, número; papa’nga kwere, números.
Meme: dobre
Mbo’ehara (mboea): professor, mestre.
Número: papa’nga
Numerar: papa
Numeroso: ndipapahári
Ñande Reko: Maneira de ser Guarani.
Porã: maravilhoso (a), sagrado (a)
Po: mão
Py: pé
Rire: some, adicione
Tekowa: Lugar onde se vive o Ñande Reko, normalmente a palavra é traduzida como “aldeia”.
Xiinguy (tinguy): grupamento Guarani da linhagem Kara (Karai, Karaiwe, Karaiwa, Karaiba, Karaita, Kari, Kario, Karijo).

2 – MOKOYM’NA AYWU PORÃ ATY’GUY (segunda aula da língua sagrada)


AMBEKETY - ABECEDÁRIO

C, F, Q, L, S - letras que não têm no abecedário da língua Guarani.
ambekety (abecedário)
ty - junção; ponto de coesão, como em mae'ty, como em aty.

A - é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til. Nos demais casos,
nas demais situações, tem som aberto. Ex: ka'a,(aberto); amba (primeiro “a” nasal,segundo “a”aberto)
Ã, ou Am - som nasal, ex :porã. Pode ser escrito também “poram”.
B - pronuncia "MB", como em mborai, mboru (recomenda-se escrever “MB”)
K - ex: Ka'ayu
D - pronuncia "ND" ex: nde'e (recomenda-se escrever “ND”)
E - é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til. Nos demais casos,
nas demais situações, tem som aberto.
~E, ou em – Re’em (e’em).
F - não tem
G - pronuncia "GUE", como em Gato ou "GÜE" como em Guata
H - som aspirado, como em Hot do inglês. Ha'ewete, Ha'ewei
I - é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til, como em xiin. Nos demais casos, nas demais situações, tem som aberto.
I~, ou Im – ex: mirim
J - pronuncia "DJ", como em Awaju, Juku’a; (recomenda-se escrever “J”), como no inglês John
L - não tem
M – normal, como em mitã, mongeta
N - normal, como em any
Ñ, ou nh - soa "NH" ou Ñ do espanhol como em Ñandewa, Añagawa (anhangava), ñemongeta, ñomongeta; pode-se escrever também Nhandewa ou Anhangawa.
O - é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til. Nos demais casos,
nas demais situações, tem som aberto.
Õ, ou om – Ex: ombopu.
P – normal, como em Petyngua.
Q - não tem
R - sempre com som brando, como em ara. Pronúncia semelhante ao Inglês
S - não tem
T – normal, como em tatu, ta’uwõ.
U – é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til, como em ywaum. Nos demais casos, nas demais situações, tem som aberto, como em pytu’u
~U, ou Um – Ex:pytum
V – não tem
X - pronuncia "TCH", como em Xeru.
Y - som gutural, é nasalizado antes de M e N, ou quando sinalizado com til, como em petyn. Nos demais casos, nas demais situações, tem som aberto, como em aty.
~Y, ou Ym - ymba
W - como em where (do inglês), wae'rã


VOCABULÁRIO:

Amba: lugar para onde devemos nos direcionar.
Any: não
Ara: tempo-espaço
Guata: caminhar, andar, percorrer.
Ha'ewete: agradecido
Ha'ewei: uma forma de louvar a divindade (Deus do limite, do que é possível).
Há’ewe: está bom, é bom
Há’ewe’rã: vai dar.
Juku’a: tosse, gripe.
Ka'a: folha, mata, bosque, floresta.
Ka'ayu: chimarrão, mate preparado
Mae'ty: mandala de plantio
Mborai: canto
Mitã: recém nascido
Mboru: constância
Mongeta: admoestar, aconselhar
Ñandewa: dos nossos
Nde'e: voce
Ñemongeta: Salmodiar, cantar monotonamente, canto-mântrico.
Ñomongeta: aconselharem-se
Ñepytum: Escurecer
Porã: sagrado, maravilhoso.
Petyngua: cachimbo sagrado
Pytu: fôlego
Pytu’u: Parar certa atividade
Pytum: Escuro, noite
Pytum’ana: Escuridão grossa
Pytum’are: Muito tarde da noite
Pytum’guyre: no escuro
Pytum’mbyte: meia-noite
Pytum’i: à noitinha
Re’em (e’em): doce
Ty: junção, ponto de coesão.
Xeru: meu pai
Petyn: fumo guarani
Tape: caminho, picada, Carrero.
Ta’uwõ (ta’uwon): profecia
Ymba (mymba): Animal doméstico
Ywaum: semente negra sagrada (sementinhas de fazer colar típico guarani).
Wae'rã: o que será, indica futuro

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ykarai: O Autorenascimento

1. Ritos de Passagem



Na tradição nativa Guarani Ñandewa (Ñande Reko), quatro são os ritos básicos de passagem que marcam os estágios etários da vida humana; mas muitos outros ritos de passagem reforçam estes ritos básicos. Os ritos etários ocorrem de treze em treze anos, mas eles reverberam em cada fase e em cada ciclo da lua, assim como em cada solstício ou equinócio.

As kunhã (mulheres) têm o reverberamento do seu rito de passagem em cada menstruação, cada menstruação é uma oportunidade de renovação e reciclamento; em todo mês, em cada menstruo, um novo momento pode acontecer; ela marca o mês, por isso essa denominação para o período da lua, pela sua importância. Então pela sua importância dedico o próximo parágrafo a este rito de passagem.
Para o povo Guarani Ñandewa, o “tempo da lua” (Jaxy’ara) é o tempo sagrado da mulher. Durante esse período ela deve liberar-se das energias antigas, que fazem parte de um tempo que passou, e preparar-se para a religação com a fertilidade da qual será portadora no próximo mês. Nosso povo sabe o quanto é importante para cada mulher se aprofundar em seu espaço sagrado durante esse momento de recolhimento, pois as mulheres são as portadoras da abundância e da fertilidade. As mulheres são as mães, elas dão o futuro do povo, trazem fertilidade às lavouras, abrigam os sonhos da nação em seu ventre. E nesse momento elas estão em seu período de renovação. Os povos antigos sabiam que esse era o momento sagrado da mulher, e o respeitavam como respeitavam cotidianamente as mulheres, pelo seu desígnio de portarem a vida.
Mas como disse no início deste tópico, os ritos de passagem referem-se, em geral à conscientização de nossas mudanças etárias, embora eles reverberem em todos os momentos de mudança. Também há o rito do nascimento e o da morte. As exceções a essa forma acontece nos ritos que se realizam em grupos especiais como os dos “moã’ija”, onde os membros são iniciados nos mistérios que conduzem a um nível mais elevado de consciência. Para entrar por essa porta é necessário ter merecido a confiança, haver demonstrado qualidades especiais e ter conquistado a boa vontade dos Kandire (guias espirituais especiais) ou, de um Mboruwyxawete, em passar adiante esse tipo de conhecimento.
Porém importante é salientar que a recusa ou ignorância da transição em um momento de mudança pode ser fatal. Digo isso porque na sociedade contemporânea está se ignorando esse aspecto da condição humana. Quando as pessoas chegam ao seu momento de mudança de paradigma e, não são auxiliadas e nem têm o esclarecimento de que estão sendo chamadas pela natureza para um salto qualitativo na sua maneira de existir, para um novo momento de perceber e viver a vida, é indício de que estamos diante de uma ausência de saber. O resultado da ignorância, da ausência de saber, é a doença e, não conseguir a resposta a uma doença traz a morte (mano), ou seja, a possibilidade de renascimento e mudança inexorável, pois vida é movimento. Então, sempre que estamos diante de uma doença, estamos diante da esfinge que nos diz: “decifra-me ou devoro-te”. A doença indica que estamos estancados, ou seja, que estamos impedindo o fluxo de uma força poderosa de vida e, deixá-la fluir nos conduz a um novo momento de ser.
Os ritos de passagem e a intervenção de um homem ou de uma mulher de sabedoria auxiliam os Wa’erã, os que estão iniciando sua jornada, para que seu trajeto nesta vida possa ser em alegria. Mas, hoje, neste momento de ausência de muitos conhecimentos, normalmente a mudança ocorre mediante a dor (a doença), e muitas vezes o enigma não é desvendado, muitas vezes tenta-se eliminá-lo, mas ele é persistente e retorna em sua missão, em suas muitas faces; pois ele pede para ser compreendido e, tão logo for compreendida a sua missão, o novo momento de vida que porta, nos deixa.


2. NHEEM: O PRINCIPIO BÁSICO




O principal rito de passagem Guarani é o Ykarai, o Ykarai é uma cerimônia de autorenascimento. Após nascer do ventre de nossa mãe, que é nosso nascimento como indivíduo da espécie humana, espécie terrena, homens (awa) e mulheres (kunhã); devemos renascer do ventre de nossa mãe terra (Ñandexy Ywy retã) que é o nosso nascimento para o coletivo, para o cósmico, espécie celestial, espíritos (nheem). Porém, se esse renascimento for apenas formal e não for também real, verdadeiro (ete), ele não se efetiva de fato, de verdade.
Para não haver falta de clareza léxica, é importante dizer que traduzi a palavra Guarani “Ykarai” pela palavra autorenascimento, por ser o léxico com o sentido mais próximo que pude encontrar, para esse termo, na língua hoje falada em Pindo retama (Brasil); mas não podemos deixar de ter em conta que Ykarai também pode significar: autoconscientização, autocriação, autotransformação, autoeducação, autolibertação, autorealização e, autocontrole, individual e coletivo, da vida.
Devemos também considerar, para a compreensão e a aplicação da força numinosa do Ykarai, dois aspectos que são interligados, pois, à parte o Ykarai ser uma cerimônia de desvelamento do nome-alma (rery), ele tem também uma função determinante que é a de dar sentido para a vida do renascente, pois sem ter esse sentido, esse rumo, essa rédea da vida nas mãos, o individuo estará perdido, não chegando a lugar algum. Portanto, o autorenascimento é muito necessário, principalmente para aqueles que largaram as rédeas, que perderam o rumo, o sentido da vida, que perderam a segurança, a liberdade, a independência; e que estão sem criatividade, sem esperança; que vivem em meio a dificuldades imensas, impossibilitados para a realização do autocontrole da sua existência.
O Ñande Reko, a sabedoria ancestral do povo Ñandewa Guarani, nos ensina sobre Ñamandu, a natureza de todos os mundos, ou seja, sobre a ordem e a beleza do Universo. Neste texto, como experiente timoneiro do Ñande Reko (tuja), ensino aos jovens de espírito a pilotar a sua existência. Em suma, ensino a se ter autocontrole sobre a mente, pois nela estão os comandos dessa nave sofisticadíssima que é o nosso ser, veiculo que nos conduz nessa jornada (guata porã), nesse trajeto (guata’gua) até nosso destino.
Inicio este nosso aprendizado sobre o autocontrole da mente, que é o aprendizado sobre o comando da nossa nave-vida, dizendo que como dois vetores que bifurcam, se nos apresentam dois tipos de autocontrole mental, e que entre tantos são: o parcial e o total, o provisório e o definitivo, o momentâneo e o constante, o paliativo e o efetivo, o desistente e o persistente, o superficial e o profundo, o descendente e o ascendente; e que da focalização básica que damos a esses dois vetores depende a nossa existência. Do discernimento que temos do que é principal e do que é complementar para a nossa existência depende a direção que damos para nossa vida; o desconhecimento deste princípio básico nos coloca em rota de colisão com o universo. O Ykarai é o rito que acessa essa consciência.

3. KARU: O COMBUSTÍVEL



A nossa nave-ser tem seu comando na mente e, para acioná-la não é necessário nenhum equipamento grosseiro, ela é acionada pelo verbo, pela palavra (aywu) e, dado o comando, o equipamento entra em operação. Essa é a questão fundamental: ter cuidado com o comando que damos, ter cuidado com a palavra-pensamento e com a palavra exteriorizada, ela aciona o nosso equipamento mente. Por outro lado, para se ter autocontrole mental devemos antes adquirir autocontrole sobre o pensamento-palavra e sobre a palavra dita, ou seja, sobre o verbo (aywu).
Então vamos a esse segundo aprendizado: o do abastecimento do comando. O combustível de nosso ser é Karu, o alimento; nós somos abastecidos de Karu, palavra Guarani que significa alimento; porém a palavra Guarani que significa alimentar-se não existe, existe a palavra “Jau”, que significa, absorver alimento. Porque essa diferenciação? Respondendo: Porque a nossa nave-ser é feita do que absorvemos.
Para acionar o comando da nossa nave-ser precisamos de palavras, palavras que precisamos aprender e acondicionar em nossa memória, palavras que absorvemos. Não podemos desconsiderar esse aspecto maravilhoso da forma-função (rete) humana, nosso próprio corpo é fruto de uma memória genética operacionalizada. Karu é absorvido pela nossa memória através do que ouvimos, do que vemos, do que tocamos, do que degustamos; por isso precisamos ter muito critério, devemos usar nosso arbítrio para escolher boas coisas para absorver, porque elas passarão a fazer parte de nosso ser.
Com relação ao nosso corpo, como ele é um empréstimo deste retã, deste planeta, mãe terra; os elementos que absorvemos dela um dia serão devolvidos; eles fazem parte do nosso espírito somente enquanto durar esta vida, porém eles revestem a nossa memória genética, e deles depende a qualidade da materialização de nosso espírito nesta vida, neste planeta e, a qualidade de nossa vida em muito é determinada pelas escolhas que fazemos dos alimentos sólidos, líquidos, aéreos e ígneos que utilizamos.
Aprendemos então que mesmo o sistema de comando precisa ser alimentado, precisa desse combustível sutil que é a palavra e que para cada função da nossa nave precisamos de um combustível especial. Para alguns pode parecer tarefa fácil alimentar-se, porém, no mundo de hoje, isso não é tão simples assim, devido a um desvio acontecido na percepção do que é principal (aru) e do que é complementar (axy) para a vida.
Estamos vivendo um momento bastante complexo, pois está acontecendo que, paralela e proporcionalmente ao progresso tecnológico, está havendo a destruição da tranqüilidade, da paz, da liberdade, da humanidade, da solidariedade, da fé, da fraternidade, da moralidade, da fidelidade, da justiça, da consciência, da segurança, da resistência, da alegria de viver e ainda, ao mesmo tempo, estamos criando um relacionamento humano de hipocrisia, de espionagem mútua, de aproveitamento momentâneo, de saque, de concorrência, de fuga, de escape mútuo à responsabilidade, de afastamento, de indiferença, de isolamento egocêntrico, de indolência e de degeneração geral.
O caminho existente que oferece a possibilidade certa do auto-aperfeiçoamento é a obediência à ordem da natureza (Kora). A decadência, a degeneração, ou qualquer outra forma destrutiva, é o resultado da ausência de conhecimento da ordem da natureza, do esquecimento, do afastamento, do engano, do saque, da destruição, da ignorância, da fuga, da indiferença, do desrespeito e da ingratidão para com a natureza. Enfim, ninguém poderá desobedecer à ordem proporcional entre o principal, a parte celestial, cósmica, e a complementar, a parte terrestre, se quiser aperfeiçoar sua vida, a qual nunca poderá ser repetida. Quem quiser aproveitar essa possibilidade, para realizar a combustão completa da capacidade própria, terá que obedecer, inevitavelmente à ordem da natureza.
Porém, não podemos nos enganar: somente com o preenchimento da memória, até a estafa intelectual de conhecimentos limitados, ou estudos excessivamente detalhados, sem utilidade prática e criativa, não haverá nenhum aproveitamento satisfatório do combustível espiritual (Nheem’karu). Portanto, não precisamos mais encher, cobiçosamente, nossas cabeças com conhecimentos e informações fragmentadas.
Quem obedece à ordem principal (aru) e complementar (axy) desenvolve. Mas, cada um precisa descobrir a falta de ordem proporcional em sua própria vida. Sempre há uma parte em desequilíbrio. A decisão, com referência ao que é principal ou complementar, depende do sexo, da idade, da constituição, da atividade, do trabalho, do tempo, do lugar, da percepção da vida, etc.. Portanto, antes de qualquer coisa, precisamos definir e determinar a proporção principal e complementar de qualquer assunto que se tenha que enfrentar.
Entretanto, existe a ordem progressiva do movimento, da mudança ou inversão entre o principal e o complementar, paralelamente com a passagem da idade, no desenvolvimento do ser humano. O homem (awa) e a mulher (kunhã) atingem a sua maturidade aos 52 anos. A primeira metade do desenvolvimento da vida humana, desde o nascimento até os 26 anos, dentro da estrutura, da função e da proporcionalidade do desenvolvimento, que é mais físico, é controlada pela alimentação (jau) estomacal (intestinal). Nessa idade, a alimentação física é a principal, e a alimentação espiritual é complementar. Na segunda metade do desenvolvimento da maturidade humana, dos 26 aos 52, a realização é principalmente espiritual. É uma mudança aru/axy. Aos 26 anos deverá estar terminada a fase da construção física, dando início assim à construção espiritual da personalidade, concentrando e direcionando a vida para a frutificação.
Karu, o combustível da vida em todos os mundos; e Jau, a sua absorção, pedem que tenhamos juízo, arbítrio, pois errando nesse inicio, no abastecimento dos dados, continuaremos errando e cada vez nos desequilibrando mais, até que surja uma oportunidade de conscientização do desequilíbrio e assim possamos nos corrigir. A cerimônia de Ñemongarahei, da floração e da renovação do(s) propósito(s) sempre nos oferece uma oportunidade de equalização ou de reafirmação do nosso destino cósmico (guata’gua), é uma cerimônia de avaliação do nosso desempenho na jornada, de celebração de nossas vitórias e momentos de contar os golpes sofridos e as perdas. O Ñemongarahei é o momento de reavaliação do Ykarai, de renová-lo, de reafirmá-lo ou, de redirecioná-lo. No Ñemongarahei realimentamos a consciência de sermos divinamente humanos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

 

 

 

O MEIO RELIGIOSO BRASILEIRO

 

 

Awaju Poty

 

 

 

 

 

 

       O meio religioso brasileiro – sobretudo popular, mas não exclusivamente – vive e continua vivendo num certo clima "espiritualista" que parece partilhado e modulado por várias "mentalidades" segmentarias. Segundo uma representação onde não somente existe lugar para um Deus, mas para um cem numero de entidades, que é bem mais numeroso que uma mera trindade.  O ser humano está envolvido num universo povoado de forças, espíritos e influências que mantêm relações com as pessoas. Parece haver sempre um diálogo entre esses "outros" e a própria pessoa, que se constrói precisamente no processamento desta relação ... Orixás para alguns, mortos, santos ou entidades para outros; Nossas Senhoras que aparecem e vêm conviver com os homens; anjos, espíritos, forças cósmicas, demônios, ou tudo isso ao mesmo tempo; enfim, Espírito Santo para pentecostais e carismáticos.

          Uma  pluralidade sistemática marca a sociogênese do Brasil, logo traduzida em permeabilidade e contaminações mútuas. Nem multiculturalismo de simples justaposição, nem confusão  e  supressão das diferenças. Basta lembrar, desde o início, os movimentos compósitos das "santidades" indígenas, que nasceram basicamente no grupo social dos mamelucos, mas que logo envolveram lideranças indígenas, colonos lusitanos e "negros da Guiné", depois, as tradições africanas, profundamente sincretizadas antes mesmo de chegarem ao Brasil, e introduzidas aqui no caldeirão de uma matriz viva, historicamente ativa e, ao menos quanto à vivência "popular", processadora das diferenças: o  catolicismo. Nem África pura, nem reprodução do catolicismo europeu, nem  continuidade intocada das religiões "nativas". Mas tampouco homogeneidade de uma identidade nova porque, simplesmente  indiferenciada, do ponto de vista religioso ou do ponto de vista cultural.

          Trata-se da memória de um início. Recriação de uma sócio-gênese, na medida de que o real acontecimento perdeu-se nas esquinas do tempo. Evidentemente que o início de um fato social não determina sua história, mas contribui para montar, no interior do sistema sociocultural e psicossocial que caracteriza seus atores, um habitus que, por sua vez, tende a marcar a "longa duração" de sua presença.

          Parece inaugurar-se assim, em meio a estruturas de terrível dominação, confirmando-as e ao mesmo tempo modulando-as, um grande laboratório de mestiçagem cultural, de sincretismo. Mas já que disse se tratar de um habitus ancorado na sóciogênese da nossa  Pátria Mater , talvez seja enriquecedor evocar também alguns dos primeiros ocupantes do que será  o Brasil – os índios, o povo que já vivia aqui -  em sua antropofagia  ritual.

           Ora, o que alguns dos recentes estudos sobre os tupinambás põem em relevo é um processo específico de criação de identidade que bem poderia embasar analogicamente – em "tempo longo" – o habitus cuja existência  enraíza-se no futuro (e não num passado tópico), e projetado não na ansiedade de uma identidade acabada, mas na realização sempre renovada da relação antropofágica do sujeito com o outro. Um povo do "futuro", não definido pela inscrição topológica, ao contrário marcado de ânsia congênita de espaço, em busca da "Terra Sem Mal". Uma estruturação social leve, quase  inexistente, mas um princípio estruturante quase único: a vingança que se traduz pela antropofagia. É este princípio que retoma sem cessar o fio de uma história de reciprocidade constantemente reconstruída. Ao mesmo tempo, a vingança é a procura de definição da identidade. A minha e a do outro que entra em mim. Uma identidade de memória e de nome, inteiramente relativa: eu sou, precisamente porque passei a ser um eu conferido por aquele que matei e comi. Entrou em mim, também sou ele.

          Seria então possível pensar este tupinambá como importante matriz cultural do brasileiro, fundido e desaparecido nas sedimentações da cultura nacional, mas até hoje – e por meio de complexas mediações históricas que não devem ser esquecidas – presentes nelas.

          Nessa perspectiva, o fenômeno do transe ou da possessão ( "Eu é um outro") não representa senão  a forma mais evidente de um processo quase onipresente de complexificação e polissedimentação da personalidade.  A verdadeira identidade é dada, ou plenificada, pela irrupção em si do "outro", ou sua assunção a si mesmo. Mundo encantado ou assombrado, em todo caso plural, até no interior dos seus  átomos individuais.

          Já na proto-história brasileira, os tupinambás não caracterizavam sozinhos seu espaço social. A seu lado e frente a eles estavam os Jês, com um self coletivo muito mais forte, topicamente enraizado e articulado em organizações sociais muito mais estruturadas. Depois, junto com o povinho português das caravelas, vieram os jesuítas, depois a inquisição, mais tarde Pombal e o iluminismo, e mais tarde ainda as transformações modernizastes da sociedade brasileira (e do campo religioso no Brasil) através das imigrações, e logo vieram as universidades , no campo religioso aparece a primeira  onda pentecostal, movimentos como os Cursilhos de Cristandade, a Teologia da Libertação; todas tentativas de introduzir ou fazer vencer no Brasil, tanto nas elites quanto nas camadas populares, a modernidade Kantiana do sujeito racional, identitariamente autodefinido e autônomo.

          Esta modernidade Kantiana se mostra exatamente oposta a certa "tradição  brasileira de identidades permeáveis e múltiplas; verdades simbólicas e ambivalências  éticas.  Nesse sentido, talvez o "pentecostalismo clássico" tenha representado a primeira vez em que, ao menos em nível popular, um movimento social brasileiro conseguiu "levar a massa" através de adesão de cunho  "pessoal", feita de ruptura com um status quo anterior, frequentemente ambivalente entre magia e religião; conforme o princípio radical do protestantismo, é pela opção de fé de cada um (a entrega pessoal) em  Jesus – e não pela mediação da Instituição, segundo a fórmula católica ("creio na igreja") – que cada fiel é salvo, muda seu destino e, com ele, muda o mundo.  Sem dúvida, "modernidade". E "cabeça de ponte", às vezes agressiva, de toda uma corrente "anti-sincrética" que hoje atravessa por inteiro o campo religioso brasileiro, atingindo em cheio o candomblé e, paradoxalmente, até mesmo a umbanda e o Santo Daime.

          A partir da simples análise das cosmo-visões institucionalizadas e dos  sistemas simbólicos que presidiram aos primeiros momentos da implantação pentecostal no Brasil, e na lógica destes sistemas , quem poderia ter previsto o surgimento de uma outra onda pentecostal (a chamada neo-pentecostal), cujo significado  é possível de se interpretar como de uma progressiva assimilação "antropofágica" dos princípios da reforma (ou do pentecostalismo clássico) pelo habitus brasileiro de identidades permeáveis e de familiaridade com um universo encantado (ou assombrado) que – para o bem ou para o mal – serve, até ritualmente, de mediador?

          Às vezes, ao contrário, são aproximações e paralelismos estranhos que acabam se revelando. Uma visão compartilhada: as mesmas entidades são adorcizadas por umas e exorcizadas por outras. Por isso pode ser curioso descobrir entre elas outro terreno comum, num domínio teológico mais inesperado, a "Teologia da Prosperidade", afinal , não é a realização dos desejos e a prosperidade o objetivo também dos despachos?

          Essa idéia de prosperidade gerada por forças mágicas ou da oração ou ainda pela ação do Espírito Santo, traz à baila a metáfora do "mercado religioso", que muitas vezes serve para descrever esta situação da religião nas sociedades contemporâneas, ainda parece por demais definidora para o contexto brasileiro. Num mercado, o consumidor compra os produtos prontos e acabados que as empresas lhe propõem: aqui, neste mercado aberto dos produtos simbólicos, o homem contemporâneo tende a adquirir elementos das várias sínteses que lhe oferecem, para ele compor seu próprio universo de significação. Um universo, aliás, no mais das vezes não definitivamente articulado, em constante refazer e de acabamento sempre protelado.                

          Talvez "uma radicalidade duradoura e constantemente reinventada teria assim dotado o Brasil de um habitus (história feita estrutura) de porosidade das identidades e de ambivalência dos valores, de uma tendência sempre  frustrada  mas permanentemente retomada, em direção à conjugação do múltiplo  numa unidade nunca atingida. Com a condição de situa-la claramente em seu nível estrutural, de não confundi-la com fáceis convergências e de explicitar a diversidade das versões que, em lugar e momentos diferentes, ela apresenta, talvez continue sendo epistemologicamente produtivo chamar esta porosidade de sincretismo"(SANCHIS, 2001, p.45) .

          A outra possibilidade , talvez , fosse a de  chama-la de  encarnação de um espírito, de um outro que não sou eu, ou que sou eu  divinizado, que sou eu no todo, em Deus: A antropofagia como Teofagia.

          Wolfhart Pannenberg, afirma:"É  provável que a tentativa mais antiga de exprimir a presença de Deus em Jesus tenha sido caracterizado pelo conceito do Espírito Santo" (PANNENBERG, 1968, p.116). Ele acrescenta: "No início o conceito 'Filho de Deus' não veiculava a idéia de uma participação na essência divina. Foi somente no âmbito do cristianismo gentio que se compreendeu a Filiação Divina fisicamente como participação na essência divina. Em contrapartida, na esfera judaica, e também na esfera judeu-helenística, a expressão "Filho de Deus' conservava ainda o antigo significado de adoção e de presença de Deus através de seu Espírito, significado que foi aplicado a Jesus por um longo período"(idem,117) .

          John Hick, apoiando-se em Ireneu e em Geoffrey Lampe nos propõe a concepção da criação gradual dos seres humanos através da atuação do espírito de Deus nos seus âmagos. Vejamos a sua proposição: "Usando a concepção de alguns dos Padres da Igreja cuja língua era o grego – como p. ex. Ireneu – concepção esta que prega a criação gradual dos seres humanos, por meio de sua própria liberdade e a partir de um estágio inicial de maturidade, rumo à semelhança finita de Deus (em contraste com a descrição agostiniana da queda da humanidade desde um estado de justiça original), Lampe declara que  'o Espírito  transforma o homem naquilo que ele não era, entretanto, esta transformação é continua com a  criação, ela é o acabamento da criação'. Segundo esta concepção, o Espírito de  Deus sempre foi ativo no interior do espírito humano, inspirando homens e mulheres a abrir-se livremente à presença divina e a responder em  suas vidas ao propósito divino . Esta atividade criativa continua significa que 'Deus sempre se encarnou em suas criaturas humanas, formando seu espírito a partir de dentro e revelando-se em e através delas'. Por isso, é mister  'falar deste todo continuo como  de uma única  atividade criadora e salvífica de  Deus  Espírito na relação com o espírito humano  e dentro dele, e de sua presença na pessoa de Jesus como de um momento particular dentro dessa criatividade continua'. A  razão para tanto é que uma união da divindade pessoal com a personalidade humana somente pode consistir numa forma aperfeiçoada de inspiração"(conf.  HICK,2000,p.149).

          Mas, por que estou dizendo essas coisas? Certamente não é porque acredito que a antropofagia está na base de todo pensamento teológico ou religioso e muito menos porque acredito que ela esteja no fundamento ou na estrutura do próprio cristianismo ou da própria religiosidade do homem e da mulher como espécie e gênero. Coloquei estas possibilidades para apresentar outra ao seu lado. Isso tudo simplesmente, porque o pensamento metafísico com sua importância histórica relaciona-se insistentemente com a teologia e com a religião e porque por detrás das experiências filosóficas e religiosas o pensamento ronda silencioso e irrompe quando pode por meio da linguagem.  Mas a linguagem não existe sem o corpo, e a linguagem é sempre a linguagem do corpo. Embora a religião do colonizador tente negar o corpo, cobrindo o corpo das santidades indígenas e queimando o corpo nu nas fogueiras da inquisição, buscando destituir essa linguagem encarnada em sua própria essência, ela ainda paira sobre e dentro de nossas cabeças.

          Mas, o meio religioso onde estes eventos transcorrem é moderno e moderno é o pensamento que norteia a teologia, mesmo as impropriamente chamadas de "pós-modernas", teologias que serão bem-vindas em diversas igrejas e academias. Pois essas igrejas e academias também são modernas. E têm medo de pensar de uma forma que não se circunscreva aos métodos estabelecidos pela filosofia tradicional nem pela lógica formal.

          No ensaio , "Para que Servem os Poetas",Heidgger parece um profeta dedicado a lamentar a morte dos deuses. Na verdade, está comentando versos do poeta Hölderlin. O poeta considera o nosso tempo "destituído" porque Heráclito, Dionísio e Cristo morreram marcando o fim do dia dos deuses. Segundo Hölderlin os poetas são os sumo-sacerdotes que percorrem com o vinho divino as terras nessa noite santa. São eles os que sentem os traços dos deuses fugitivos e "permanecem nesses traços"( cf HEIDGGER, l975, p. 91 a 142)   

          A igreja, o dogma, o catecismo bem como Hegel sempre desejaram eliminar as diferenças acreditando que o modelo da unidade era idêntico ao do reino de Deus. O Deus Trino cristão é confessado como Uno . A linguagem torna-se paradoxal para que o princípio da unidade seja assegurado: Creio em um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo". A síntese final tornou-se sinônimo de "espírito absoluto". Esse desejo pervade a modernidade .  As diferenças entre homem e mulher são superadas  na máxima sacramental do casamento "se tornam uma só carne". É provável que o mal-estar sentido pela modernidade em face da pós-modernidade se reduza, em última análise, a ameaça do esfacelamento das unidades e da fragmentação dos sistemas e instituições. E, exatamente por isso, na permanência da modernidade na contemporaneidade, ela busca reforçar o empenho pela unidade, e pela permanência dos sistemas e instituições.

          Nesse sentido o alerta de Derrida é bastante importante, ele nos diz que:"a linguagem, o sentido, a tradição e a verdade não caem do céu, mas, são feitos  capacitados e descapacitados pelo arqui-sistema dos traços nos quais se inscrevem" (DERRIDA, 1989, p. 262 e 263). Caputo nos adverte de que a ilusão da verdade, ou a sua afirmação, sempre esteve e está ligada à violência, "excluindo o que contamina o sistema da verdade, reprimindo o que perturba a sua unidade, tentando embaraçar os que perturbam os guardiões da verdade com suas incômodas perguntas" (DERRIDA, 1989, p.264). 

          Talvez estejamos no tempo da destituição, como pensava  Hölderlin, e nesse tempo a melhor coisa para fazer é nada fazer, e aproveitar para devorar um deus aqui e outro lá em forma de hóstia,  em algumas igrejas brasileiras você pode fazer isso ouvindo musica gospel, rock ou forró (boa música só quando uma igreja é utilizada como teatro), mas o meio religioso brasileiro não é só isso, é muito mais e certamente a própria antropofagia  (se é que ela existiu e que não foi uma criação do povinho jesuíta para justificar uma evangelização dos gentios) carece ainda de estudo e de confirmações. Mas sem dúvida este é um pequeno recorte, uma fatia desse bolo mal dividido e difícil de digerir (pela complexidade dos ingredientes e pela diversidade das texturas) embora irresistível ao paladar, como os manjares do Brasil.

          Tudo isso pode parecer bizarro para o estrangeiro, ou para um alienígena ou para o estranho em sua terra, mas não para quem vive nela. Para o brasileiro tudo isso é o reflexo de uma grande dor, a dor de quem paira sobre o abismo, sem terra, sem teto, violentado e roubado em seus sonhos.

          Então, temos hoje o brasileiro tentando se agarrar em qualquer esperança, em qualquer manto sagrado; mas não há esperança, os deuses estão mortos, não há manto, tudo lhe está sendo retirado; em um pais moderno não há lugar para o arcaico (o sagrado-mágico). E o que resta? Há lugar para alguma coisa?

         

 

 

 

 

 

 

Algumas tendências se evidenciam, vou dizer de duas que há: Há os que reprimem seus instintos e o seu desespero e ficam psiquicamente comprometidos (doentes da alma) e há os que expressam as suas verdades contaminadas pelos seus instintos e sentimentos e ficam socialmente comprometidos (doença psicossocial)

          Por isso tudo, o individuo não tem saída senão no outro, no que está na novela ou no campo de futebol ou ainda em qualquer outro lugar que seja e que não seja o seu. Porque o nosso cotidiano é insustentável: vivemos o insustentável peso de ser o país de Macunaíma, de Vidas Secas, Angústia, do Cabra Marcado Para Morrer. E nossos arautos choram essa dor:"E eu que não creio, pesso a Deus por minha gente, é gente humilde, que vontade de chorar" (Herivelto). E pedem clemência, enquanto os fariseus de plantão são às vezes pegos em aviões com mala de dinheiro e choram lágrimas de crocodilo.

          Mas, mais terrível ainda são os que esperam que o cacique volte depois que o mundo explodir, trazendo a vingança final, e que com os que se intitulam eleitos se regozige sobre a carnificina. Cacique que foi devorado e vomitado pela morte e que voltará para se vingar. Desejo de vingança latente.

          Somos os descendentes dos mamelucos, dos negros de Guiné, dos colonos lusitanos que compuseram os movimentos das "santidades" indígenas. Somos os herdeiros de um habitus cuja memória perdeu a lembrança do real acontecimento, cuja verdade perdeu-se nas esquinas do tempo, mas, cujo habitus persiste como uma sina – em "tempo longo" – porque enraíza-se no futuro (e não no passado tópico), em ywy'marã'hey (a terra sem mal) onde nada  é síntese (porque lá não há lugar para Kant) e o  Reino dos Deuses são refletidos em uma infinidade de espelhos d'agua, sem nunca atingir a unidade, ao contrário, sendo feliz nesse momento em que o Deus uno cristão é expresso no mínimo como trino, onde a unidade foi rompida e as instituições esfaceladas.

          A vingança é a fôrça que mantem o vigor da permanente retomada, uma tendência renovada em direção à conjugação do múltiplo numa unidade nunca atingida e nem desejada pois sequer é sentida ou intuída, na medida que  o desejo e o sentimento não podem ser expressos no cotidiano, apenas em tempo e lugar determinado dentro das folias, e assim a folia é ritualizada, se tornando o nosso maior culto, paganismo exaltado,corpo mitificado, rendendo graças a todos os deuses na antropofagia do carnaval, onde vale a carne, antes da abstinência da quaresma e do cotidiano destituído de significados.    

          

 

 

BIBLIOGRAFIA

awajupoty.blogspot.com

BASTIDE, R. Il Sacro Selvaggio e Altri  Scritti. Milano: Jaca Book, 1979.

DERRIDA, J. Dialogue and Deconstruction. New York: New York State University Press, 1989.

GASPAR, E.D.(org.)  Guia de Religiões Populares do Brasil, Rezas, Símbolos, Santos, Deuses Afro-brasileiros, ciganos, Historias. Rio de Janeiro: Palas, 2002.

HAIDGGER,M.  Poetry, Language, Thought. New York: Harper and Row, 1975.

HICK, J.  A Metáfora do Deus Encarnado. Petrópolis: Ed. Vozes, 2000.

HOLLENWEGER, W.j. Pentecostalism: Origins and Developments. Massachussets: Hendricksons Publishers, 1997. (tradução não editada do professor Carlos Tadeu Siepiersk).

MAGALHÃES, Antônio.  Deus no Espelho das Palavras, Teologia e literatura em Diálogo. São Paulo: Paulinas, 2000.

PANNENBERG, W.  Jesus: God and Man. Londres: S.C.M. Press, 1968.

SANCHIS, P.  Fiéis e Cidadãos. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2001.

SEGUNDO,J.L.  O Inferno Como Absoluto –menos, Um Diálogo Com Karl Rahner. São Paulo: Paulinas,  1998.

SIEPIERSKI, C.T. O Sagrado Num Mundo em Transformação. São Paulo: Ed. ABHR, 2003.

SOARES, M.L. Interfaces da Revelação. São Paulo: Ed. Paulinas,2003.

"Kwaray ou Ague" – Kwaray veio neste mundo

Awaju Poty -  Omombeu:

 

            "Ñamandu mandou para o mundo uma alma para um homem (ywyraija), e uma alma para uma mulher (kunhã karai). Depois a mulher concebeu a criança e recebeu do ywyraija a  alma da criança. E o pai já sabia qual era a alma (nhee porã) da criança.

            (Isto aconteceu antigamente, antes do dilúvio).

            O pai da criança foi para outro lugar. E o pai da criança falou para a mulher: - eu vou para outro lugar. O dia que você quiser ir atrás de mim, você irá. Em cada encruzilhada eu deixarei uma pena preta de galinha (urui). Onde não houver pena de urui você não seguirá. Então o homem seguiu o seu caminho. Quando caminhava, nas clareiras do caminho ele deixava a pena de urui. O pai da criança sempre seguiu um caminho reto (sem curva), mas era um caminho estreito.

            Depois, a mãe do Kwaray ( Kwaray era a criança que estava em seu ventre) seguiu o caminho. Então, em cada encruzilhada ela perguntava para seu filho e Kwaray respondia: - Vamos seguir o caminho reto. Então a mãe seguia o caminho reto.

            Em cada encruzilhada havia flores bonitas. Em cada encruzilhada havia flores amarelas (potyju), e a criança gostava. Quando Kwaray via as flores amarelas ele dizia à sua mãe: - "Pega elas para mim. E sempre a mãe pegava.

            Num momento em que ela estava apanhando as flores, um marimbondo (mamanga) deu uma ferroada na mão da mãe de kwaray. De tanta dor, ela balançava a mão, e sua mão bateu na sua barriga e machucou a criança. Ela fez isto sem querer mas ela sabia que a criança estava em seu ventre. Depois disto a dor já tinha passado. E ela começou a andar de novo, para frente. Depois, continuando a caminhar, chegou em outra encruzilhada. E começou a falar com seu filho de novo, perguntando: - Para onde nós vamos?

            Mas a criança não respondia (não dava a voz), nem se mexia mais. Ela perguntou três vezes e nas três vezes a criança não respondeu. Então a mãe seguiu. Mas não sabia para onde ir nem qual estrada devia seguir. Então começou a seguir o caminho que aparecia primeiro, não seguiu mais reto. Depois ela chegou numa casa onde havia uma velhinha. A velhinha disse: - Ah! Minha filha porque você veio? Este caminho é perigoso, mas mesmo assim você o seguiu. Meus filhos são maus, mas como você conseguiu chegar, eu vou te ajudar a escapar. Meus filhos vão chegar. Se meus filhos chegarem eles vão saber.

            (Isto aconteceu antes do dilúvio. Estes animais são as onças e vivem no mato. E foi  a onça que matou a mãe de Kwaray).

            Depois os filhos da onça velhinha chegaram. Quando vinham pelo caminho só se via onça (xiwy). Eles chegaram na  casa e sentindo o cheiro da kunhã disseram para sua mãe: - Você caçou, mas como você conseguiu esconder?

            Ela falou para os filhos: - Mas como eu ia conseguir? Vocês já sabem que eu sou uma velha e não tenho mais força para isso.

            Enquanto eles falavam assim, a mãe de Kwaray estava escondida embaixo de um caldeirão feito de barro. Então, mesmo assim, os filhos não acreditavam e queriam saber de onde vinha o cheiro. E procuravam por tudo, revirando todas as coisas.

            Enquanto isto, o mais velho não tinha chegado ainda. Ele era o mais forte de todos. E ao chegar, revirou tudo também. E quando ele saiu de dentro da casa ele viu o caldeirão virado de boca para baixo. De raiva ele chutou com força o caldeirão e assim ele matou a mãe de Kwaray.

            Então a mãe das onças falou aos filhos: - Já que vocês mataram a mulher vocês deixam o feto para mim. Então os filhos deram o feto para a mãe deles.

            A velhinha comeu a placenta. Ela jogava tudo na brasa (tatapy). Tudo o que era para comer ela comeu. E o que era a criança (o que era Kwaray) ela não comia. E a criança (Kwaray) sempre "pulava" do fogo. Então a velha disse: - Eu deixarei a criança em cima do fogo para secar.

            E quando a criança desceu de cima do fogo, a avó onça disse: - Minha avó, faz um arco e uma flecha para mim. E a velha assim fez.

            Com o arco e a flecha Kwaray saiu para o mato. Ele ia longe. Quando ele vinha do mato, ele trazia sempre bastante pássaros. E ele sempre fazia isso. Sempre ia no mato e trazia bastante passarinho. A velhinha sempre falava para ele não ir par Nhandekere (lado do braço direito) onde existia ka'aguy owy (mato verde) e, por isso, havia muito marimbondo (mamanga). Neste lugar havia o papagaio que sabia do acontecido.

            Um dia, Kwaray foi para este lugar. Ele estava no mato, e apontou a flecha para o papagaio e o papagaio falou: - Mas como você vai fazer isto?, você está fazendo assim, matando todos os passarinhos e levando para sua avó que matou a sua mãe.

            Então Kwaray voltou chorando e ficou com os olhos vermelhos: - Como, então foi assim? E quando ele chegou na casa da sua avó, a velha disse para ele: - O que aconteceu? Porque você não me trouxe mais os passarinhos? E Kwaray respondeu: - porque os marimbondos me aferroaram e mostrou seus olhos vermelhos. Depois disso ele continuava chorando. Até que sua avó perguntou: Por que você não vai mais caçar passarinho  para mim? E Kwaray respondia: Porque meus olhos ainda estão doendo.

            Depois de tudo, ele pensava. Já que minha mãe foi morta por eles eu procurarei pelos ossos (kangue) da minha mãe.

            Então juntou todos os ossos de sua mãe. E levou para o mato. E não demorou para que Kwaray gerasse dos ossos de sua mãe, o seu irmão. E este irmão vai ser Jaxy (a Lua).

            Dos ossos que ainda sobraram, Kwaray tentou gerar sua mãe de novo. Mas ele não conseguia. Pois quando a mãe deles estava quase pronta, Jaxy chamava por ela querendo mamar em sua mãe. E então toda vez ela se desfazia, porque ela não tinha o tempo para descansar, para se completar, para Ter a iluminação, para viver novamente.

            Kwaray tentou três vezes. Mas não conseguiu. Então, com raiva pensou em acabar com as onças.

            Kwaray e Jaxy sempre viviam juntos. Jaxy e Kwaray sempre andavam com arco e flecha e sempre viviam juntos. Depois de muitos anos, Kwaray e Jaxy já não tinham mais vontade de viver aqui no mundo. Kwaray não queria viver mais no mundo. Então ele disse para seu irmão Jaxy: - Vamos fazer assim. Vamos pegar todas as onças, vamos atrair os bichos (as onças) até onde há um rio que esta cheio de yypo (lontra, ariranha). Vamos fazer uma ponte (yyryvovõ), bem comprida. (A ponte era de taquara).

            Quando eles terminaram de fazer esta ponte, Kwaray e Jaxy foram na casa da velhinha e disseram: - Vamos, todo mundo, buscar carne de tapii (anta). Então eles foram.

            E Kwaray disse para Jaxy: - Quando todos estiverem no meio da ponte você solta a ponte e todos cairão. E não deixe nenhum escapar. Kwaray disse para Jaxy:  - Você vai atrás. Eu vou na frente. Depois que eu atravessar o rio, do outro lado do rio, darei o sinal. Quando eu der o sinal, você solta a ponte.

            Kwaray lá estava do outro lado da ponte. Enquanto isso, as onças estavam começando a passar. Quando todas as onças estavam no meio da ponte, havia uma que ainda estava entrando na ponte. Kwaray  olhou para ver se todos já estavam no meio e, naquela hora, a última onça, que estava grávida, estava começando a entrar na ponte. Kwaray olhou para o lado onde estava Jaxy. Ele olhou só para ver se estava tudo bem. Mas Jaxy pensou que Kwaray estava dando o sinal. Jaxy soltou a ponte. Então de repente aquela onça que estava grávida pulou para fora da ponte e se salvou.

            Então Kwaray disse para Jaxy: - Eu ia dar o sinal. Mas esta bem. Eu ia acabar com todos eles. Mas assim esta bem. Então kwaray disse para Jaxy: - Agora vamos Ter que fazer a caminhada. Vamos pela beirada do rio. Então eles foram. Eles foram longe e viram um pescador sentado na beira do rio. Era Anhã. (Isto foi antes do dilúvio).

            Kwaray quis enganar Anhã. Então Kwaray foi por baixo da água. Ele foi com um galho de árvore e prendeu no anzol de Anhã para fingir que o peixe estava puxando o anzol. Kwaray fez assim. Depois Kwaray saiu da água e, então, Jaxy falou: - Já que você enganou Anhã, eu também quero enganar. Pois Kwaray falou:  - Você não pega o anzol, você finge que o peixe esta puxando o anzol.

            E Jaxy falou: - Vou fazer assim. Foi e mergulhou em direção do anzol. Mas ele já fez de outro jeito. Então, ele pôs o anzol na boca. E Anhã na primeira puxada, já tirou Jaxy.

            Anhã foi o primeiro pescador. E o primeiro peixe que ele pescou foi Jaxy. Então Jaxy fez também o bem porque senão não existiria a pesca. E até hoje é assim. Todos os pescadores pegam peixe, por causa de Jaxy.

             Depois disso Kwaray foi falar com Anhã. E Kwaray falou para que ele não mastigasse os ossos de seu irmão.

            Então Anhã obedeceu. E comeu toda a carne de Jaxy e deixou os ossos.

            Depois disso, Kwaray recolheu todos os ossos de Jaxy e levou com ele para que depois Jaxy pudesse ser gerado de novo.

            E Kwaray gerou Jaxy de novo dos próprios ossos de Jaxy.

            E dali seguiram de novo, juntos.

            Kwaray e Jaxy chegaram no meio do mundo (ywymbyte). Eles estavam indo em direção a Tupã Retã. E ali eles esperaram um pouco. Por isso, em cada meio dia, o sol para um pouco porque eles descansaram em ara mbyte.

            Kwaray diz para seu irmão: - Vamos ver quem consegue alcançar arai owy (o azul do céu, a parte mais distante do céu) com a flecha.

            Kwaray atirou a flecha para cima e a flecha alcançou arai owy.

            Jaxy, seu irmão, também jogou a flecha para cima. Mas sua flecha não alcançou arai owy. Só alcançou as nuvens, arai xii (as nuvens brancas, que ficam mais próximas).

            Kwaray jogou a flecha três vezes e sempre a flecha alcançava arai owy. E cada flecha que arai owy levava, ela abaixava, descia na direção de Kwaray.

            Jaxy também deu três flechadas, mas só alcançava arai xii.

            E Jaxy alcançava sempre arai xii. E a cada flechada de Jaxy, arai xii também descia um pouco.

            Kwaray sempre foi o primeiro. Sempre alcançou ara owy, que vai ser o seu lugar, Kwaray amba.

            Jaxy foi também para arai, mas não alcançou o lugar de Kwaray. Ele ficou em ara xii, que vai ser o seu lugar, Jaxy amba.

            Kwaray diz para o seu pai: - Eu vou iluminar, clarear o mundo para nossos filhos caçulas.

            Jaxy diz para seu pai: - Eu vou iluminar, clarear a noite, a escuridão. Em quatro semanas, irundy ara, eu estarei clareando a noite.

            (Kwaray nunca vai se acabar. Ele vai clarear o dia e o mundo. Ele nunca terá preguiça.

            Jaxy já não é como o sol. Quando é lua nova nós não vemos a lua. Quando Jaxy esta um pouco mais alto podemos ver, mas ainda não há luz. E assim a lua vai clareando, cada vez mais forte.

            Quando termina de clarear a noite, Jaxy desaparece. É quando Kwaray brilha no zênite.

           

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

           

KAAIARI

A LENDA DA ERVA MATE

 

 

 

 

 

 

 

 

Neste texto apresento a tradução do original guarani de uma das versões da lenda da Erva Mate. Faço também uma possível leitura contextualizando esta lenda dentro do pensamento nativo guarani. É possível mesmo que a própria leitura da lenda remeta a outras referências que não cabem em si mesmas. Ou seja, a uma possibilidade de um pensamento nativo americano inserido na nossa modernidade brasileira. Um pensar que aponte para outras referências de cultura dentro da nossa própria cultura contemporânea brasileira, uma cultura multicultural.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Awaju Poty – outono de 2003

 

 

 

 

 

 

Kaaiari

 

A Lenda da Erva-Mate

 

 

Kwarayju Omombeu:

" Houve um tempo em que a nuvem da discórdia desceu sobre a grande nação guarani.

O eco das palavras de Xume ainda eram repetidos nos vales e nas montanhas, mas o sentido dos seus ensinamentos tinham caído no abismo do esquecimento. E os que ainda lembravam de alguma coisa, davam novo sentido e interpretavam de forma desastrosa os seus desígnios.

Os maus pensamentos arrombaram a porta do espírito e as bocas semeavam a maledicência.

Foi nesse meio que surgiu a divisão do povo e que usando a liderança de dois pajes muito respeitados por seus poderes, Anhã trouxe a guerra e a destruição entre os parentes.

Daí decorreu que duas facções se separaram, formando duas forças antagônicas, como se fossem duas nações estrangeiras, hostilizando-se mutuamente."

 

           

 

 

 

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate

 

Awaju Omombeu:

Nas situações em que o homem, esmagado pelos homens, é radicalmente alterado, deixando de existir na sua identidade pessoal; no momento em que ele se torna o desconhecido e o estrangeiro, ou seja, fatalidade para si mesmo, seu último recurso é o de se saber esmagado, não pelos elementos da natureza, mas pelos homens, e de dar nome de homem a tudo que o ataca.

            O homem normal sabe que a sua consciência deve se abrir ao que mais violentamente o revolta: aquilo que mais violentamente nos revolta está em nós mesmos.

            Mas, despossuído  de tudo, o ser humano se torna enfim uma presença silenciosa que nenhum poder pode suprimir: o que essa presença traz, por si mesma e como afirmação última é o sentimento de pertencer à natureza.

            A interligação com a natureza é fundamental para que tenhamos um destino sobrevivente. Porém, é bom trazer sempre na lembrança que a maravilha da realidade humana está exatamente na sua inesgotabilidade de crises. Porque o esgotamento das crises significa esgotamento da esperança: sem crise ninguém pode fortalecer a sua própria sensibilidade dinamicamente.

            É preciso Ter ido ao fundo da dor humana, Ter descoberto suas estranhas capacidades, para poder saudar com o mesmo Dom ilimitado de si mesmo, aquilo que vale a pena viver.

            Kwarayju Omombeu:

           " A discordância entre as duas facções consistia em que, uma passou a usar o Kuruxu, a Cruz de Cristal Emplumada, mas rejeitava as quatro pedras dos ambas. A outra por seu lado rejeitou a Cruz de Cristal Emplumada, usando apenas o Ita'Kuruxu, as quatro pedras em torno do Tata Porã, o Fogo Sagrado: uma amarela na direção leste, uma vermelha na direção oeste, uma negra na direção sul e uma branca na direção norte. Anhã se ria de quase cair ao ver os símbolos sagrados de Xumé assim separados."

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate

 

            Awaju Omombeu:

            O Kuruxu representa o momento em que o poder vertical de Ñanderu encontrou o poder Horizontal de Ñandexy gerando a dinâmica da vida. Que pode ser representado pelo fogo do Ita'Kuruxu ou pelo ponto de encontro entre o cristal vertical e o horizontal do Kuruxu. Na realidade ambos se reforçam.

            Os símbolos estão relacionados com ensinamentos e confirmações substanciosas, cujo entendimento nós só podemos aprofundar  através da utilização da função de cada tradição. Cada um dos símbolos de uma tradição tem grande valor funcional: seu aparecimento não aconteceu apenas através de uma escolha formal. Para chegar a estes símbolos, foi preciso muito tempo de dedicação e maturação. Os símbolos são uma sugestão mais condensada de uma confirmação mais profunda.

            Por outro lado entre o céu e a terra representa-se indefinidamente o drama da morte. A origem desse drama deve-se a um obscuro desejo de ultrapassar os limites da horizontalidade, ou seja, ao impulso geral de baixo para cima que orienta o crescimento dos seres vivos num movimento constante e monótono. Todavia, a transgressão do limite que é dado pela terra – plano horizontal por excelência – não passa de um evento episódico, e o amplo movimento dos vegetais milenares em direção ao céu, tem, como contrapartida inevitável, a curta duração da vida animal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate

 

 

Kwarayju Omombeu:

"A luta do povo separado por Anhã se estendeu por tempos imemoriais, e muitas desgraças vieram. E muitas gerações passaram. E as vinganças não paravam de acontecer. E esse sofrimento, e essa agonia pareciam que nunca mais iriam Ter fim.

Eles já estavam cansados de tanta guerra, de tanta morte. Quando então os chefes de um e de outro povo resolveram fazer um aty, uma reunião de conselho, para combinar a paz.

Após cinco dias de aty chegaram em um acerto. Ficou decidido que iriam casar o mais valioso jovem de um dos povos com a mais valiosa jovem do outro povo e que daquele dia em diante iriam voltar a usar o Kuruxu Emplumado e o Ita'Kuruxu para selar a paz.

Um dos povos escolheu o seu mais valente xondaro (guerreiro), que era uma verdadeira emanação de Tupã, para ser ofertado para as núpcias.

O outro povo escolheu a sua mais bela Kunhãtai (moça) que era uma verdadeira emanação de Ñandexy, para ser ofertada para as núpcias.

O xondaro foi adestrado desde que nasceu para ser defensor de seu povo, ele foi escolhido pela nobreza de seu espírito, seu nome era Jukupe; e a kunhãtai foi ensinada pelo seu pai, o Arandu, na arte do espírito. Ela foi escolhida porque dentro dela havia sido cultivado o amor e a sabedoria, seu nome era Kaakupe.

O conselho também determinou que Kaakupe após as núpcias deveria acompanhar o seu esposo para viver com ele junto ao seu povo.

Kaakupe sentiu-se desamparada ao saber que teria que deixar seus pais e que nunca mais iria viver com eles. Estava consternada. Então sua mãe a pegou pela mão e a levou até um espelho de água. E lhe disse:

 

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate

 

 

 " Quando a tristeza vier pousar em teu coração, olhe-se no espelho de

água. O espelho não é somente para você olhar o seu rosto, mas a

vibração do seu próprio ser. Se você sentir saudades de seu pai e de sua

mãe olhe-se no espelho para encontrá-los. Todos os problemas que aparecerem você poderá enfrentá-los olhando-se no espelho, pois através dele você poderá encontrar solução, resposta para o que a faz sofrer.

Após as núpcias , Kaakupe deixou seu povo para viver na aldeia do seu marido. Conforme havia sido determinado."

 

Awaju Omombeu:

Todas as pessoas têm pai e mãe dentro de si, e, também uma parte individual. Dentro de cada um existe pai e mãe, mas é a parte individual que não deixa que nós sejamos, apenas uma réplica, um ser duplo refletindo a influência fixa de duas partes: a paterna e a materna.

Na cultura guarani, quase sempre, o duplo aparece sob o disfarce de réplica – no sósia, na sombra ou reflexo do espelho de água - ,  porém, sua verdadeira condição não se reduz jamais ao mero papel de cópia. Pelo contrário, a aparição do duplo vem quase sempre denunciar a ilusão das aparências que se supõem conferir ao homem uma identidade, revelando o absurdo da suposta integridade que o constitui e o seu suposto equilíbrio.

Mas certamente, que a influência dos pais, que nos perpassa, não é igual, é desequilibrada, e, vivendo no meio dessa influência desequilibrada, estamos sempre querendo equilibrar-nos.

Como a realidade é desequilibrada, todo mundo está buscando o equilíbrio, e o encontra só desequilibradamente; no  duplo ser que somos, formados por partes desiguais.

Na qualidade de um outro desconhecido que lança a figura humana a indeterminação de sua própria imagem, o duplo interroga o princípio de toda

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate

 

 

representação, precipitando o fim da crença na imagem e semelhança. Assim, nós existimos e nos sensibilizamos. Se existíssemos equilibradamente seria impossível que nos sensibilizássemos.

 

"Kwarayju omombeu:

Jukupe vivia em uma colina suave onde o sol de Tupã sempre se punha em tons rosáceos, quando uma brisa fresca vinda do sul conduzia o seu numeroso povo para perto do Tata Porã.

Porém a vida de Kaakupe com Jukupe não foi como todos esperavam. Muitas vezes Kaakupe teve que buscar consolo no espelho de água. Jukupe sentia muito ciúme de Kaakupe, por não entender o aspecto amoroso de sua esposa, e a obrigava a usar a máscara ritual sempre que se apresentava publicamente."

 

Awaju Omombeu:

Não há decomposição do antropomorfismo humano, sem que haja uma decomposição  do antropomorfismo divino (aquele do qual o primeiro é o modelo eletivo, aquele que o primeiro toma ficticiamente por modelo).

A máscara, na cultura guarani representa a própria encarnação do caos. São formas que se impõem aos rostos, não para ocultá-los, mas para acrescentar-lhe um sentido profundo. Daí seu parentesco com os monstros imaginários, na qualidade de artifícios que se acrescentam ao rosto humano para torná-lo inumano. As máscaras presentificam as incansáveis interrogações da humanidade.

 

 

 

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate

 

 

Kwuarayju omombeu:

"Passado um tempo, Kaakupe engravidou, então Jukupe resolveu abandonar a aldeia de seu povo para viver isolado só com sua mulher.

O trajeto da viagem durou o tempo de gestação de Kaakupe. Quando pararam para montar o acampamento, Kaakupe pariu uma menina que nasceu desfalecida. Kaakupe pediu para que Jukupe lhe fizesse o Ykarai e que lhe desse o nome de Kaaiari. Então Kaaiari ia ganhando vida, enquanto Kaakupe ia morrendo. Jukupe passou a viver junto à uma cachoeira, no sopé de uma grande montanha.

Em Kaaiari brotou o mesmo amor que havia no coração de Kaakupe, e esta amou o rio, a montanha, a mata, os animais e todos os seres viventes.

Porém quando Kaaiari se tornou Kunhãtai, e teve a sua primeira menstruação, deixou este mundo.

Jukupe ficou abalado com a morte da sua filha. Definhava dia a dia, o sofrimento da perda estava consumindo a sua vida.

Em um entardecer, quando o seu espírito já não suportava tanta dor, viu que havia brotado uns arbustos muito formosos nos lugares onde tinha caído o sangue da menstruação da sua filha.

Então ele tomou algumas folhas daqueles arbustos frondosos e fez um chá, impelido pelo amor que sentia por sua mulher e por sua filha.

E tão logo  provou o chá, a sua força voltou, e foi tomado de um grande ânimo e de uma grande alegria. E notou que o amor que animava Kaaiari brotava em seu coração, e dentro dele sentiu profundamente a beleza do rio, da montanha, da mata, dos animais e

 

 

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate

 

de todos os seres viventes. E logo lembrou do povo de sua aldeia e percebeu que o mesmo amor que animava Kaakupe agora também animava o seu coração. Então retornou para o seu povo, levando mudas

da planta que  manifestava a essência do espírito da sua esposa e da sua filha.

E dentro dele soou a canção de Xumé que diz que é bendito o homem e a mulher que devoram a onça, porque a onça se torna homem e mulher, e que é maldito o homem e a mulher que são devorados pela onça, porque o homem e a mulher se tornam onça. E saiu ensinando pelo mundo seu saber e plantando mudas dessa planta sagrada junto aos espelhos de água."

 

Awaju Omombeu:

Vários elementos são abordados neste último trecho da lenda da erva mate.

O primeiro diz respeito a forma como a mulher e os elementos da natureza, tais como flores ou folhas, por exemplo, são relacionados. Neste caso, Kaakupe e Kaaiari tendem a encarnar os mais elevados ideais de amor e beleza; todavia, não é descabido observar que se afirmamos a beleza das tenras folhas da erva mate, é porque elas parecem estar em conformidade com aquilo que deve ser, ou seja, por representarem, no que lhes diz respeito, o ideal humano. Nesse caso, o aspecto simbólico se sobrepõem a presença real dos seres em questão, sejam mulheres ou folhas, impondo a elas uma forma pura e sublimada. Na verdade , essa atribuição de valores nada mais é que uma fórmula abstrata, cujo sentido último seria o de transformar em elevado, nobre, sagrado, as formas naturais em permanente mutação e presentificação.

Isto porque a parte principal de cada acontecimento está interligada com a natureza, e, quando esta parte original, normal, natural, é ocupada pela parte ideal, desenvolvida abstratamente, perde-se o controle do processo vital.

 

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate

 

 

A naturalidade é simultânea, não existe naturalidade separada, fragmentada; a naturalidade estilhaçada não ocupa lugar no presente, ou seja, no pensamento; mas sim no passado, ou seja, na lembrança; ou no futuro, ou seja, na imaginação.

Na realidade, quem encontra o amanhã dentro de cada momento, interligadamente com o presente, nunca encontra amanhã. O amanhã é uma ilusão. O presente é o momento em que o passado se transforma em futuro, constantemente; é o único lugar em que estas duas forças antagônicas se encontram. Dependendo da experiência do passado, e dependendo da aplicação da experiência no futuro, amplia-se, aprofunda-se o presente. Dependendo da profundidade, da amplitude do relacionamento com o passado e do relacionamento com o futuro, aumenta-se o presente.

Em contrapartida, o homem moderno procura na natureza o mesmo que busca na farmácia: remédios bem apresentados para doenças confessáveis. E na medida em que ele recua invariavelmente diante dos horrores múltiplos que compõem o quadro da existência, só lhes resta a fruição desses produtos minúsculos, únicos deuses do homem moderno. Ele que olha os deuses da natureza com presunção.

Por tal razão, o espírito moderno, nos melhores casos, só conseguiu substituir essas possibilidades do homem inteiramente sufocado de horror, por qualquer derivado genérico; ou, ainda, o espírito moderno nunca realçou outra coisa que métodos aplicáveis à ciência e a seus dogmas transitórios.

Este é um alerta para os que são descendentes de índios, para os que estão descendendo, se apagando; e para os ascendentes  de índios, ou seja, para os que estão ascendendo, para os que estão se acendendo. Índios no sentido dos que estão buscando a natureza, a naturalidade; e dos que não a estão deixando.

Awaju Poty – Kaaiari A Lenda da Erva Mate