domingo, 26 de agosto de 2012

KORA: A LEI


          Em aty realizado no Tekowa Pu’Aka, na última lua cheia de verão do ano de 51.998, a mboejari Yxapy Rendy colocou para o Awaju a seguinte questão e fez o pedido de que ele fizesse uma exposição dos Kora. A questão:
          Por vezes penso que você acredita em vida após a morte e até mesmo em encarnação, e por outras, como no caso da resposta que você deu para o Angaturã sobre o “Ñemano”, penso que você não acredita na perenidade do espírito, ou, que não tem nenhuma afirmativa sobre o tema, afinal, como você pensa isso?
          A resposta do Awaju:
          - Xerayxy iporã, querida mãe de meus filhos, tudo sei e, nada sei, tudo posso e, nada posso, como na historia da “Arai”, são faces de uma mesma coisa. Sempre que estamos seguros de algo, é momento de autocrítica, porque normalmente estamos seguros tendo teto de vidro em véspera de amandau, de chuva de granizo.
          Esta nossa vida é única, e isso basta. Vivamos conscientes de que cada momento perdido esta perdido para sempre. Nunca mais haverá eu e você e, este momento e, este lugar.
          Agora, antes de abordar a segunda questão que você me propõe, que é a explanação sobre o decálogo, a Kora; queria voltar a um ponto que abordei na reposta ao Angaturã, no “Ñemano”. Porque muitos pensam que a consideração pelo Kora diz respeito a uma compensação futura, em outras vidas, e isso não se dá assim. A consideração ao Kora diz respeito a uma satisfação que provem do âmago de todo nosso ser e, tem relação com a índole de cada um; e isso sim. É determinante com relação a uma vida feliz ou infeliz, aqui e agora.
          No cumprimento do Kora, honro meus ancestrais, rejubilo minha gratidão pelo que tenho, principalmente pelo corpo que herdei; e, pelo que sou como ente humano, pela formação de meu espírito; que são: corpo e espírito, um só. E me congratulo com as futuras gerações, lhes deixando como herança uma vida dedicada ao que posso ser de melhor, para lhes deixar no que esta ao meu alcance, um mundo melhor. Então, cumprir a Kora, para mim, é liberdade e alegria, em um mundo que neste momento não esta respeitando os limites e pondo em risco a vida na “madre tierra”. Num mundo em que o desrespeito à vida tornou-se banalidade cotidiana, e de tão vulgar se tornou imperceptível para muitos que se dizem espiritualizados, ou humanizados. 
          Separar a vida espiritual da vida material, ou falar de iniciados e não iniciados, de eleitos e proscritos, é arbitrariedade e não encontra respaldo na Kora, nas leis da natureza de todos os mundos. Essa divisão normalmente gera grandes desvios do que é ete (verdadeiro e natural). Alguns que se julgam iniciados não passam de patetas, enquanto outros que nunca pretenderam serem espiritualistas ou iniciados como vulgarmente se diz, são levados pela escola da existência a grande realização e, maturidade de ser. Como canta o harpista, muitas das atitudes humanas são apenas “vaidades de vaidades sob o sol”(cf. Eclesiastes 2:11). E, os que mais apontam defeitos no semelhante, e dão conselhos que não são pedidos e, se julgam instrutores dos demais, os “sabe tudo”; são pessoas que mascaram suas carências e deficiências, buscando dessa maneira uma forma de serem notados, mesmo que sendo incômodos e indesejados. Bom, mas vamos ao pedido da exposição do Kora:
          Moxe reuniu nosso povo nas faldas de uma grande montanha, e ali, em torno do Tata Porã, o fogo sagrado, iniciou o aty, a sagrada cerimônia. Era o final da tarde, fim do dia. Tupã brilhava vermelho sobre o vale que descortinava no horizonte. Então Ñamandu se manifestou no fogo no cume da montanha, e chamou o Mboruwyxawete Moxe para junto de si. Nesse aty, face a face falou Emanu com nosso povo, no monte, do meio do fogo. O povo manteve-se nas faldas da montanha, apenas o Mboruwyxawete Moxe subiu ao cume, e Emanu gravou em duas tabuas de pedra a Kora que deu a Moxe (1), para o povo decorar e, não perder da memória. Tudo isso aconteceu em Orewe(2), a montanha onde da chama Ñamandu falou com nosso povo.   
          Observando as duas tabuas, constatamos que na primeira tabua estão quatro preceitos, que tratam de regular a nossa relação com Ñamandu. E, que na segunda tabua, estão os outros seis preceitos, que estabelecem parâmetros para a nossa relação com o próximo. Vou me deter em cada um deles, porém, darei inicio a esta exposição, começando pela segunda tabua.
          É muito oportuno que o primeiro dos preceitos da segunda tabua tenha a ver com a relação entre pais e filhos - 5º mandamento: “Honra teu pai e tua mãe”(3).
          Comentário:
          O povo Ñandewa é um povo de Mboruwyxawete (reis) e de Paje (sacerdotes), e nossos pais são os reis e rainhas, os sacerdotes e as sacerdotisas, de nossas famílias. Devemos cuidar de ser assim, para que tenhamos saúde e longevidade nesta vida e, harmonia e respeito em nossas Oka (casas).  
          O segundo dos preceitos da segunda tabua trata do respeito à vida: 6- “Não matarás”. (20:13)
          Comentário:
          Não matarás implica em não cometermos assassinato sobre nenhum ser vivente, em não cometermos deliberadamente nenhum crime contra a vida: seja contra o reino vegetal, animal ou mineral. Não podemos atentar contra a vida em nosso mundo, porque é contra a nossa vida que atentamos.
          O terceiro preceito da segunda tabua trata do mborayu: 7- “Não adulterarás”. (Êxodo 20:14).
          Comentário:
          O adultério, é em primeiro lugar uma falta a si mesmo; é falta a palavra empenhada, é um insulto a dignidade pessoal.
          O quarto preceito da segunda tabua, diz respeito ao que não nos pertence: 8- “Não furtarás”. (Êxodo 20:15).
          Comentário:
          Não furtarás através de lucro indevido, através de desvio do que não lhe pertence. Não furtarás a criação do próximo, seja ela material ou imaterial. Afinal, não tomarás nada do que não lhe pertença para que a sua alma não se furte; não furtaras o tempo do teu próximo sem lhe retribuir à altura.
          O quinto preceito da segunda tabua, diz respeito à falta com a verdade: 9- “Não
darás falso testemunho”. (20:16).
          Comentário:
          O que mente, mente para si. Então busque a verdade para que você não se torne um simulacro, um arremedo horrendo do que poderia ser belo. 
          Dizem que a mentira tem pernas curtas, porque cedo ou tarde é descoberta. E o primeiro que a descobre normalmente não é o mentiroso. O que dá falso testemunho colhe o fruto em sua própria vida e muitas vezes no fruto de sua vida.
           Temos que ser conseqüentes e ensinar com exemplo: se um pai mente, logo vera que seu filho o imitara.
          O sexto preceito da segunda tabua, o último mandamento de Ñamandu, diz respeito à inveja, ao mal olhado e, uma infinidade de males que assolam as relações humanas: 10- “Não cobiçarás os pertences de outrem”. (20:17).
          Comentário:
          A violação do último dos mandamentos é causa importante de uma quantidade enorme de males que afligem as relações humanas (Tiago 4:1, 2:1. Timóteo 6:10). É normal que possamos tomar pessoas como exemplo, é normal que desejemos progredir como fulano ou cicrano, esse não é o problema; o pecado esta em invejá-los.
          Agora veremos os preceitos da primeira tabua. O primeiro mandamento da Kora, diz respeito á nossa relação direta com Ñamandu: 1- “Não terás outros deuses diante de mim”. (20:3).
          Comentário:
          Todo desvio, tudo que nos separa da realidade, que se interpõe entre nós e Ñamandu, o centro irradiador de toda a vida, é Marã, fator de alienação, de dispersão de nosso foco vital. Os vícios, as manias, a perda de tempo em coisas nocivas ou frutos de mera vaidade ou desejo obsessivo, o engano e a maldade; afinal, qualquer coisa que se interponha entre nos e Ñanderu Papa Tenonde, nosso pai primeiro, último e verdadeiro, é um deus alheio a realidade, portanto, fonte de doença e insanidade.
          O segundo preceito da Kora, diz respeito à idolatria: 2- “Não farás para ti imagens para adorar”. (20:4-6).
          Comentário:
          A humanidade sempre teve uma tendência a fugir da realidade. E, hoje vive grande parte de sua vida, inserido, em um mundo de imagens virtuais. Seus objetos de desejo são automóveis, imóveis de luxo, atores, músicos, jogadores, ídolos cuja imagem é forjada pela mídia. Porém, o problema não esta em se ter um carro, uma casa confortável e bonita, nem em admirar bons atores, bons jogadores e, bons músicos; muito pelo contrário; o pecado esta em ter essas coisas como norteadoras da vida, como motivação para viver; esta em se deixar levar pelas imagens falsas que a mídia cria dessas pessoas e coisas.
          O terceiro preceito da Kora diz do tratar com vulgaridade o santo nome do doador da vida e da morte: 3- “Não tomarás o nome do ijara (senhor), ndee manu (teu Deus), em vão”.
          Comentário:
           Infinidades de pessoas desonram ao Ijara tomando repetidamente seu sagrado nome em conversações vulgares, usando linguagens indignas da espécie humana.
          Veremos agora um preceito que nos ajudará a evitar a desconexão com Ñamandu, com nossa família e com nossa tribo. Esse preceito nos pede que, sejam feitas todas as nossas tarefas, dentro dos seis primeiros dias da lua; e que o sétimo dediquemos para regozijarmos com Ñamandu, em família, com a tribo. Toda a família, todas as pessoas deveriam cooperar na preparação para começar bem o sétimo dia da lua, desde o por do sol do sexto dia.
          O quarto preceito da Kora, diz, para dedicar um dia de cada fase da lua, para rezar no Opy (casa de convergência da aldeia) e, para o descanso em Ñamandu: 4-“ Guarda o sétimo dia para o santificar”.
          Comentário:
          Hoje, o calendário civil é totalmente desvinculado da natureza, tornou-se absolutamente artificial, talvez refletindo a própria vida artificiosa do cidadão contemporâneo; não tem em consideração o ciclo lunar nem os solstícios e equinócios. É triste observarmos, por exemplo: o fato de no hemisfério sul, ser obedecido o calendário do hemisfério norte. O sul inicia o ano no período de contração da natureza, o transcurso se dá de maneira invertida; como um barqueiro que sobe a maré na vazante. Então tudo se torna mais difícil, na lida diária de cada cidadão. A maioria das pessoas não tem a mínima consciência desse fato.
          Há mesmo pessoas de boa fé que, desconhecendo as adulterações feitas por homens trevosos, ou seja, ignorantes da harmonia da natureza, guardam o sétimo dia civil, não se dando conta que essa é apenas uma formalidade. Ñamandu não pede formalidades, pede para que atinemos com a realidade.
          Todos deveriam cooperar na preparação para começar bem o sétimo dia, desde o por do sol do sexto dia. A fim de não estar preocupados pela atenção de coisas secundárias, devemos ter a casa, a roupa, os alimentos, a madeira para o Tata Porã, a erva para o Ka’ayu, o petyn para o fumo, os incensos, etc., desde o sexto dia, que é o dia de preparação (Lucas 23:54). O sétimo dia devemos passar em obras santas. Porém não esquecer que o sétimo dia é o sétimo dia da lua.
          Ver o grande mandamento em: Mateus 22:34-40.
          NOTAS: 
1.Ver Deuteronômio 9:10.
2.Orewe: Montanha onde a Kora foi dada a Moxe (Malaquias 4:4). O monte onde Ñamandu apareceu a Moxe em uma sarça de fogo (Êxodo 3.1). Onde Moxe feriu a rocha e dela emanou água (Êxodo 17:6-7). Monte onde nosso povo permaneceu por largo tempo (Deuteronômio 1:6). Onde Ñamandu admoestou o povo (Deuteronômio 4:10). Em Orewe o grande fogo (Deuteronômio 18:16). Montanha onde Ñamandu falava com os profetas (1Reis 19:8-9). Forma Juruá de escrita: Horebe.
3.Ver Êxodo 20:12.  

quarta-feira, 27 de junho de 2012

AGUYJE: A MATURAÇÃO


                                                                 
Em aty realizado no Tekowa Pu’aka, yxa de Kwaray, ano de 51998, a Ywoty fez a seguinte pergunta para o Awaju:
Xe’ru, meu pai, na resposta que foi dada para o Tupanju, sobre Wy’a, a felicidade, foi colocado que o propósito do Ñande Reko é o Aguyje, certo?
A resposta do Awaju foi:
Xe’rajy, minha filha, o propósito do Ñande Reko é caminharmos em felicidade rumo ao aguyje.
Para o Tupanju coloquei que a felicidade depende da fé nos Kora, ou seja, da fé no que é licito. Agora, você me pergunta sobre a questão que é chave para o Ñande Reko. Ou seja, o Aguyje.
Antes de te falar sobre o Aguyje gostaria de te dizer que ressaltei a necessidade de cumprirmos com o que é lícito, porque não podem ser felizes pessoas a quem lhe remoem as lembranças de más ações. Porque não cabe felicidade em quem acolhe pensamentos de vingança, inveja, ciúmes e ódio. Porque não cabe felicidade em quem não tem o coração puro e a consciência límpida. Nenhum estímulo, nem riqueza ou honrarias, podem lhe dar a verdadeira felicidade; darão apenas um simulacro da felicidade, sucedido de um grande vazio. A única condição para a cura do mal é o reparo das más atitudes e o pedido de perdão e misericórdia; nisto consiste a cura, pois a doença é o mal não sanado. Por isso Emanu após curar dizia: “Os teus pecados te são perdoados”(1).  A doença é um sintoma de transgressão ao Kora.         
O aguyje é a maturação do ser, e depende da santificação, que alguns chamam de estado de graça, outros de iluminação. Os orientais chamam de Nirvana, os japoneses de Satori, e assim por diante. Mas nenhuma é a mesma coisa. Assim posso te dizer que a maturação do ser depende da santificação, e que a realização da santificação é o aguyje.
O ponto fundamental desta questão é mesmo a santificação, e daí, nos resta saber, o que é e que fazer para se obter a santificação. Digo que o mapa já nos foi dado por Moxe (2). E que a Kora (3), o decálogo, esta na tradição de todos os povos, e traduzido para todas as línguas; assim, é só realizá-lo.
Antes de iniciarmos nossas recomendações para a obtenção da santificação, vamos identificar como é um santo. Isso porque muitos hipócritas e moralistas tentam passar por santo, colocando inclusive jugo sobre os demais, aparte de manifestarem um indevido sentimento de superioridade. Porém suas atitudes apenas enganam aos tolos, pois os frutos de suas ações são ocres e cheios de espinhos, deixando clara a qualidade de sua matriz. Acredito mesmo que essa atitude é advinda de uma grande falta de senso crítico e de um desconhecimento absurdo de si mesmo.
Por outro lado, uma pessoa santa é como água pura, livre de toda contaminação e capaz de purificar todas as coisas. Assim como a água pura é transparente, a pessoa santa manifesta transparentemente a Personalidade de Emanu dentro de seu coração. O amor a Emanu é o reservatório de toda a felicidade. A água produz uma vibração muito agradável à medida que flui e cai em cascatas. De modo semelhante, a vibração sonora de um arandu (devoto) é muito atraente e bela.
Agora vamos ao caminho para o aguyje:
Os Kora revelam o caráter de Ñamandu. Ñamandu é amor e sua lei é amor. “O cumprimento da lei é o amor”(4). A obra de santificação consiste em reconciliar a humanidade com Ñamandu, pondo-os em harmonia com os princípios da sua lei.
Emanu orou por seus dicipulos: “Santifica-os em tua verdade; tua palavra é verdade” (5). E lhes disse: “Quando venha o espírito de verdade, ele os guiará a toda verdade” (6). E o harpista cantou: “Tua lei é a verdade” (7).
Então, amor sem cumprimento dos Kora, pode ser qualquer outra coisa, menos amor. E, santificação: é amor puro. Assim, o caminho para o aguyje é a santificação que é obtida com o amor puro. O sentimento de prazer em cumprir a Kora, é o amadurecimento do amor (8), ou seja, o Aguyje.
Em nossos aty (cerimônias) temos uma forma (desenho), ao qual respeitamos, temos nossa Xy’na’oka, que é o Opy, nossa Oka mãe, a casa sagrada onde fazemos os aty, temos o Kora, o Aywu Porã, o Awaxy, o Tata Porã, o Jeroky, o Petyn, o Ka’ayu, os Poã e ypy, nossos mitos. E tudo tem um sentido para nós, e um sentido que pode ser diferenciado para cada um de nós.
      Outros povos têm outra maneira de ser, e nos devemos respeitá-los, porque somos uma grande família, a família humana. Ñanderu Papa Tenonde certamente prefere o diálogo, a reconciliação e a cooperação à discórdia entre seus filhos e filhas amados.
Por outro lado, as religiões, por assim dizer, são muito semelhantes, e quase sempre têm os mesmos objetivos, apresentando as mesmas proposições de maneira e em linguagens diferentes. Portanto, as religiões devem ter o papel de reconciliar e não de dividir. Uma religião que pregue a segregação e que se julgue a única certa ou a melhor, não esta cumprindo com seu papel de propagar o bem, a tolerância e o amor.
De Ñamandu tudo veio. Nós e tudo que existe somos uma emanação (criação) de Emanu. Emanu tudo fez com grande beleza, ele é um grande artista; sua fala é poesia. E, seu espírito é a verdade.
A linguagem de Ñamandu é mito-poética, e sua emanação é pura musica, por isso não é possível conhecê-lo, compreendê-lo ou falar dele de maneira discursiva. Uma música se sente, vibramos com ela, mas não se explica; quando muito podemos indicá-la.
Em todos os povos, em todas as línguas o Kora’tam (coração) se expressa, emana como cor, som, perfume e tem o sabor de tudo que é bom e faz bem; porque a graça é dom de Ñamandu, que é derramada sobre todos os santos. O aroma de Ñamandu desabrocha em todos os jardins e é espalhado pelos quatro ventos.
Tolo é o homem ou a mulher que pensa que uma determinada religião ou seita possui a verdade única, como se a posse da graça de Ñamandu fosse sua posse, em detrimento dos demais filhos de Ñamandu Papa Tenonde. Como se seus guias cegos estivessem acima de  Ñamandu e pudessem demandar sobre seus desígnios. Emanu emana seu espírito santo aonde lhe apraz. Isso os santos de todos os povos, de todas as línguas, de todas as religiões sabem, porque têm Koratam (9).

          NOTAS
1-      Ver: Lucas 5:20.
2-       Moxe: Moises. Por tradição, foi quem nos ensinou a centrarmos em torno do Tata Porã (fogo sagrado), que se manifestou pela primeira vez em forma de sarças de fogo.
3-       Kora: O decálogo recebido por Moxe.
4-      Ver: Romanos 13:10.
5-      Ver: João 17:17.
6-      Ver: João 16:13.
7-      Ver: Salmo 119:142.
8-      Amor: No sentido do Mborayu; Ver “Mborayu” (tese de doutorado).
9-      Koratam: Coração. Literalmente, firmeza na lei; o cerne da madeira, madeira de lei.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

ÑEMANO: A MORTE



Em aty realizado no Tekowa Pu’aka, na última lua crescente de verão do ano
de 51.998, Tupã Angaturã fez a seguinte pergunta para o Awaju: Xe’ru, meu pai, me
disseram que um dia os mortos vão ressuscitar dos túmulos, quando Emanu, que
eles chamam de Jesus, voltar. Isso é verdade?
Awaju Poty respondeu: Xe Ray,
meu filho, não vamos entrar no mérito das crenças alheias, pois assim acreditam os
católicos e os evangélicos. Mas pra você o que lhe parece, acha que tem vida depois da
morte?

Angaturã respondeu, simplesmente: - Não sei.

Awaju então lhe disse: - Esta é a resposta que todos deveriam dar.
Agradeço muito pela tua resposta Tupã Angaturã e, fico muito feliz por ser teu pai e
estar junto a você nesta vida. Você possui a nobreza de Tupã. Para dar essa resposta é
necessário ter muita coragem. O que acontece é que as pessoas são muito apegadas à
vida e, não se apercebem da maravilha que é a morte, o momento do descanso do
guerreiro, o fim da história. E, criam então uma enormidade de justificativas para
enganarem-se a si próprio, malabarismo tão grande, quão grande seja o medo da
morte. Mas a morte é inexorável. Essas tentativas de fuga tornaram-se crenças, e
justificam uma porção de coisas. Muitas delas extremamente maléficas. Uns acham
que vêem de encarnações pretéritas, e se julgam superiores aos outros. Outros acham
que por pertencerem a determinadas seitas ou religiões estão salvos da morte, que
são escolhidos de Deus e que os demais são escória, não vendo que escória é quem
pensa assim, por seu próprio modo limitado de pensar. Enfim há uma gama enorme de
suposições que em última instância apenas servem para justificar a mediocridade dos
medíocres e fazê-los se sentirem superiores aos outros, não enxergando quase nada
além de seus próprios narizes e não ouvindo nada do que não querem saber,
refugiando-se na sua estreiteza de juízo. Ainda há os que se julgam fazendo um
caminho espiritual, seccionando o mundo em um universo sagrado e outro profano,
como se isso existisse de fato. Também tem os que se propõem a mortificações e a
abstinências, como o celibato, matando em si toda a manifestação da vida; esses são
os piores porque são os castradores. Enfim, há toda uma gama de covardes e de
medrosos que não conseguem e não querem ver essa verdade última, que você
tranquilamente expôs, na sua sabedoria e tranqüilidade de criança. Para este dia
bastam angústias deste dia, o dia de amanhã cuidará de si mesmo (cf. Mt 6:34). O
mais: “não sei”.

“Não sei” é Ñemi Guaxu, o Grande mistério, a parte perene de Ñamandu, a
Natureza de Todos os Mundos. Aprofundar no “não sei” é mergulhar no infinito mar
de Ñemi Guaxu em nós, nossa parte perene; entre as margens de ñemano, a morte.
O Guata Porã, ou seja, o caminho sagrado do xondaro, guerreiro, se inicia quando o
Kwimba’e, toma a decisão de atacar corajosamente os próprios medos, você ainda

é um menininho, Awa Kyrim, meu querido Kurumim, onde já brotam os rebentos do
futuro Xondaro.

terça-feira, 15 de maio de 2012

WY’A: A FELICIDADE


Cerro Uritorco - Capilla del Monte 

         Tupanju, em aty realizado em ara aguyje, tangua de Gua’a, ano 51.998, no Tekowa Pu’aka, fez uma pergunta muito importante para todo o nosso povo, dirigida ao Awaju; porque na resposta que o Awaju lhe deu, pela primeira vez foi abordada a origem do povo Ñandewa, ou seja, de nosso povo, bem como salientado o propósito do Ñande Reko como um caminho de felicidade em direção ao aguyje. Esta foi a pergunta do Tupanju:
          - Xe’ru, meu pai, eu queria saber um pouco mais sobre os meus ancestrais. Como eles eram?
          Sei que os pais do Tata eram caiçaras, e que a mãe do avô Nelson era tingui; e sei também que os pais da Mama eram italianos assim como o pai do avô Nelson e os pais da avó Geni; e que nós somos Ñandewa e praticamos o Ñande Reko. Você poderia me dizer um pouco mais sobre esse tema?
          Outra coisa que me deixa confuso, também, é o fato do Cabeza de Vaca ter achado que o nosso povo era Wiking; e o Orellana, que era Grego, e já li também que alguns acham que a origem de nosso povo é Fenícia. Que confusão é essa?
          A resposta do Awaju foi:
          Xe’ray, meu filho, você fez uma pergunta abrangente que me possibilitara relembrar e esclarecer coisas importantes para o nosso povo.
          Vou começar pela última pergunta, sobre as Ykamiabas. Quando nossas Xondaria kwere (guerreiras) atacaram o Orellana (1), das margens do rio Maranhom, ele achou que estava sendo dizimado por um grupo de guerreiras lendárias, chamadas na mitologia grega de Amazonas, porque não tinha outra referência para se apoiar no entendimento do que estava lhe acontecendo. E a partir daí o rio Maranhon passou a ser chamado de rio Amazonas.
          Quanto ao Cabeza de Vaca (2), aconteceu algo semelhante, a única referência que ele tinha de um povo semelhante ao nosso eram os Wikingos, como ele chamou, tribo navegante do mar do norte.
          A hipótese da origem Fenícia se dá, devido às inscrições deixadas por navegantes dessa nação antiga, no litoral brasileiro; na verdade os fenícios mantiveram comércio com o nosso povo. E ainda há outras hipóteses, baseadas nos textos hindus. E todas elas são verdadeiras, menos no que concerne à origem do nosso povo. Há outras suposições mais, mas não é o caso agora de comentá-las.
          Voltando ao inicio da tua pergunta. Os tingui, em guarani Xi’inguy, denominação dada por vestirem-se e adornarem-se de branco; e os Caiçaras, em guarani Ka’aijara, senhores das matas, são povos de origem cario, em guarani Kario. Os Kario do litoral brasileiro, após a invasão européia, no século XVI, miscigenaram com portugueses e passaram a ser designados como caiçaras. Os Xi’inguy, Kario do planalto, acabaram mais tarde se miscigenando com colonos italianos e alemães. Os Kario da Amazônia se miscigenaram com sertanejos vindos principalmente do Maranhão e do Ceará. Devido aos casamentos interetnicos a nação Kario (3) quase se extinguiu. Hoje ela renasce em nós.
          Então, resumidamente, o povo Kario veio para pindorama (Brasil e países limítrofes), a milhares de anos. São originários de Rani, região de Ka’ana’an (Canaã); por isso a denominação Guarani, ou seja, provenientes de Rani; pois gua é radical de desinência de lugar ou de contenção de algo em um lugar. Rani, que deve ser pronunciado com “r” brando, significa néctar, e também foi nome de uma princesa. Muitos confundem a palavra Guarani com a palavra Guarini. Rini, tini, significa audaz; daí Guarini significar guerreiro, e não ser uma corruptela da palavra Guarani. Ainda outras aproximações podem ser feitas, como com a palavra Gua’rendy, que significa receptáculo de luz, ou vindos da luz. Ou ainda Kwaray’i, ou seja, pequenos sois, ou filhos do sol nascente. Todas estas aproximações são interessantes, e não são coincidências, mas não dizem respeito à origem etimológica da palavra Guarani.
          Ñandewa, como você sabe, significa “dos nossos” e, refere-se aos guarani que aderiram às reformas, ou melhor, às boas novas, trazidas por Tomé, que em guarani dizemos Xume (4).
          Ñande Reko, como você, também, sabe, significa “nossa maneira de ser” e, refere-se ao nosso caminho de felicidade rumo ao aguyje. Felicidade, Felix em latim, ‘é ter fé, no que é licito’, ou seja, é ter os Kora (5) como mapa do caminho.
          Porém, digo para você que, todas essas informações são importantes apenas para conhecermos aspectos de nossa cultura, do porque somos assim. Não devem de maneira alguma servir como fonte de descriminação. Nunca devemos esquecer que nosso pai é o Sol, que nossa Mãe é a Terra, que nossa Avó é a Lua, e que todos os seres existentes são irmãos, filhos da mesma nobreza. Aonde houver enfermidade, devemos levar sanação. A enfermidade pode manifestar-se de muitas maneiras, mas a pior delas manifesta-se como baixa estima.
          Nestes meus 55 anos assisti a enfermidade da segregação, entre muitas outras, manifestar-se com ferocidade em nosso mundo. Por isso quando me perguntam se sou Guarani, respondo: Sou Guarani Kario, sou Caiçara, caboclo, caipira, ribeirinho, sertanejo, gaucho, criollo, sou o índio trazido da África e, o índio expatriado da Europa e que encontrou abrigo nesta terra de Pindorama. Mas também quero dizer quem eu não sou: Não sou o que tem vergonha de seu povo, o que explora e segrega seu irmão, o que semeou a discórdia e a enfermidade na terra. Disso tudo, posso falar com segurança, porque assisti essas coisas acontecerem aqui.
          Minha família veio do litoral do Paraná para Curitiba, a motivação dessa transferência foi a melhora de vida e também sem dúvida o espírito de aventura. E esse mesmo espírito fez com que fossem para o interior do Paraná, para a região dos Campos Gerais de Guarapuava.
          Então, nasci em Curitiba e com dois anos de idade estava em Guarapuava, uma cidade bem pequena. Meu pai era encarregado da educação nessa região que ia de Guarapuava até quase a fronteira com o Paraguai e a Argentina. Nesse tempo, ha mais de cinqüenta anos atrás, as cidades que hoje conhecemos não passavam de pequenos povoados que se formavam nas margens das picadas que iam sendo construídas. Essa terra toda que estava sendo ocupada pertenciam aos Guarani Missioneiros que foram dizimados pelos Bandeirantes. As pessoas que chegavam nesse primeiro momento  eram deserdados de outras terras e aventureiros. No principio as coisas aconteciam de maneira harmoniosa e tranqüila, iam se instalando os caboclos, os gaúchos e, os colonos; o convívio com os remanescentes Guarani era tranqüila, todos tinham um sentimento que os irmanava que era o da esperança na construção de uma vida digna. Nesses tempos eu tinha ainda menos de cinco anos e viajava com meu pai por todo esse interior. Posso dizer que os caminhos eram constituídos de picadas sinuosas que desviavam os acidentes naturais e também as grandes árvores. As florestas de araucária eram impressionantes, havia araucárias e imbuias que precisavam de dez homens para abraçá-las. Os rios eram imponentes, límpidos e repletos de espécies de peixes, rios maravilhosos como o Ivai, o Piquiri e o Iguaçú. Assistia meu pai instalar escolas e designar professores e acompanhar o desenvolver das coisas, e por sorte sempre me levava junto. Também assisti sua consideração por nossos irmãos Guarani Mbya, construindo escola e designando professores para a aldeia. Havia toda uma admiração pela luta dos Guarani que haviam enfrentado de maneira tão desigual a tirania das metrópoles. Os guarani eram admirados como homens valentes, havia um sentimento heróico e um respeito por sua luta inglória. 
                
          Espero ter respondido a contento as tuas perguntas, caso restem dúvidas, você pode voltar a me interrogar. Ñamandu Guata’gua Ñandekwerupe. Há’ewei.
          NOTAS:
Cabeza de Vaca: Álvar Núñez Cabeza de Vaca, navegante espanhol que esteve no litoral sul do Brasil em torno do ano de 1540.
 Orellana: Francisco de Orellana, navegante espanhol que esteve no rio Amazonas no ano de 1542.
Kario: O povo Kario recebeu muitas designações, tais como: Kariyo, Karijo, Ari, Kari, Karai, Karaiwa, Karaiba, Karaiwe, Karibe, Ara, Kara, Kar, Awa; e outros que se referiam a detalhes de sua maneira de ser ou de viver, como: Kito, Karioka, Kariona, Piratini, Xi’inguy (Xingones, Comexingones); entre outras. 
Xume: Tomé, Thomas, Dydimos Thomas. Era Irmão de Emanu (Jesus).
Kora: Leis de Ñamandu (nosso Manu). Refere-se às leis da Natureza e ao decálogo recebido por Moxe (Moisés).  

quinta-feira, 17 de março de 2011

KORATÃ - Ara Aguyje/ 2011

Neste texto retomo alguns temas que se apresentaram em “aty, nas cerimônias que realizamos durante o “guata porã”, a caminhada sagrada, de treze dias em que andamos pelo vale do rio Dolores, na Argentina.
Escrevo para os caminhantes das cinco noites e dos treze dias que participaram dessa jornada e também para partilhar com os que não puderam estar presente, um pouco do que vivenciamos, pois, por outro lado, senti que todo o nosso povo Guarani de uma forma ou de outra esteve conosco, na reza, no espírito.

A MINA
Na primeira noite de cerimônia dormimos em uma oka onde não pudemos acender o tata porã, fogo sagrado, pelo fato de enfumaçar o ambiente, o exaustor não estava adequado, e por mais que tentássemos concertar, não dava certo, mas em nada nos abateu esse desagradável incidente, nesse enfrentamento inicial já pude sentir que estava com um povo bem guerreiro. Pela manhã, partimos do tekowa Pu’aka, da aldeia de “La Victoria”, seguimos pelo leito de uma canhada seca e já no entardecer estávamos adentrando nos legendários montes de Córdoba. A segunda noite nos encontrou sentados ao redor de um tata porã, fogo sagrado, no alto de um serro, junto à boca de uma mina de cobre de tempos imemoriais, de onde avistávamos a montanha do Uritorco. Por toda a noite fomos sobressaltados por morcegos sedentos, insistentes, de vôos rasantes.
No silêncio acumulado da vegetação me acomodei abrigando minha rede entre os galhos de dois Quebrachos Colorados. Adormeci olhando o céu descortinado e, sem me desprender da noite, sonhei com uma semente que caia sobre um leito de cobre, como uma estrela cadente; pensei: “é um ninho de trevas insepultas”. Dentro dessa semente multidões de povoados guardavam o porvir das colheitas, trançavam fibras, e em enredadeiras têxteis confeccionavam flores multicoloridas.
Toda uma existência brotou dessa semente verde de cobre oxidado: todo um campo, uma agricultura que como um rio de miríades de grãos de ouro jorrava em panelas de vapores perfumados, estendendo-se sobre contas de sol. Mas no horizonte havia dores, a selva vista dali era uma gruta azul.
Na gruta tudo era silêncio de pedra e musgo. Olho o vazio, não há ninguém, somente arbustos e pedras de quartzo branco, feito água na noite clara. Somente cabeleiras vegetais quebram essa ausência. Brilhando com a lua todos esperavam sua morte diária. O que entregava a morte dizia: “O ser como o milho se debulha no inesgotável celeiro dos dias desfeitos”.
O vento balançava as redes no ritmo de uma canção que dizia assim: “mil anos de ar, de mão azul etérea, com suaves e cuidadosos toques lustraram este solitário recinto de pedra”. Então olho a parede desgastada da mina e toco a superfície impregnada do suor de um rosto que olha com os meus olhos e toca com as minhas mãos o meu rosto cansado.

O VALE
Pela manhã descemos em direção ao vale, e já nesse segundo dia de caminhada estávamos junto ao ponto que tínhamos como referência. Foi o prazer de ouvir o canto da água após todo um dia de percurso por terra árida e vegetação crestada.
Toda a tarde transcorreu sem tempo, largas horas de sol ardente, dentro da água como num útero de frescor, abrigo de prazer junto a mim. Pude ouvir sem que ninguém visse que você veio de onde eu vim, do amanhecer da terra sem nome, de um ventre de argila, me contou também da paz de teu reino que todo povoado de perfumes tem uma eternidade secreta onde a lua não pode alcançar nem pratear no outono.
Já a terceira noite nos encontrou sentados ao redor do tata porã nas margens de um rio cristalino, entre paredões enormes nos sentíamos pequenos naquela magnificência da natureza e ao mesmo tempo majestosos por sermos parte daquela nobreza como filhos de Ñandexy Ywy retã, nossa mãe terra.
O aywu, a fala-meditação dessa noite nos recordou de lembranças adormecidas, de tempos ancestrais, de quando homens e mulheres caminhavam pela terra coletando seus frutos e adormecendo assim, ao redor de um tata porã, no aconchego de seus entes queridos. E tinham o seu sono acalentado por uma canção, por uma história ou pela emergência de um tema, quando o saber era então dessa maneira perpetrado, desenvolvido ou renovado.
Nessa noite o espírito do aty nos falou sobre o Koratã, como algo que esta para além do sonho e por tanto do que é possível de se dizer e que sendo assim, tudo que se disser não é, mas que por distração ou descuido por vezes voltamos a falar, neste caso foi mais para sentir a impregnação da voz no silêncio.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

Acabei dizendo que Koratã é a expressão do coração de Ñamandu, do coração de cujo centro emana as cores que salpicam os campos em forma de flores, ou os ares em forma de pássaros; e que é como um fio de luz na mão de um tecelão ou de uma tecelã que trama o passado, o presente e o futuro do mundo. E que koratã é também a canção que está gravada no coração de todo homem e de toda mulher, ou a urdidura aonde o tecido da vida vai ganhando a sua conformação.

ALGARROBO
Não tivemos dificuldade na sustentação de nosso corpo. Nas margens do rio Dolores havia muito agrião, e nas margens dos caminhos pitanguy’i e xania. Levamos conosco bastante petã, tabaco, e kaayu, mate guarani para o alimento cerimonial; o sol nos supria durante o dia com a sua luz, e à noite as estrelas e a lua. À noite acendíamos os petyngua, as respirações se convertiam em fragrâncias, como rosais de ares espectrais.
De dia coletávamos vagens doces de algarrobo, era como mamilos, mamávamos de seus frutos, com eles fazíamos um chá bem espesso, destilávamos leite. Árvore mãe, existência territorial, um antigo aroma propagado pelos interstícios da terra. Ruga e extensão sob uma suave povoação de estrelas, sarça selvagem que nos pegou no colo como crianças extraviadas de alguma mãe, teu instinto nos abrigou e amamentou.
Por todos os dias o sol nos forneceu sua cálida energia, sempre esteve brilhando no céu. Entretanto, assim como a nuvem que intercepta seus raios , a chuva que nos molha e o vento frio que nos faz tremer, houve momentos em que o sol desapareceu de diante das pessoas, como se guardasse o silêncio.
Mesmo nesses momentos, Kwaray, o pai-mãe sol, que irradia inabalável luz dourada, esta presente, acima do mar de nuvens. E ainda que num determinado momento a luz dele (a) desapareça do coração dos homens e das mulheres da terra, seu “yxa”, seu feixe radiante, jamais deixa de penetrar por entre as nuvens.
Kwaray, o sol, é a emanação de Ñamandu visível para todos em nosso mundo. E Ñamandu é “Ña”, aspecto feminino, e “man”, aspecto masculino. Em algumas línguas se diz “manu” em lugar de “mandu”. “Mandu’a” é a memória genética do mundo. Em outras línguas se diz “Emanu”; em hebraico, língua que os guarani falaram no período missioneiro se diz “Emanuel”, “el” frisando o aspecto divino.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty
Ou seja, a melhor tradução para Ñamandu é Emanuel. E a sua presença mais evidente entre nós são seus raios.
Podemos sentir Ñamandu, na noite, através de nossa avó Jaxy, a lua, ela é médium do sol. Também podemos vislumbrar através dos outros sois, de Jaxy tatá, as estrelas. E do tata porã, o sol que emana dos vegetais. Nosso ñeem, espírito, é fogo, é luz, podemos senti-lo através do calor dos homens e das mulheres enquanto estão vivos.
Galhos secos de algarrobo que coletamos nos montes, nos possibilitaram o fogo, iluminando e aquecendo nossas noites. Seu néctar nos deu caloria, ativando nossa chama interior. Kwaray estava em seu interior, emanava de seu Koratã. Sol vegetal. Árvore relâmpago, árvore trovão, tupã sobe por suas raízes, teus frutos te resumem tornando-se parte integrante de nosso amor para sempre.

RUWYXA
No quarto dia uma parte da tribo retornou ao acampamento base, ao Tekowa Pu’aka. Sua jornada terminaria na quinta noite. Haviam cumprido o seu propósito. Permanecemos com um pequeno grupo de pessoas que caminhariam por treze dias. Na quinta noite dormimos cedo, sentimos muito a ausência dos companheiros e das companheiras que tinham partido.
No quinto dia um grupamento de Awa Guarani passou por nós e nos saudou, parecia que tínhamos visto uma miragem ali naquele lugar ermo. Na verdade ainda não sei com certeza se o grupamento de Awa que cruzou nosso caminho era deste mundo de matéria grossa ou se era do mundo de matéria fina. Esse tipo de fenômeno aconteceu muitas vezes comigo quando trabalhava na pesquisa de campo da dissertação sobre a “Arte do Mimby”.
Na sexta noite o espírito do aty falou sobre si. Falou sobre o Ruwyxa, o espírito guia e sobre o Jukupe, o espírito guardião. Disse que há muitos e muitos milênios atrás não havia o jukupe, o espírito guardião, ou anjo da guarda. Os viventes de Ñandexy Ywy Retã, de nossa mãe Terra, possuíam coração amoroso, e assim comunicavam-se diretamente com os Ñeem Porã, com os espíritos sagrados, com os espíritos santos, com o grande espírito. Nessa época não havia o inverso, o Inferno, nem maus espíritos.
Não havia, portanto, necessidade de espírito guardião para proteger um vivente da Terra.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty
Porém, em um determinado momento da existência do mundo, espíritos desarmônicos começaram a criar o Inverso, ou o “Mundo das Trevas”, na mais baixa dimensão do Universo. Como a luz de Ñamandu não chega ao Inferno, por ser barrada pelas nuvens tenebrosas; para sobreviver assim, eles passaram a conturbar o mundo terreno e se alimentar da emanação gerada por “Marã”, a desarmonia. Para isso os espíritos do inferno foram invadindo sorrateiramente o coração dos homens e das mulheres da Terra fazendo com que eles perdessem a dignidade e o respeito por si e pelos outros seres viventes de seu orbe.
Para evitar esse completo descalabro, os Ñeem Porã Subdividiram-se em cinco, ou seja, em principio, o espírito guardião é escolhido a partir do grupo de almas criadas no Mundo Espiritual mediante a divisão da luz, ou a partir do grupo de almas constituídos pelo sistema de um espírito-principal e quatro espíritos-ramos. Porém, para missões especiais na Terra, foi instituído o sistema de Espirito Guia, em que espíritos-especialistas são designados para desempenhar esse papel.
Desta maneira, consolidou-se esse sistema: de Jukupe, Espíritos Guardiões e Ruwyxa, Espíritos Guias. Mas, mesmo assim uma grande massa de gente da Terra continua tendo seu destino manipulado pelos espíritos do inferno que desta maneira deles se alimenta, e após seu desencarne os arrasta para os seus umbrais.

KORATÃ
No sexto dia chegamos ao coração do vale do rio Dolores. Um lugar indescritível. Na margem direita do rio, no sentido da jusante, subindo por um caminho de pedras preciosas - parece recurso literário dizer que o caminho é repleto de pedras preciosas, mas é pura realidade - seguindo por esse caminho chegamos a uma fonte. Uma bacia de pedra de cujo fundo brota uma água cor de champanhe e com sabor de champanhe. Creio que o sabor mais próximo ao dessa água é o de champanhe.
Pude ver com a visão do espírito que desde tempos imemoriais ali os nativos vinham para buscar a cura de todos os seus males. E que agora mesmo habitando outros mundos para este lugar vinham para buscar alento ou por saudade. Em seu entorno havia anjos curadores e zeladores, trabalhando na sanação e mantendo o lugar em harmonia. Mesmo transcorrido tantos milênios o lugar estava em perfeita harmonia.
Porém entretido na leitura das várias camadas do tempo deixei de perceber um detalhe muito curioso. Xerayxy Yxapy Rendy me chamou a atenção para uma inscrição
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Awaju Poty

que havia na cabeceira da fonte. Estava escrito em signatura Karaiwe, entalhado na rocha: “Awaju”. Então percebi que um mbaekwaa tinha me deixado esse sinal, e que este momento tinha sido previsto, ou seja, que ali me encontrava para cumprir um desígnio. Era uma mensagem que tinha varado o tempo, e ali cumpria seu destino. Senti uma emoção que me pressionava o coração para a garganta, uma memória que não consegui racionalizar.
Na sétima noite o espírito do aty nos falou sobre o coração, explicou que a emoção que sentimos e que não conseguimos explicar se passa em um órgão análogo ao coração e que esta, na verdade, em nossa alma.
Enquanto no centro do corpo humano existe o órgão chamado coração, pya em Guarani; dentro da alma, parte do espírito que mais se assemelha ao corpo humano, existe um centro que é o Koratã. Podemos por analogia dizer que a alma tem o coração na região próxima ao coração orgânico. Mas, na verdade, o coração é um órgão que controla a circulação sanguínea no corpo e, portanto, não é o coração no sentido espiritual. Mas se, por um lado o órgão físico pode não ser o coração no sentido espiritual, por outro lado, existe uma relação bastante estreita entre eles; além de ser um órgão do corpo que sofre bastante influência espiritual.
Contudo, como se diz desde tempos remotos, quando o coração espiritual se abala, o orgânico começa a bater forte e rápido; ou quando caímos em profunda tristeza sentimos um aperto neste; ou ainda, o calor que percorre o corpo nos momentos de alegria, as lágrimas que brotam na hora de angústia, tudo ocorre a partir da região próxima a esse órgão em nossa alma.
O homem e a mulher em si são uma parte do corpo consciente de Ñamandu e, ao mesmo tempo, um microcosmo completo. Portanto, a ação do coração humano tem a mesma raiz da ação criadora de Ñamandu. Cada coisa que pensamos dentro do coração está criando algo em algum lugar entre o espaço tridimensional e o espaço multidimensional. E o conjunto de pensamentos individuais se transforma na força que cria o Mundo.
Dessa forma, se surgirem boas almas desejando a transformação desta terra e, se houver concentração e amplificação desse pensamento, de um canto a outro da Terra aparecerá a Luz. Esta luz irá permear os corações das pessoas, e a harmonia se ampliará cada vez mais, restabelecendo-se o respeito entre os seres viventes. Assim, nosso orbe se transformará em “Ywy Marã Heym”, a Terra Sem Mal.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

Mas, o inverso também pode ocorrer. Quando este mundo ficar repleto de pensamentos negativos, isto é, de ódio, de ira, de ciúmes, de falta de confiança, de egoísmo, o que acontecerá? Olhando com os olhos espirituais veremos que os pensamentos negativos aparecem em forma de nuvens negras, tal qual numa tempestade, em diversos pontos da Terra. E que esses corpos energéticos trazem consigo forças físicas que provocam o desencadear de Marã, ou seja, de desarmonias e catástrofes.
Avançando um pouco mais nesta senda vamos explicar o conceito Guarani de “Uma flecha, cem mil alvos”.
No coração das pessoas em geral há um arqueiro que está sempre em movimento, apontando para diversas direções num único dia. Contudo, a maturidade está dentro da harmonia e não em meio ao coração instável e agitado. Para onde aponta a flecha ai também está o coração direcionado. Se ele balançar o dia todo, o homem e a mulher não conseguirão atingir a verdadeira serenidade do coração.
Tal como o Cruzeiro do Sul, que sempre mostra ao povo o rumo sul, a flecha do guerreiro e da guerreira deve também sempre apontar para a direção de Ñamandu. Um guerreiro e uma guerreira, xondaro e xondaria, deve orientar-se de viver tendo sempre o coração de Ñamandu como seu próprio coração. O Koratã do xondaro e da xondaria incandesce quando vislumbra que todos os alvos se encontram em Ñamandu. Por isso: “Uma flecha, cem mil alvos”.

MBORAYU
A fonte de água borbulhante, de água gasosa como champanhe, foi o ponto culminante da nossa caminhada, ali permanecemos por dois dias. Com um amigo subi uma pequena montanha em forma de pirâmide. Caminhamos sobre quartzo branco, quartzo rosa, turmalinas negras, um caminho ladrilhado de pedras luminosas. No dia seguinte iniciaríamos nosso caminho de regresso para a aldeia base. Nesta noite desfrutei da natureza encantado com o céu aberto salpicado da luminescência proporcionada por uma tormenta elétrica. Assim que o sol se punha em sua magnificência, cactos brancos abriam suas flores perfumadas enfeitando os penhascos como adornos em corpos enluarados.
No caminho de regresso passamos por muitas taperas de pedras. Aqueles resíduos de residência haviam servido de abrigo para nossos ancestrais Xinguy, e que hoje são
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

referidos pejorativamente como “xingones, comechingones”. Pude apreciar muitos espíritos ainda residindo nestes lugares, unidos pelas suas alegrias e pelos seus tormentos. Pude ainda perceber o trabalho incansável dos jukupe e dos ruwyxa, que ali estavam com um “mboru”, ou seja, com uma determinação de propósito que lhes é próprio, buscando demover nossos irmãos das suas ilusões.
Na oitava noite o “Espírito que nos Une” se apresentou e nos falou sobre si. Sobre Ele, o mborayu. Sobre o “Espírito que nos une”, escrevi uma tese com mais de duzentas páginas. Mas o mborayu sempre traz novidade. Seu tema é inesgotável.
Desta vez iniciou contando uma história sobre um velho rei que subindo no terraço de seu palácio para tocar sua harpa e cantar um salmo recorda do dia em que avistou a mãe de seu herdeiro, o sábio dos sábios. Tinha ele levantado de seu leito, à hora da tarde, como no dia de hoje. E viu do terraço a uma mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa à vista. E ele a teve. Ela era esposa de seu mui fiel general, que ele mandou para a morte no front de batalha. No dia de hoje o Rei cantou uma canção em memória de seus dias, da felicidade e do perdão, que dizia assim:
“Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada. Bem-aventurado o homem a quem a hierarquia não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano. Enquanto eu me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo dia. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te a minha falta e a minha maldade não encobri; dizia eu: Confessarei as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu crime. Pelo que todo aquele que é santo orará a ti, a tempo de te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas a ele não chegarão. Tu és o lugar onde me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento”.
O velho rei que fez esta canção chamava-se Davi, e este canto é o Salmo trinta e dois. Nele são apresentadas cinco estâncias do mborayu.
A primeira estância que podemos observar neste relato bíblico é a do mborayu como o “amor que ama”. Esse tipo de amor não deixa de ser também o do “amor que se dá”. Esse é o tipo mais básico e geral de amor. O “amor que ama” é aquele que podemos esperar de todas as pessoas, e, instintivamente todos conseguirão entender o quanto é maravilhoso, pois o homem e a mulher, por natureza, já são feitos para sentir felicidade através do ato de se dar. A concretização desse amor é o primeiro passo para a criação da “Terra Sem Mal”.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

A segunda estância que observamos no relato sobre Davi é a do “amor que alimenta”. Tal qual a água do rio que corre da montanha para a jusante, o “amor que alimenta” é um amor que flui e orienta uma direção.
O “amor que ama”, que proporciona afeto às pessoas com quem temos afinidade, e o “amor que alimenta”, que orienta e abastece as pessoas, são maravilhosos. Mesmo assim, o segundo ainda não é plenamente suficiente para chocar o “ovo de luz”. Existem outros tipos de amor que transcendem o afeto e a nutrição, o amor da terceira estância é mais quente e tem maior eficiência no parto da luz. Esse é o “amor que perdoa”. O velho rei cantou com gratidão: “Tu perdoas-te a maldade do meu crime”.
Os praticantes do “amor que perdoa” com certeza têm vivenciado o grande salto ao estado espiritual religioso; em outras palavras, este amor é o estado de espírito das pessoas que se dedicam exclusivamente à sua própria missão, transcendendo o bem e o mal. Para se atingir esse estado de espírito, o aguyje, é necessário que se passe pela experiência do despertar espiritual, tal como a de se converter a partir da conscientização da sua própria ignorância. Somente os que descobriram a luz no meio do próprio sofrimento conseguem tirar a venda dos seus olhos e a dos olhos alheios e amar o verdadeiro caráter sagrado de toda a existência. Ao se dar conta dessa realidade o velho rei consciente das dores que passou cantou em memória da sua lapidação: “o meu humor se tornou em sequidão de estio”.
A próxima estância é o do “amor de misericórdia”, misericórdia significa luz de amor que ilumina a todos indiscriminadamente, em outras palavras, misericórdia é amor universal. O “amor de misericórdia” é tal que, existindo neste mundo um ser que o possua, se ele estiver ao seu lado num momento de sua vida, será capaz de lhe proporcionar a reformulação da alma. Essa é uma existência que clareia o mundo e acende a chama de esperança dos homens e das mulheres que compartilham com ela da mesma era. Não se trata do amor por este ou por aquele, tampouco de palavras bonitas que possam ser usadas. Não é o amor em função de gestos carinhosos. A simples existência de um ser assim por si só é um ato de amor; seria como se o amor em si manifestasse sua personalidade, tais pessoas existem e abrilhantam a história do mundo. Em louvor ao “amor de misericórdia” o velho rei cantou: “tu és o lugar onde me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento”.
A máxima estância perceptível do amor na Terra é o “amor de Emanuel”, o amor de Ñamandu conosco, amor que transcende o coração dos homens e das mulheres.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

Em contrapartida, a mínima estância desse amor é o “amor do instinto”. Dependendo da forma como é usado o instinto, ele pode sintonizar o ser tanto com o inferno como com o Mundo Astral; de qualquer maneira, este não é o amor que um homem e uma mulher que trilham o caminho do xondaro e da xondaria, ou seja, dos guerreiros da luz, devem almejar.
Um alerta, porém, é importante, em hipótese alguma o amor pode ser interpretado como aprovação às atividades dos seres malignos. Estes são interceptadores do amor de Ñamandu dirigido aos seres humanos, e suas existências são a antítese do amor. Um xondaro ou xondaria deve lutar com os seres das trevas usando como trunfo a arma do “perdão ativo”. Porque há trevosos que percebem que não podem vencer Ñamandu e atravessam o “portal do perdão”.
Mborayu endy mbae, ou seja, amor é luz. Da mesma maneira que não há trevas que vençam a luz, não há mal que vença o amor e não há inferno que intercepte o avanço do grande rio do amor até a última instância.
Pensa-se que os anjos e os demônios lutam com equilíbrio de forças, mas isso não é verdade. O Mundo Celestial inicia-se no Mundo Póstumo da quarta dimensão e vai até dimensões superiores remotas. Em contrapartida, o inferno é apenas uma parte sombreada da quarta dimensão onde nuvens tenebrosas impedem a incidência da luz-amor de Ñamandu.
O fato de a força de influência do inferno ser superestimado é justificado pela proximidade do seu campo espiritual com o do mundo terreno, e a conseqüente facilidade de captações recíprocas de ondas vibratórias.
Amor é o ato de se dar. Porém, no inferno só existem espíritos que querem receber, e que esperam que lhes façam algo. Sofrem ali pessoas que, na Terra, viveram com “amor possessivo”, sem conhecer a sua essência.
Ainda não é tarde para se acabar com o inferno. É apenas necessário fazer com que todos os homens e mulheres tenham consciência de que a essência do amor é se doar. Então qual seria o primeiro passo?
O “amor que se dá” começa pela “gratidão”, poderíamos mesmo chamá-lo de “amor gratidão”. Agradeça por estar recebendo tudo de Ñamandu. Assim fazendo terá desejo de retribuir, de alguma maneira a Ñamandu, a “natureza de todos os mundos”. Nesse momento se dá a primeira martelada que levará à ruína o manicômio das sombras. Mesmo os maus espíritos desejam ser amados mais e mais, querem receber carinho das pessoas; os seus verdadeiros sentimentos são de “carência afetiva”.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty
Portanto, os espíritos do inferno são, na verdade, SERES INFELIZES, QUE DEVEM SER SALVOS; SÃO DOENTES que se degradaram até a última instância, mas cuja enfermidade, na verdade, é “carência afetiva”.
AMA
Nas noites seguintes o espírito do aty não se manifestou por minha boca. Permaneci em silêncio. Durante os dias que transcorreram, observava os elementares em suas lidas. Rezei muito para que seres daninhos nunca dali se aproximassem com suas ganâncias. Rezei para que fossem preservados os minérios, a água pura que corre entre quartzos e turmalinas, os cactos, os montes, os animaizinhos, enfim todo esse espaço encantado que ainda persiste, como um testemunho de outros tempos, de tempos em que éramos absolutamente felizes.
Nos dias ensolarados senti intensamente o coração ardente da natureza, de nosso pai-mãe sol, Kwaray esteve esplêndido. Cantei silenciosamente nas margens do rio Dolores um canto de louvor ao portal que une os viventes de todos os mundos, e à noite adormecia sentindo a acupuntura dos raios luminosos das estrelas e a benção de Jaxy, a avo lua que nos nutria com sua luz azul.
Ainda foi a xerayxy Yxapy Rendy que me chamou a atenção para observar uma incrustação de quartzo em uma das encostas onde estava gravado um arco e uma flecha. Novamente recordei do aforismo: “Uma flecha cem mil alvos”. Era como se o aforismo estivesse ali gravado desde tempos em que o ser humano ainda não se encontrava em Ñandexy Ywy Retã, ou seja, deste um tempo em que a nossa madre Terra ainda estava aguardando por seus filhos humanos, grávida de nossas almas, preparando-se para nos receber, nos esperando com seus cuidados.
Ainda comovido com o dia, fui para a minha maka, rede de dormir. Recém tinha adormecido, já estava bem adentrada a noite, quando no yxa de Jakaira, um pássaro que nunca antes tinha manifestado seu canto, nos acordou como dando um aviso, era o prenúncio do que estava por vir. Em seguida veio um vento a galope como se um exército garboso por nos trespassasse. Então retumbaram os trovões anunciando a chegada de Tupã. Cingiram os céus raios que entrecortaram o breu da noite iluminando os penhascos e refletindo-se no rio que se aprumou como se estivesse fazendo uma contradança. Era “Ama”, a tempestade. A princípio nos assustamos, em seguida reagimos providenciando abrigo mais seguro. Depois de acomodados pudemos desfrutar daquele maravilhoso espetáculo onde movimento, som e luz se entrelaçavam brindando conosco a vida e a alegria de existir por existir assim, em festa.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty
INCANDECÊNCIA
Nos dias e nas noites restantes um mborai, um canto, esteve constantemente comigo. Mãos destras tangeram minha alma, era o “Oporaiwe”, o anjo da música. Caminhei como flutuando e dormi como se estivesse desperto. Desfrutei das várias dimensões do caminho. Quando me dei conta estávamos nas cercanias do Tekowa Pu’Aka. O canto estava em “Aywu Porã”, a linguagem sagrada, seus versos estão gravados em meu coração. Traduzido o canto dizia assim:
“É maravilhoso sentir o coração como o Sol dos sóis do universo. O Sol do supremo Hierarca é nosso Estandarte. Maravilhoso é este Estandarte, como um poder invencível, se nossos olhos já assimilaram sua irradiação refletida em nosso coração. Quer seja o coração chamado morada de Ñamandu ou de síntese das sínteses, ele ainda permanece como um ponto de fogo, tata porã. Olhar com os olhos do coração, escutar os ruídos do mundo com os ouvidos do coração, perscrutar o futuro com a compreensão do coração, recordar as acumulações do passado através do coração; perceber a beleza que reflete a mais minúscula das flores, a emanação desse amor irrestrito, é ter toda a sabedoria do mundo. Esse estado de gratidão pela vida é aguyje, o estado de louvação”.
O sol da tarde refletia a sua luz branca na areia branca da canhada seca. Nossa caminhada estava chegando ao fim. Sentíamos a emanação confusa que vinha do Tekowa; porém nos já a antevíamos.
Quando andamos na natureza em guata porã atingimos um estado de leveza que nem sempre é possível de ser mantido em meio às atribulações do “dia a dia”. Porque se assim acontecesse haveria uma incompatibilidade de tom. Então é preciso uma adequação.
Ao aproximarmos do tata porã externo, estava uma Waimi colhendo flores para enfeitar o local do fogo externo para a nossa chegada. Foi um bom prenúncio para nós, foi uma adequação suave.
Nossa presença súbita foi uma surpresa. Havia pessoas de bem pouca experiência junto ao fogo. Tivemos paciência e esperamos pela aproximação de todos os que fizeram o apoio externo. Todas estas dificuldades já eram esperadas, ou seja, não nos impactaram. Focamos no amor-compreensão.
Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty


O grupo que nos antecedeu, que chegou ao Tekowa na quinta noite, porém, não teve a mesma sorte, e não conseguiram transcender esse ambiente desarmônico, muitos deles ficaram bem descontentes com a recepção. Que haveria tanta desconsideração pelo cansaço destes nossos companheiros era uma coisa que não tínhamos previsto.
Sempre que a hierarquia dá uma tarefa a um servidor, lastimavelmente este a assume como posse, como poder, e aí se perde; os servidores da terra estão subvertendo o seu papel, abrindo brechas para as hostes do inferno. E porque isso acontece?
Os servidores querem ser reconhecidos pelo seu serviço pelos próprios pares, esquecem que é para Ñamandu que estão trabalhando e que não devem esperar nenhum reconhecimento prévio. Ao desejarem o amor dos homens e das mulheres ou reconhecimento, que é outra forma de manifestação da carência afetiva, entram na vibração dos que desejam ser amados, dos que têm necessidade de se afirmar, ou seja, na vibração das trevas. Deixam de desfrutar do amor de Ñamandu porque invertem o foco.
Os saberes mortos, os conceitos mortos, tudo que carregamos de desnecessário, tudo que já morreu e que mantemos em nós, apenas nos deixa pesados, pesarosos. O depósito desses entulhos é o “Aikwe”, que traduzido creio que poderíamos chamar de “Ego”. O Aikwe pode ser maravilhoso quando é um ser vital, quando é uma centelha brilhando no peito. Mas quando é turvado pelas nuvens trevosas da auto-idolatria, da fascinação por si mesmo, é a porta de entrada dos demônios do ciúme, da inveja e da traição. Mas tudo estava bem, uma waimi silenciosa, que tinha passado despercebida por todos, que tinha tido um gesto ignorado por todos, tinha sanado todos os males, com um buque de flores silvestres.
No interior da Oka não havia sido diferente, a ausência de um Tata Porã, a adequação às chamas de um Tataendy, à chuva que entrou pelas goteiras inundando o ponto do fogo, a falta de experiência e insubordinação aos mais experientes por parte de algumas das pessoas que fizeram a permanência na Oka, também tinham gerado desarmonia. Ou seja, a vida é enfrentamento, precisamos ser guerreiros e guerreiras de coração ardente, incandescentes chamas de luz para garantir a existência da felicidade.


Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

KORA
À “dinâmica do espírito que nos une” o povo Guarani Ñandewa chama de “Kora”, a lei. Na verdade a infelicidade é o termômetro dos atos que cometemos por ignorância, por ignorarmos o “Eu” da vida, do mundo e, sobretudo, daquilo que suscita, destrói e reproduz a estes últimos desde sempre e para sempre: a ordem da natureza. Infelicidade é o cenário que se proporciona o que dentro da sua ignorância deifica-se, mostrando-se egocêntrico, exclusivista e arrogante.
Neste mundo de matéria grossa, há dois antagonistas em todos os níveis, “Aru-Axy”, fêmea e macho, bem e mal, quente e frio, trevas e claridade, vida e morte, alegria e tristeza, amor e ódio, saúde e doença, felicidade e infelicidade, riqueza e pobreza, forte e fraco, material e espiritual. São os dois lados das coisas. Umas são dominadas pelos fatores “Ru”, outras pelos “Xy”. Estes dois lados são como as duas partes de uma mesma maçã, em suas extremidades se tocam e se confundem.
Para ultrapassar esta aparente contradição é preciso elevar-se acima de todos esses julgamentos aparentes até o nível do julgamento supremo universal, o julgamento absoluto e único do monismo formado pelos opostos complementares.
Só os que percebem os dois lados das coisas podem abarcar todo o antagonismo e o transformar em complementaridade, todos os que têm alguma coisa contra neste mundo são agônicos, jamais terão paz. A paz é outro nome que temos para dizer harmonia, saúde perfeita, felicidade eterna, liberdade infinita e justiça divina.
Todas as civilizações conhecem o Kora, sobre nomes diversos essa lei de equilíbrio é conhecida de todos. Uns a chamam de “positivo-negativo, outros de Yin-yang” e assim por diante. Até mesmo utilizam este conhecimento para manipular a energia da matéria, mas poucos a aplicam para manter o equilíbrio da vida.
Nesta caminhada tivemos o céu e o inferno disponível para cada um, ou seja, a face e o verso. Quem não conseguiu manter o foco na unidade (uni), certamente viveu o inverso (verso). Por outro lado, a existência sempre estará nos oferecendo novas oportunidades, ou seja, quem não aprendeu nestas circunstâncias propícias, terá a oportunidade de revisar, de reciclar a sua vida em outro momento. Kwaray nosso pai-mãe sempre estará brilhando mesmo sobre as nuvens mais espessas da tempestade, esperando pela nossa bonança, para a realização de nossa felicidade.

Ara Aguyje/ 2011
Awaju Poty

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Convite Cerimônia de Ñemongahei e Guata porã - 5 e 13 dias - Córdoba AG

Clicando na imagem ela cresce, e você poderá visualiza todas as informações.


Ianai irum kwere
Estamos confirmando nossa Cerimônia de Ñemongarahei
(Cerimônia de Floração dos Milhos Sagrados Guarani),
e nossos Guata Porã de 5 noites e 13 dias, em Córdoba.
Desejamos que todos vocês possam chegar pois, serão dias de confraternização e de convívio entre os vários clãs, partilhas de conhecimento e rezas, enfim um momento consagrado a Ñamandu.
Estamos em reza para que todos possam chegar!
Um grande abraço para vocês, com carinho e saudades,
Ñamandu mbyte porã ñandekwerupe,
Awaju Poty há'eguy Yxapy Rendy.

Mais informações.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Vídeos

Aqui estão quatro vídeos feitos no tekowa xiinguy.
As letras das músicas estão na página "letras de músicas".

MAINOI



IANAÍ



YXAPY REXA


APYKA MIRI